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Uma virada liberal de Dilma?

Luciano Sobral

10 Outubro 2013 | 18h53

Se tomarmos pelo valor de face o que tem sido noticiado, estamos vendo ou em breve veremos no Brasil: diversos leilões de concessões no setor de transportes, bancos públicos reduzindo o crescimento do crédito, Banco Central levando os juros básicos de volta a dois dígitos, um novo reajuste nos preços de combustíveis e o braço de participações do BNDES vendendo ações no mercado. Todas essas decisões têm (pelo menos) dois fatores em comum: vão na direção de maior peso nas sinalizações vindas de um mercado livre e têm o aval da economista mais influente do país, que também acumula o cargo de Presidente da República.

Certamente cabem muitas restrições ao que foi dito acima: por exemplo, as novas concessões ainda brigam para encontrar um equilíbrio onde retornos são minimamente atrativos para investidores sérios; e os mais céticos tanto vão esperar pela concretização de algumas medidas quanto podem dizer que o que está sendo colocado em prática cai na categoria de “muito pouco, muito tarde”.

Também é possível, porém, criar uma narrativa em que alguma coisa profunda mudou na condução da política econômica. Desde o início do governo Dilma parecia claro que os fatores que fizeram com que o crescimento do PIB nos anos Lula fosse acima da média de longo prazo–sobretudo os preços de commodities–não poderiam continuar sendo considerados em qualquer previsão minimamente conservadora. Tentou-se, então, impulsionar o consumo e o investimento via políticas monetária e fiscal. Os juros foram a mínimas históricas, os bancos estatais dominaram a expansão do crédito e as metas de superávit fiscal foram, direta ou indiretamente, afrouxadas. Seria a volta do “desenvolvimentismo”, como fez questão de sublinhar o próprio PT em suas comemorações de 10 anos na presidência.

Vejo como último suspiro desse breve experimento a tentativa de forçar uma maior desvalorização do câmbio no final do ano passado. Em pouco tempo descobriu-se que seria preciso mais do que um real depreciado para ressuscitar a indústria e que o repasse para os preços começava a ameaçar a inflação, que partia de um nível que já não era confortável.

Estava claro que algo precisava ser mudado, mas o rumo a ser seguido não era evidente. Por algum tempo, parecia que os que defendiam um aprofundamento dos experimentos heterodoxos haviam vencido uma importante batalha pelo poder. A combinação de uma rápida deterioração nas expectativas para a atividade econômica em 2013 e a perda de popularidade da presidente aparentemente forçou uma nova mudança de direção, ainda que sem substituições no primeiro escalão.

Depois de tantos condicionais, é difícil determinar quanto dessa narrativa é plausível e, mais importante, no que realmente a presidente acredita que deve ser feito para que o país volte a poder contar com o crescimento econômico como ferramenta para o desenvolvimento. A menos de um ano das eleições, acredito que os maiores incentivos sejam na direção de garantir a estabilidade de preços e a excepcional situação do mercado de trabalho. As grandes questões ideológicas e planos no campo da economia devem ficar em suspenso até lá, com a interessante evidência de que, quando as coisas apertaram, tendemos menos a governo e mais a mercado.

 

Este artigo foi publicado originalmente na AE-News/Broadcast