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Monica de Bolle

15 Janeiro 2017 | 15h31

Em ensaio provocativo e brilhante para o Valor Econômico de 13 de janeiro de 2017, o economista André Lara Resende discorreu sobre as limitações da teoria econômica, denunciando suavemente o “conservadorismo intelectual” predominante na profissão. Não surpreendentemente, o artigo foi alvo de críticas no Brasil por questionar alguns pilares do pensamento convencional sobre o funcionamento da política monetária, sobretudo a ideia de que há sempre uma relação inversa entre juros e inflação, ou moeda e inflação, ainda que a experiência recente de diversos países pareça contradizer tal preceito. Quando a crença em determinadas premissas ou teorias resiste ao teste da realidade, aqueles que as defendem tornam-se não somente “conservadores intelectuais”, mas dogmáticos ideólogos. Ou seja, é desse modo que deixa a economia de ser a imperfeita ciência social que se pretende, entrando no terreno movediço do pensamento mágico, seja pelo lado da ortodoxia ou da heterodoxia. Da economia surge o economismo.

Se as políticas econômicas de Dilma Rousseff eram severamente criticadas por não corresponder ao teste da realidade, tendo fracassado inúmeras vezes no passado, as propostas econômicas do governo que a sucedeu são surpreendentemente imunes às críticas dos economistas que expuseram os erros de Dilma. A herança econômica da presidente afastada respalda o apoio incondicional a tudo o que a equipe econômica de Michel Temer anuncia.

Antes de retornar ao inusitado “groupthink” que se apoderou de alguns formadores de opinião brasileiros, volto ao artigo de André Lara Resende. Inspirado pelas mais de 150 páginas publicadas em dezembro de 2016 por John Cochrane, macroeconomista e professor da Universidade de Stanford, o texto do Valor é uma reflexão sobre a experiência recente de diversos países com a chamada política monetária não-convencional, isto é, o uso dos balanços dos bancos centrais para promover estímulos quando a taxa de juros nominal foi levada a zero depois da crise de 2008. Ao contrário dos ditames da teoria econômica, passada quase uma década da crise financeira, não houve descontrole inflacionário decorrente da emissão de moeda. Tampouco tornaram-se os preços mais voláteis. Ainda que a recuperação tenha sido lenta, o que se observou foi um longo período de inflação baixa e estável, a despeito do inchaço dos balanços dos bancos centrais. No mínimo, isso deveria levar a uma reflexão sobre os fundamentos da teoria econômica tradicional, ensinada nos cursos básicos das universidades. Em algumas renomadas instituições de ensino – notavelmente na London School of Economics, onde estudei – e em alguns centros de pesquisa – no Peterson Institute for International Economics, onde trabalho – há debate fértil sobre a distância entre teoria e realidade, reflexões que nutrem o avanço dessa ciência tão imperfeita e incompleta.

No Brasil, depois do contundente fracasso das políticas dilmistas, não há espaço para essa reflexão. Dogmas foram substituídos por outros dogmas. Credita-se ao governo Temer a queda da inflação, ignorando-se a inusitada contração de mais de 10% da renda por indivíduo – o PIB per capita – no biênio 2015-2016. Somente agora, passados oito meses desde que Temer assumiu o governo, tomou o Banco Central a decisão de reduzir os juros com maior intensidade, apesar dos balanços destruídos, tanto do setor público, quanto do setor privado, apesar da recessão que ainda não deu claros sinais de trégua, apesar dos 12 milhões de desempregados endividados. Há tempos tenho escrito nesse jornal que a recessão brasileira deve ser vista como o resultado da implosão generalizada de balanços – do setor público, dos estados, das famílias, das empresas – e que por isso o auxílio do Banco Central era fundamental. No entanto, o governo e seus defensores fervorosos insistiam na bala de prata das reformas fiscais de médio prazo, chamando-as de “Plano Real” das contas públicas.

Que fique claro: as reformas fiscais são fundamentais. Dilma destruiu em larga escala – escrevi livro inteiro sobre isso – e o esforço de reconstrução é árduo. Contudo, repetir em coro que tudo é bom sem nada questionar não serve aos interesses de ninguém. Trata-se de economismo em sua forma mais pura, não de economia.

Precisamos de mais artigos como o de André Lara Resende.

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