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A Década em que o Brasil Parou

mosaicodeeconomia

04 Outubro 2017 | 16h19

*Vladimir K. Teles

 

Há uma música do Raul Seixas intitulada “O Dia em que a Terra Parou” que conta um sonho em que todas as pessoas do planeta não saíram de casa porque sabiam que as outras também não sairiam. Segue uma parte da letra:

 

“O empregado não saiu pro seu trabalho
Pois sabia que o patrão também não tava lá
Dona de casa não saiu pra comprar pão
Pois sabia que o padeiro também não tava lá”

 

A música continua com a mesma história para o ladrão, o guarda, os fiéis, os padres, o paciente e o doutor. A idéia é bem simples: A decisão de cada um dos indivíduos depende das suas expectativas com relação às ações dos demais.

A letra da música inadvertidamente ilustra um importante conceito de economia chamado “falhas de coordenação”. Na economia as ações dos agentes econômicos não são independentes. A decisão de investimento de uma firma depende em grande parte das suas expectativas sobre a demanda, e, logo, sobre as decisões de investimento de outras firmas e dos consumidores.

Assim, se há uma expectativa generalizada de crise, esta acaba se concretizando em uma “profecia autorrealizável”, uma vez que as firmas congelam seus investimentos, as pessoas são demitidas reduzindo o consumo, reduzindo-se assim ainda mais a demanda, quebrando-se mais firmas, e daí por diante.

Sendo assim, naturalmente o governo, sendo o maior agente da economia, passa a ter um papel central ao coordenar as expectativas dos demais agentes, levando-a para um equilíbrio próspero ou desastroso.

O governo ao se comprometer com uma meta de inflação, coordena a determinação de preços das firmas, e com isso evita incerteza e ineficiência na alocação de recursos, estimulando o investimento.

Ao mesmo tempo, ao manter um equilíbrio fiscal sustentável, o governo dá segurança aos agentes do setor privado que não será necessário um aumento dos impostos no futuro próximo para fechar suas contas, criando um ambiente seguro para os investimentos.

Ao ignorar os compromissos com a meta de inflação e com o equilíbrio fiscal, o governo Dilma no início da década atual adotou uma estratégia trágica que levou a falhas de coordenação significativas, conduzindo o país à pior década de sua história em termos de crescimento per capita. Enquanto na década de 80, a pior até então, o crescimento do PIB per capita foi de 0,2%, nos últimos anos tivemos uma queda de 10% do PIB per capita, de forma que a década atual certamente terá um crescimento negativo do PIB per capita.

A política econômica do governo Dilma realizou o sonho de Raul Seixas na música em escala superlativa produzindo a década em que o Brasil parou. O Brasil precisa aprender a lição e nunca mais repetir tais erros.

A recuperação da credibilidade do Banco Central, as aprovações do teto de gastos, da TLP, e da reforma trabalhista foram centrais para indicar um equilíbrio de coordenação mais favorável, onde vislumbramos uma saída sustentável da crise. Porém, ainda não é suficiente, pois ainda estão longe de garantir uma trajetória sustentável para a dívida pública.

Estamos em um momento chave para a história do país. A aprovação de novas reformas faz-se necessárias para criar um equilíbrio fiscal capaz de levar o país a um equilíbrio de coordenação favorável. O resultado das eleições no ano que vem, e a consequente capacidade de fazer reformas, determinará em grande parte se poderemos nos recuperar de forma sustentável na próxima década.

 

*Professor e Vice-diretor da FGV/EESP