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A redução da meta de inflação foi no momento ideal

Economia & Negócios

02 Julho 2017 | 17h16

Por Vladimir K. Teles*

O Banco Central anunciou que reduziu a meta de inflação em 0,25% para 2018, e mais 0,25% para 2019, chegando a 4% ao ano.

Porque a meta de inflação é importante para a economia?

Os agentes econômicos não reajustam seus preços concomitantemente. Assim quando há períodos de Inflação os produtores e consumidores se deparam com variações nos preços e salários relativos dos bens que precisam comprar, gerando ineficiência na alocação dos recursos, que é prejudicial para o bem-estar econômico.

Tal problema pode ser amplificado pelo fato de ser custoso obter e processar informações sobre variações de preço de diferentes bens a cada momento do tempo, de forma que a falta de coordenação dos agentes se magnifica.

Assim quando o Banco Central define uma meta de inflação e se compromete com ela, está assumindo um papel de coordenar as expectativas dos agentes, reduzindo a assimetria na definição dos preços. Um ambiente assim mais seguro promove a eficiência alocativa, aumentando a produtividade e o investimento, ao promover um ambiente de maior segurança econômica.

Além disso, quanto maior a inflação, maior a dispersão de preços, pois os agentes reajustam os preços em períodos diferentes do ano. Assim, quanto maior a inflação, menor a coordenação dos agentes na formação de preços, e pior será a eficiência na alocação dos recursos.

Essa é a principal razão para baixar a meta de inflação. Mas a pergunta que surge é: o momento atual seria o mais apropriado?

A resposta não apenas é sim, mas podemos dizer que estamos passando por uma oportunidade ímpar para a redução da meta. Isso ocorre porque a economia está sofrendo uma forte escassez de demanda, que puxa a inflação para baixo. Tal escassez de demanda foi amplificada por um choque positivo de oferta, diante da safra recorde no 1o trimestre.

Assim, a inflação já está atingindo níveis muito baixos possibilitando ao Banco Central reduzir rapidamente a taxa de juros, e ao mesmo tempo, reduzir a meta de inflação. Em outras palavras, a economia já se encontra em um momento de redução natural da inflação, de forma que a diminuição da meta ocorre sem custos.

Ao mesmo tempo, quando esse ciclo de escassez de demanda passar, os agentes já terão a informação da nova meta, podendo se coordenar para reajustarem seus preços com menor incerteza.

O timming da mudança da meta foi perfeito. A meu ver porém foi tímido. Entendo que estamos vivendo um período perigoso de crise de demanda, logo acredito que a meta poderia ter sido reduzida a valores menores, pois 4% continuará sendo uma das maiores metas de inflação do mundo.

Além disso, a queda da demanda impõe ao Banco Central uma redução mais incisiva dos juros. Essa redução foi desacelerada pela incerteza promovida pela crise política. Porém, a economia continua apresentando deflação de preços, e o câmbio não disparou. Logo, o Banco Central pode e deveria, assumir uma postura mais ousada na redução de juros e da meta.
*Vladimir K. Teles é professor e vice-diretor da Escola de Economia de São Paulo – FGV