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Eleições 2018: Máquina Partidária ou Sentimento Anti-Establisment

Foto do momento sugere Bolsonaro no segundo turno ainda favorecido com o Habeas Corpus do Lula sendo aprovado

mosaicodeeconomia

04 Abril 2018 | 15h59

*Marcelo Kfoury Muinhos

Ontem (03/04), o Centro Macro-Brasil da FGV-EESP organizou o segundo debate sobre as eleições de 2018, que contou com a presença dos professores da FGV: Claudio Couto, Carlos Pereira e Yoshiaki Nakano e com o cientista político Christopher Garman da Eurasia.
Em relação ao primeiro seminário, realizado no fim de novembro, 4 coisas evoluíram:
– Lula com baixa probabilidade de concorrer, por ter sido condenado em 2a instancia.
– Temer com maior probabilidade de concorrer, mesmo sendo o mais impopular presidente de todos os tempos.
– Consolidação do nome de Bolsonaro na extrema direita.
– Tendência da participação de Joaquim Barbosa.
Porém, um fator se mantém inalterado: a falta de convicção com a candidatura centrista/reformista de Geraldo Alckmin.

Além disso, uma dúvida que me tira o sono permanece:
A eleição geral será um empecilho para os candidatos sem máquinas partidárias ou o sentimento anti-establishment prevalecerá?

Garman defendeu que esse sentimento é presente e a raiva da classe média com os políticos tradicionais podem atrapalhar os modelos de previsão de resultados que eram usados anteriormente.
Fenômenos já vistos no Brexit e na eleição do Trump estão claramente presentes na atual conjuntura política brasileira. Seguem alguns dados:
– 68% das pessoas acreditam na afirmação que os políticos e partidos tradicionais não ligam para elas.
– 54% concordam fortemente e 30% concordam em parte que o Brasil precisa de um líder forte disposto a infringir as regras.
– 32% (concordam fortemente) e 27% (concorda em parte) confiam mais nas informações que recebem nas redes sociais do que no noticiário da grande mídia.
Garman realçou que Bolsonaro tem ido bem ao surfar esse sentimento de raiva da população, apresentando argumentos que a população quer ouvir de forma autentica e não é “fogo de palha”.

Carlos Pereira salientou a importância da capilaridade dos grandes partidos, que representa uma rede de interesses locais e tem os seus representantes nacionais para estruturar essas demandas. Além disso, acha que a falta de dinheiro de estrutura e de tempo de televisão fragilizam a candidatura de partidos nanicos. O PSL por exemplo terá pelo fundo eleitoral e do fundo público criada pelo congresso R$14 milhões contra R$305 milhões do MDB e R$250 milhões do PSDB.

Além disso, ele elencou três crenças que dominam imaginário eleitoral: Agenda inclusão social, responsabilidade fiscal, perfil anticorrupção, sendo Bolsonaro um candidato monotemático.

Já Cláudio Couto relativizou a polarização atual, argumentando que isso sempre ocorre em eleições, mas não deve ser confundido com extremismo. Salientou que a postura de defender a violência como forma de solução política que caracteriza Bolsonaro é um elemento sociologicamente identificado com o fascismo. A ausência de Lula na eleição pode radicalizar ainda mais o seu discurso e Couto se mostrou preocupado com a complacência do mercado com as credencias liberais recém adquiridas do candidato.

Houve concordância que a presença de Joaquim Barbosa pode emparedar o trio Ciro, Alckmin, Bolsonaro que se desenhava. Quanto mais tarde ocorrer a definição da não candidatura de Lula, mais o PT corre o risco de perder a supremacia da esquerda, que chegará mais dividida na eleição com maior risco de não ir para o segundo turno.

Garman caracterizou Barbosa como um candidato semirreformista, junto com Bolsonaro. A presença do ex-juiz do supremo pode significar reformas de pior qualidade dado a sua potencial dificuldade de relacionamento no Congresso.

Uma evidência absolutamente tempestiva, apresentada por Carlos Pereira no dia da votação do habeas corpus, é que há uma diferença no comportamento do eleitorado, se o candidato é só suspeito ou já é condenado pela justiça. No primeiro caso, pode haver um viés de confirmação em que se o candidato considerado corrupto é ideologicamente próximo ao eleitor, sendo que o eleittor pode relevar a acusação através de dois mecanismos. Primeiramente, uma tolerância cognitiva, quando os benefícios trazidos pelo suspeito de corrupção mais do que compensam a questão ética, e um segundo pelo efeito de percepção, em que o eleitor simplesmente não acredita nas informações. De qualquer maneira, esses dois efeitos enfraquecem no caso de condenação do político.

Sumarizando, a foto do momento sugere a presença de Bolsonaro no segundo turno, convicção essa que será fortalecida com o Habeas Corpus do Lula sendo aprovado.

* Professor e Coordenador do Centro Macro-Brasil da FGV-EESP