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Impasse ente Estabilidade e Reforço das Instituições

Economia & Negócios

20 Junho 2017 | 18h56

Marcelo Kfoury*

Há uma frase atribuída ao ex-deputado mineiro Virgílio Guimarães:

Todo mundo passa pelo sinal vermelho de madrugada, mas se dois carros trombarem é preciso chamar a perícia e seguir todos os procedimentos. ”

Isso hoje em dia se aplica a situação política brasileira e especialmente ao julgamento da chapa Dilma-Temer no TSE. Uma vez que fica provado que teve dinheiro sujo no financiamento da campanha, tem que chamar a perícia, pois se não há uma sensação de impunidade e um cheiro de pizza, que é nocivo institucionalmente falando.

Por outro lado, todos queremos voltar à normalidade e não falar mais de crise política num momento em que a economia parece estar saindo da recessão. Ficou uma frustação, pois parecia que as reformas estavam bem encaminhadas e rumávamos para uma transição suave até as eleições de 2018. Não é a intenção desse artigo ter uma resposta definitiva para esse dilema entre normalidade e avanço institucional, só quero explicar o diagnóstico da situação

Os últimos dados econômicos (varejo de abril subindo 1% em relação ao mês anterior) mostram que há chances de o crescimento econômico ser novamente positivo no segundo trimestre depois do dado significante já ocorrido no primeiro trimestre, pondo fim a mais longa recessão da história. A expectativa de enfim termos um PIB positivo depois de quase 10% de queda nos últimos anos é factível.

No front inflacionário, a inercia parece ter sido enfim debelada e os preços dos serviços que mostravam uma grande resistência no ano passado agora estão no chão. O câmbio, mesmo com toda volatilidade política, está bem-comportado, respondendo ao alto preço das commodities e à situação econômica internacional. Além disso, não há sinal de repasse da desvalorização cambial para a inflação. O Banco Central deve baixar a Selic para a casa dos 8% colocando os juros reais nos menores níveis nos últimos cinco anos dado o cenário assaz benigno da inflação em que há risco de se descumprir a meta de 2017 por baixo, com a inflação fechando abaixo de 3.5%.

O calcanhar de Aquiles da economia continua sendo as contas fiscais e se as reformas não forem aprovadas e principalmente a previdência sendo definitivamente prorrogada ou excessivamente diluída, o ambiente econômico favorável pode se deteriorar. A equipe econômica, que é um esteio e poço de racionalidade, tem prazo de validade, se verificarem que as reformas não andam e se houver uma progressiva deterioração da situação política, eles podem sair.

Há portanto, esse trade-off entre dar um salto na melhora nas instituições ou de voltar se voltar normalidade tirando o país da recessão.

Não podemos perder essa chance de melhorar as instituições brasileiras e varrer do mapa políticos levianos e corruptos, reformando a política, principalmente o financiamento das campanhas. Porém a transição pode não ser suave e não há garantias que chegaremos num porto seguro. Os antigos inquilinos do governo federal, que tentaram se apoderar do poder através da corrupção sistêmica, estão ávidos para voltar por qualquer via possível. Há que se esperar pelo resultado da perícia da gravação que incrimina o presidente ou novas delações. Se o áudio da delação tiver sido editado, Temer poderá parecer como vítima nessa história e os acusadores da procuradoria e no STF terão que dar explicações a sociedade. Se autêntica, o Congresso estará na contramão da história ao impedir que se processe o presidente.

Os mercados detestam incerteza e volatilidade e a questão a responder é se ainda o projeto Temer é viável para fazer a travessia ou já atravessou um ponto de não retorno. Ainda há chance de aprovação das reformas e a economia está saindo das cordas. Aparentemente ainda não há consenso político, que ele tem que ser removido e nem se estabeleceu um grupo para substitui-lo.

Não é um caso simples, e estamos caminhando num equilibro bastante instável. Se realmente ficar provado as acusações contra o presidente, o consenso político para a sua substituição se forma, Temer morre de morte morrida e o caminho para 2018 fica mais tortuoso. Porém, posturas moralistas e indignadas, que não oferecem opções para resolver esse impasse, podem ser ainda mais desestabilizadoras. Esse é o país que vivemos e esses são os políticos que nos representam. Se forem provados os seu deslizes, eles têm que ser punidos, mas é impossível que por um milagre se mude essa realidade e só se elejam políticos perfeitos da noite para o dia.

*PhD em Economia pela Universidade de Cornell, Professor da Escola de Economia de São Paulo – FGV, e coordenador do Centro Macro Brasil da FGV/EESP