As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

O Regime Militar não foi bom para o Brasil

mosaicodeeconomia

05 Abril 2018 | 16h07

*Leonardo Weller

A candidatura de Jair Bolsonaro à presidência da República alimenta-se da nostalgia do regime militar. Ao contrário do que saudosos antidemocráticos supõem, a ditadura que se impôs entre 1964 e 1985 não foi boa para o Brasil. Este artigo lista frases que ufanam a época em que os militares estavam no poder e apresenta argumentos factuais que evidenciam a falta de fundamento de tal visão.

 

A vida era melhor na época do regime militar

O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) brasileiro é mais elevado hoje do que ao final da ditadura: 0,754 em 2018 contra 0,692 em 1985. É verdade que o IDH aumentou em quase todo o mundo, mas após a redemocratização nós reduzimos um pouco a distância em relação ao campeão mundial, a Noruega: o IDH brasileiro é 79,5% do norueguês atualmente, contra 77,9% em 1985. Não que estejamos bem, mas estávamos pior há 35 anos.

 

Talvez os mais abastados tenham motivo para sentirem saudade do tempo dos militares. A desigualdade de renda elevou-se naquela época: o índice de Gini cresceu de 0,53 para 0,59 entre 1960 e 1980 (em 2014 ele foi de 0,49). Uma política salarial concentradora de renda achatou o salário mínimo de R$1.061 para R$624 (valores em dinheiro de hoje) durante a ditadura. Os ricos eram relativamente mais ricos e a grande maioria vivia mal.

 

Na época da ditadura não havia violência.

Os dados nos dizem que o Brasil ficou mais violento durante a ditadura. Segundo artigo publicado pela Revista Brasileira de Epidemiologia, a taxa de homicídios na cidade de São Paulo aumentou de 6 por 100 mil em 1960 para 11 em 1970, 19 em 1980 e 36 em 1985. Hoje ela é de 10. Ou seja, no que toca homicídios, São Paulo é mais segura atualmente do que nos anos de repressão. O crescimento dos homicídios no Rio de Janeiro foi ainda mais rápido e, de acordo com pesquisa da Fiocruz, bateu 41 por 100 mil em 1985, patamar acima do atual. Visto por esse ângulo, a intervenção federal-militar naquela cidade não faz o menor sentido.

 

Os governos militares foram responsáveis indiretos pela violência. O golpe de 1964 suspendeu um programa de reforma agrária que poderia ter minorado o forte êxodo rural do período. O surto de criminalidade dos anos 70 e 80 ocorreu em cidades inchadas, mal planejadas e desiguais – um legado da ditadura.

 

O Brasil cresceu quando os militares estavam no poder

É verdade que houve um “milagre econômico” entre 1869 e 1973, mas a maior recessão da história brasileira (empatada com a recente) também ocorreu na ditadura, de 1981 e 1983. A crise dos 80 foi consequência direta da pujança irresponsável dos 70. Os governos Médici (1969-1974) e Geisel (1974-1979) contraíram uma dívida externa enorme para financiar o crescimento acelerado. Na tentativa de pagá-la, o governo Figueiredo (1979-1985) travou a economia. A forte contração reduziu as importações e elevou o influxo de dólares. Apesar do esforço, contudo, o Brasil acabou dando calote. Para piorar, a crise acelerou a inflação, que bateu em 235% (IGP) no ano em que Figueiredo deixou a presidência.

 

A economia industrializou-se na década de 70, mas o crescimento industrial concentrou-se em empresas ineficientes que dependiam de proteção comercial e subsídios. As exceções são poucas. Petrobrás e Embraer tornaram-se competitivas graças à abertura econômica realizada por governos democráticos.

 

Não havia corrupção na ditadura

É impossível testar essa afirmação, pois ditaduras não contam com órgãos independentes, capazes de investigar e julgar governantes corruptos. A democracia brasileira deu força e autonomia ao Ministérios Público. Nós não sabemos o quanto se roubava pois ninguém ia preso. Mas haja vista os vultosos subsídios que os governos militares distribuíam a uma pequena elite empresarial, é muito improvável que ambos os lados do balcão fossem inteiramente honestos. Não por acaso, a Odebrecht tornou-se uma gigante naquela época.

 

Ditatura é um mal em si mesmo; a democracia é inegociável. Se nosso sistema democrático é falho, cabe a nós como sociedade aperfeiçoá-lo. Não há saída fácil. A crença de que o regime militar fez bem ao Brasil é uma mentira capaz de nos desvirtuar do longo caminho civilizatório que temos pela frente.

 

 

*professor da FGV EESP e doutor em história econômica pela London School of Economics. Este artigo expressa opinião do autor, não representando necessariamente a opinião institucional da FGV.