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Reunião Anual do FMI/Banco Mundial: Lições

Recuperação econômica brasileira é fato mas ajuste fiscal e eleições de 2018 são fatores de preocupação no evento

mosaicodeeconomia

20 Outubro 2017 | 15h10

* Marcelo Kfoury Muinhos
Na semana passada aconteceu o encontro anual do FMI e do Banco Mundial (12-14 Outubro). Essa é a primeira vez que fui no evento sem estar vinculado ao Citi, podendo participar também dos eventos das firmas concorrentes. Em seguida, apresento algumas conclusões tiradas dos eventos e das conversas com outros colegas.
A situação econômica mundial passa por um período de crescimento mais consistente com recuperação do comércio mundial e sem pressão inflacionária no curto prazo. Isso permitirá a retirada bem gradual da abundante liquidez internacional pelos bancos centrais sem sobressaltos. A situação econômica na Europa e na também na China continua surpreendendo positivamente, e não se espera grande efeito real do pacote fiscal de Trump nem no médio prazo. Os maiores riscos para o cenário internacional são geopolíticos, como algum conflito bélico com a Coreia do Norte ou mesmo de radicalização da situação da Catalunha..
Países latino americanos também apresentam situação mais favorável, com ocorrência de melhora nas contas corrente e perspectivas mais favoráveis de crescimento, além da melhora do preço das commodities. Ainda há algumas dificuldades com o ajuste fiscal em alguns países, mas parece que Brasil e Argentina são os queridinhos de mercado em detrimento do México, que ainda tem muito a perder numa eventual renegociação do Natfa. Ocorrência de eleições em vários países latino-americanos é um risco, dado a raiva que a população está da classe política nesses países.
Para o Brasil, há um consenso que uma recuperação econômica cíclica já começou e que pode surpreender um pouco positivamente em 2018, recuperação essa, que deve se calcar nos investimentos. Meirelles enfatizou que a desalavancagem das empresas já deve ter acabado, o que pode gerar uma recuperação da formação do capital fixo no próximo ano. Segundo ele, a queda da relação dívida/EBITA das empresas de 4,2% para 2,7% comprova esse ponto. Outro ponto relevante é a política monetária que pode se situar no terreno expansionista por mais tempo, dado o caráter extremamente benigno do cenário inflacionário. A queda dos juros e a recuperação do salário real exercerão impulso no crédito da pessoa física.
O calcanhar de Aquiles da economia brasileira continua sendo o ajuste fiscal, que além das dúvidas sobre a aprovação da reforma da previdência, tem outro ingrediente de preocupação: a regra de ouro. Mesmo com todos os desafios ainda requeridos para o ajuste fiscal, a distância da situação atual de um déficit de 2,5% para um superávit requerido para estabilizar a relação dívida/PIB é menor do que suposto anteriormente. Se projetarmos um crescimento do PIB ao redor de 2,5% e um juros nominais nos próximos anos ao redor 7%, esse superávit de equilíbrio pode ser de 1% do PIB, portanto bem menor do que o suposto anteriormente de 2,5%. Além disso, se houver a aprovação de uma reforma enxuta da previdência, e o teto dos gastos públicos for para valer, há uma expectativa de queda da despesa/PIB de cerca de 0,5% ao ano. No lado das receitas, se supormos, como o Meirelles apontou, que a elasticidade renda da receita for maior que 1, a volta do crescimento deve acarretar a melhora de 1,5% de receita em relação ao PIB no próximo ano.
O risco político com as eleições de 2018 no Brasil foi bastante discutido. Uma questão relevante é saber quem vai ocupar o espaço político de centro-direita, e se esse eventual candidato terá um prospecto reformista. Atualmente, o deputado Bolsonaro está ocupando o espaço de candidato anti-establisment, surfando na raiva da população contra a classe política. O cientista político, Chris Garman, da consultoria Eurásia, acha que se mais de um candidato com perfil reformista de centro aparecer, menores são as chances de candidatos com discursos mais radicais. Ele acha que um candidato com perfil parecido com Joaquim Barbosa pode ter chance de ser eleito.
• Professor e Coordenador do centro Macro-Brasil da FGV-EESP