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Temer está mais para Dilma do que para Sarney

Economia & Negócios

26 Junho 2017 | 05h00

Marcelo Kfoury*

Logo após a delação do Friboi, eu escrevi um comentário que o cenário mais provável atualmente é Temer começar a manobrar para chegar ao fim do mandato como fez Sarney nos anos oitenta, ao invés de deixar um legado como fez Itamar, outro vice em destaque. Porém, dado o desenrolar dos fatos, o governo atual vai rapidamente se convertendo mais em problema do que solução. Isso pode significar que já atravessamos o Rubicão, quando não há mais condições para Temer continuar a governar de maneira eficaz, o que o faria se parecer com a Dilma ao invés do Sarney.

São três as pré-condições para um governo ser deposto: crime, consenso político e manifestação popular. Nesse momento, só a primeira condição está sendo claramente ticada, na verdade mais do que satisfeita, pois dado o teor das delações, o que não faltam são crimes. A procuradoria irá propor ao invés de uma na verdade quatro denúncias, entre elas organização criminosa, corrupção passiva e obstrução de justiça.

Já a última condição, de pressão popular para a queda, talvez não seja necessária no caso do atual governo, dada a falta de legitimidade e popularidade de Temer. Não vejo uma indignação popular de monta como foi o caso contra Dilma dada a repulsa de certa parcela da sociedade contra o PT.

Porém mesmo assim o governo Temer pode cair mesmo sem o povo na rua querendo derrubá-lo.
O que não se verifica mesmo é o consenso político para o day-after. Há necessidade de uma constatação que com o Temer é pior que sem ele, como aconteceu no final do governo Dilma. Ainda não foi feita outra pinguela para finalizarmos o mandato e não tendo uma solução costurada ainda. A própria indecisão do PSDB em tomar uma postura definitiva esbarra no risco de agravamento da tensão política chegando num caso de crise institucional.
Não vejo com bons olhos a antecipação da eleição presidencial por vários motivos. A necessidade de se alterar a constituição, o que me parece uma solução casuística e há grupos inclusive que pressionam por essa solução com um trampolim para voltar ao poder.

Há inclusive o risco dos antigos inquilinos do governo federal, que tentaram se apoderar do poder através da corrupção sistêmica, quererem manobrar para voltar ao poder de qualquer via possível e enxergam na antecipação das eleições diretas um atalho.

Seria uma eleição solteira, o que possibilitaria um outsider sem estrutura partidária chegar ao poder, como no caso do Collor em 1989.

A eleição viria numa hora que a Lava-jato não chegou ainda aos políticos, podendo haver a candidaturas de políticos com contas a acertar com a justiça, o que poderia gerar ainda mais instabilidade se o próximo presidente começar pressionado por processos.

O pior dos casos é um prolongamento da agonia pública do atual governo, contaminando as expectativas dos agentes econômicos e abortando a recuperação econômica já em curso, no caso de esgarçamento do governo Temer. Os mercados não gostam de instabilidade, e sendo o mandato do presidente eleito indiretamente muito curto, toda a expectativa estaria na eleição direta, sendo o eventual substituto do Temer ainda mais pato manco do que ele está sendo atualmente.

O cenário ideal seria um mandato tampão sendo designado, outro mandatário do mesmo bloco de sustentação do atual governo, seguindo as diretrizes já traçadas pela atual equipe econômica. O próprio Rodrigo Maia poderia assumir esta posição, já que foi o ungido pela Câmara a sua liderança. O importante seria acontecer uma transição rápida de um governo que tenha força para continuar a aprovar as reformas, que já estão encaminhadas no congresso.

Como já disse anteriormente, o calcanhar de Aquiles da economia continua sendo as contas fiscais e se as reformas não forem aprovadas e principalmente a previdência sendo definitivamente prorrogada ou excessivamente diluída, o ambiente econômico favorável pode se deteriorar.

*professor da FGV/EESP e coordenador do centro Macro Brasil da FGV/EESP