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Uma Análise de Oferta e Demanda para as Eleições de 2018

O voto não pode ser uma arma de vingança contra o status quo mas sim uma escolha de um projeto político amadurecido e duradouro

mosaicodeeconomia

11 Outubro 2017 | 14h54

*Marcelo Kfoury Muinhos

Economista tem obsessão em analisar todos os contextos através de diagramas simples de oferta e demanda, pois assim pode se achar um preço e uma quantidade que equilibram o mercado. É perfeitamente possível aplicar uma análise parecida para as eleições de 2018. Nesse caso, a parte da oferta pode ser representada pela analise dos candidatos que estarão nas eleições e a demanda seria os desejos da população.
Geralmente, as análises são feitas em cima das características de cada candidato, as suas plataformas, a sua origem e a sua experiência e além disso como o eleitorado vai reagir a cada um. Portanto, partindo do lado da oferta. O analista político tem um retrato da situação de cada um com as pesquisas eleitorais, que mostram as intenções de voto, a rejeição, o grau de conhecimento e várias características dos candidatos, apresentando assim o potencial de votos de cada um. Portanto, baseada nessa análise dos nomes, fazemos um prognostico para a eleição.
O meu ponto é que essa eleição vai ser diferente. A chave é analisarmos o que a população quer. Quem conseguir entender as demandas do eleitorado e empolgar as massas será o candidato vitorioso. Numa análise bem intuitiva, identifico três demandas básicas da população: recuperação econômica, moralidade da política e segurança pública.
A recuperação econômica, ora em curso, não será suficiente para amparar uma candidatura vinda do bloco de apoio do atual presidente. Podemos mesmo arriscar a dizer que essa é uma condição necessária, porém não suficiente para qualquer postulante entusiasmar o eleitorado. Se houver, qualquer abalo na recuperação vindo, por exemplo, de um problema externo, isso poderá ser uma pá de cal para candidatos, que estão no bloco de apoio de Temer. Por outro lado, apenas a recuperação não é suficiente para cacifar alguém como Henrique Meirelles.
A revolta da população contra os políticos no roldão das denúncias da Lava Jato aparentemente está sendo capturada pelo deputado Bolsonaro, que a princípio tinha uma agenda mais relacionada a segurança. Ele está ocupando o espaço do outsider, dada a sua retórica mais agressiva e posicionamentos mais ousados. Difícil de prever se a sua falta de traquejo em outras áreas como política econômica, política internacional e a sua própria falta de experiência em cargos executivos podem eventualmente minar a sua candidatura. A própria candidatura de Collor de Melo em 1989 também nasceu de uma agenda mais estreita de combate à corrupção e acabou vingando.
Outra grande incógnita é a presença de Lula no páreo, mas claramente a sua candidatura não vai ao encontro das demandas aqui levantadas, sendo muito mais uma manifestação da inércia de seu passado de maior líder popular da história recente do Brasil. De qualquer maneira, se não houver impedimento político, a presença do ex-presidente no segundo turno, olhando o quadro hoje, parece garantida. Porém, com exceção de uma polarização extrema como no choque com Bolsonaro, acho baixa as chances da eleição do Lula no segundo turno. A sua eleição seria um passo para trás nessa análise pelo lado da demanda, levando se em conta os desejos da população nas próximas décadas aqui identificados.
Várias questões como o financiamento do Estado, reformas importantes para destravar o crescimento devem ser discutidas. Portanto, há necessidade da escalação de nomes que ocupem uma agenda em termos políticos/econômicos mais equilibrada, para que a população possa agir de maneira mais racional para escolher o futuro do Brasil, não apenas manifestando a sua raiva contra a elite política brasileira. O voto não pode ser uma arma de vingança contra o status quo, mas sim uma escolha de um projeto político mais amadurecido e duradouro.

* Professor e Coordernador do Centro de Estudos Macro Brasil da FGV-EESP