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Tempos modernos e desafiadores para a agropecuária brasileira

Jose Vicente Caixeta Filho

31 agosto 2014 | 14:41

A agropecuária tem salvado o crescimento de nosso PIB já por diversas oportunidades. Parece, entretanto, que esse fôlego está acabando. Os atuais tempos modernos, que parecem estar se tornando cada vez mais difíceis, têm o desafio da integração de equipes multidisciplinares de trabalho, em prol da sustentabilidade de longo prazo

Agricultura; Novos tempos

Foto: Epitácio Pessoa/Estadão

Dizem que quando ficamos mais velhos olhamos o mundo de outra maneira. O que era um pouco à esquerda parece se movimentar um pouco para a direita e assim por diante. Deve ser verdade… Os depoimentos dessa natureza começam sempre com o famoso: “Na minha época…”.

Pois então, não faz muito tempo em que diversas instituições recebiam um respeito muito maior que aquele que se observa hoje. Poderíamos começar com a família, passar pela Igreja e chegar a um rol seleto de profissões: professores, médicos, advogados, agricultores, dentre outros. Não faço coro com a “falência das instituições”, mas que a mudança é evidente, isso é um fato.

Quando se fala de agropecuária num país como o nosso, tem se tornado um bordão recorrente a necessidade do enfoque de “cadeia de abastecimento”: o produtor tem que se relacionar muito bem com o seu fornecedor de insumos, com o geneticista, com o transportador, com o armazenador, com o trader e certamente com o consumidor, dentre diversos stakeholders nessa rede de negócios.

Portanto, fica bastante evidente que o sucesso dessa “cadeia de abastecimento” será extremamente dependente das negociações e conversações entre esses diversos agentes, não fazendo mais sentido se atentar a uma única regra de relacionamento.

No entanto, muitas das gerações (as mais antigas, principalmente), não se atentaram ao crescimento desse verdadeiro e legítimo espírito democrático. Por exemplo, muitos de nós, supostamente pais modernos, desejamos/exigimos que nossos filhos sejam também nossos melhores amigos, sem muita oportunidade de diálogo para tal.

A Igreja, que num país como o nosso se confundia com a religião católica, passa por um momento em que a competição com outros credos é patente. Princípios éticos teoricamente sólidos, aprendidos por meio de quaisquer religiões, não parecem mais fazer a diferença em muitas das rodadas de negociações em que venhamos tomar parte.

Profissionais respeitados: relação muito direta com o grau de remuneração envolvido. A baixa valorização de um produtor, por exemplo, faz com que desincentivos sejam evidentes quando da atração de bons profissionais. Caso esse bom profissional venha a ser atraído, mais que um produtor, torna-se literalmente um sacerdote, carregando toda a carga extra de sacrifícios passíveis de serem suportados.

Novos tempos, novas profissões, novas valorizações.

O novo paradigma: ser feliz. Fazer as coisas em casa, no trabalho, com muito prazer. Torcer para que a irmã, o vizinho, o concorrente se deem bem na vida. Todos ganhamos muito com o sucesso dos outros. E a possibilidade de se apoiar em instituições sólidas para se alcançar tais feitos fará com que se diminua cada vez mais o hiato que separa as nossas diversas classes sociais.

Estamos nos preparando para isso? Não tenho muita certeza. Oportunidades para intercâmbios institucionais de alunos de ensino médio e de ensino superior começam a receber o incentivo e recursos por parte tanto de órgãos governamentais quanto da iniciativa privada. Novas gerações, em breve, terão que assumir uma série de funções gerenciais, seja no ambiente público ou privado, seja na agricultura familiar ou empresarial.

A departamentalização de conhecimento passará – claramente – a não fazer mais sentido: a abordagem transversal na gestão de problemas demandará a integração eficiente de equipes multidisciplinares.

A tecnologia de informação estará ainda mais sofisticada mas cada vez mais barata. O aluno poderá montar e assistir a grade de disciplinas de seu interesse – à distância – nas melhores instituições educacionais do planeta.

Riscos envolvidos? Pode-se começar a partir daquela sensação de se acordar (e não se ter certeza de onde estamos) se tornar cada vez mais comum: as áreas de produção, por exemplo, poderão ficarão muito parecidas.

A agropecuária tem salvado o crescimento de nosso PIB já por diversas oportunidades. Parece, entretanto, que esse fôlego está acabando. As estritas dependências para com pessoas, para com segmentos econômicos, não parecem fazer sentido para um país rico e diversificado como o nosso. Os atuais tempos modernos, que parecem estar se tornando cada vez mais difíceis, têm o desafio da integração dessas equipes multidisciplinares de trabalho, em prol da sustentabilidade de longo prazo.