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É possível aproveitar o mercado sem ter chefe

segunda-feira 23/06/14

Disciplina, contatos e reserva financeira ajudam autônomos na rotina profissional

Victória Mantoan
ESPECIAL PARA O ESTADO

No primeiro trimestre, quase 21 milhões de pessoas trabalhavam por conta própria, 23% de toda a população ocupada, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). [A liberdade de administrar o tempo e ter disponibilidade para se dedicar a outras atividades são algumas das razões que levam profissionais a optarem por atuar de forma autônoma. Foram justamente essas possibilidades que convenceram o fotógrafo Silvio Augusto, de 24 anos, e a designer Ariane Rauber, de 30, a escolher trabalhar como freelancer. Adotar posturas independentes como eles fizeram, no entanto, requer alguns cuidados.

Para o economista Edson Carli, o custo de manter um espaço físico de trabalho e o tempo gasto em deslocamentos nas grandes metrópoles contribuem para que mais pessoas decidam trabalhar por conta própria, muitas vezes em casa. Mas essas motivações não são suficientes para garantir o sucesso de quem opta pela autonomia.

Ariane pode trabalhar mais ( Foto: Arquivo Pessoal)

 Quem quer entrar no mercado por conta própria precisa ter um perfil empreendedor e comunicador, precisa ter novas ideias e contatos no mercado, segundo o professor e coordenador do Centro de Empreendedorismo e Novos Negócios da Fundação Getúlio Vargas (FGV-SP), Tales Andreassi. “Se a pessoa não tem esse perfil, ela pode não conseguir outros clientes e ainda vai perder os benefícios de um emprego”, diz.

O economista Carli pondera que o autônomo tem de se enxergar como uma empresa. Primeiramente, deve ter consciência de que não é dono de todo o seu tempo. O profissional deve exercer sozinho todas as funções de uma companhia, como buscar clientes, fazer comunicação e marketing, contabilidade e pagar os impostos. Nesse sentido, Carli pondera que o trabalhador autônomo tem de apostar na organização das tarefas: “É preciso reservar um quarto do tempo para fazer contatos e mostrar seu produto”.

Liberdade. Profissionais que já atuam no mercado de forma independente também concordam que a ideia de liberdade total de tempo é um mito. Ariane atua há três anos como designer freelancer e logo percebeu que era preciso disciplina. “Como eu não tenho horário definido, posso trabalhar muito mais.” Antes de ficar integralmente autônoma, ela já conhecia bem o mercado, tinha feito alguns trabalhos fora do emprego, em agências, e se preparou financeiramente.

Fazer uma reserva financeira, como a Ariane, é fundamental. Segundo especialistas, a maioria das pessoas que quer abandonar a vida de empregado não deve começar trabalhando com margens de lucro muito altas, já que é preciso ter um preço competitivo. Para isso o coach Homero Reis destaca a necessidade de ter consciência de que, no início, podem existir dificuldades financeiras.

Ele orienta seus clientes a entenderem que há um processo natural de construção da rede de contatos e que a estabilização da relação do profissional com o mercado pode demorar de cinco a dez anos para amadurecer. “A pessoa precisa estar emocionalmente preparada para o período de construção desse relacionamento”, diz.

Estabelecer essa rede de relacionamento, definir preço e mostrar o produto de forma competitiva são justamente alguns dos desafios a serem enfrentados pelo profissional. Como quem está começando ainda não se livrou do hábito de pensar em salário, é preciso lembrar de embutir todos os custos envolvidos na execução, como transporte, equipamento e alimentação, na hora de estabelecer quanto será cobrado pelo produto ou serviço.

Silvio Augusto decidiu ser freelancer (Foto: Arquivo Pessoal)

O fotógrafo Silvio fez seu primeiro trabalho há três anos, aceitando um preço definido pelo mercado. “Hoje, é menos da metade do que eu cobraria”, conta o jovem, que não deixou de conversar com profissionais que já estavam na área para tentar buscar referências. Ele começou como freelancer sem grandes pretensões e tomou gosto pela atividades quando percebeu que, fazendo fotos por encomenda, teria mais tempo livre para estudar e se dedicar a projetos pessoais.

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Conforme os seus investimentos em equipamentos aumentavam e Augusto aperfeiçoava suas habilidades, o preço do trabalhos crescia. “Tem de haver equilíbrio entre o que eu estou cobrando e o que eu teria se estivesse em uma empresa.”

Carli recomenda que o autônomo não esqueça também de benefícios que, na maior parte das vezes, são de responsabilidade dos empregadores, como plano de saúde e previdência. O trabalhador pode até mesmo trabalhar com as taxas que seriam obrigatoriamente recolhidas caso ele fosse empregado. “Se a pessoa ganha R$ 10 mil e pagar 8,5%, são R$ 850. Esse valor dá para pagar R$ 300, R$ 400 em um plano de saúde e investir o resto em uma previdência privada. Dá muito mais retorno do que ter um emprego.”