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Além de profissional, cada vez mais pessoal

claudiomarques

07 julho 2014 | 10:00

Relações afetivas, prévias ou construídas com a convivência no ambiente de trabalho, podem ser fonte de produtividade ou poço de problemas

Gustavo Coltri

Assim como os jogadores de futebol têm nas linhas de impedimento um limite para seus desejos artilheiros, outras pessoas menos famosas têm no bom senso uma importante barreira para a afetividade excessiva nos ambientes profissionais.

As relações pessoais – criadas pela inevitável convivência de jornadas cada vez mais longas, incentivadas pelos programas empresariais voltados ao bem-estar dos colaboradores ou simplesmente nascidas por força da vida e do acaso – ganharam espaço nos últimos anos nas organizações. E passaram a exigir de todos um cuidado maior com o comportamento.

A rede profissional LinkedIn, com cerca de 80 profissionais no País, vê nos relacionamentos um dos pilares da produtividade e permite a contratação de pessoas com graus de amizade e até de parentesco – sob algumas condições, claro. O líder de recursos humanos na companhia, Alexandre Ullmann, diz que as admissões sempre contam com a avaliação de mais de um gestor.

Pai e filho trabalham em divisões diferentes. (FOTO: FELIPE RAU/ESTADÃO)

“E, para evitar favoritismos, colocamos pessoas da mesma família em áreas diferentes”, diz. Além disso, a organização estabelece metas objetivas para as avaliações de desempenho, reduzindo ao máximo o espaço dedicado à subjetividade.

O jovem André Zuccherelli, de 26 anos, é account manager no LinkedIn e passou a ter seu pai como colega de trabalho em janeiro. Domingos Zuccherelli Neto, de 55, assumiu o cargo de account executive manager  da área de talent solutions após participar de um processo seletivo iniciado com a indicação de um diretor da empresa. Ambos nunca tiveram problemas causados pelo vínculo familiar.

“A área em que trabalho, marketing, não tem relação direta com a área dele”, diz André, ligado à companhia desde março de 2013 – ele também chegou à organização graças às referências de um colega. “O mercado de mídia digital é recente. Todo mundo se conhece e é até inevitável fazer amigos”, diz.

Troca. Domingos considera que a proximidade com o filho contribui para que ele possa ampliar seus conhecimentos, já que a expertise de André é um tema ainda a ser aprofundado pelo executivo. Já para o jovem, o ambiente mais interativo da empresa e a preocupação organizacional com a qualidade das relações ajudam na produtividade. “Eu gosto do que faço, e isso interfere em como eu trabalho.”

Com bom senso, fortes vínculos afetivos podem, de fato, dar ganhos para os trabalhadores e empresas, segundo especialistas. “Muitas empresas incentivam as indicações, claro que envolvendo competências. Quando você indica uma pessoa, a ideia é que você seja responsável por ela”, diz Elton Moraes, gerente da consultoria Hay Group Brasil. Outro benefício das afinidades seria a melhoria do clima organizacional.

O advogado Gabriel Sala, de 27 anos, joga futebol todas as quartas-feiras com os colegas de trabalho. “Acho que esse estreitamento é benéfico porque, no jogo, não é preciso ser tão formal, todos ficam no mesmo patamar. E você conhece pessoas de outras áreas da empresa, que ficam normalmente afastadas no dia a dia”, conta.

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Se pode ser benéfico, um relacionamento interpessoal pode se tornar também problemáticos se cercados de falta de transparência ou de excessos. A gerente da unidade de staffing da consultoria de recursos humanos Randstad, Mônica Souza, diz que profissionais muito próximos podem favorecer seus preferidos ou até realizar cobranças demasiadas.

“Se todo mundo deixar o ambiente externo muito próximo do interno, premissas profissionais podem se perder. E sabemos sempre que há conversas de bastidores nas organizações.”

Objetividade. Antes de adotar medidas para evitar polêmicas, os gestores devem conhecer bem a cultura das empresas, segundo o gerente regional da Randstad Professionals, Frederico Vani – algumas são bem mais abertas do que outras para as afetividades. “Eles têm de deixar bem claro que, independentemente dos relacionamentos, o que importa é o mérito.” Não esconder os vínculos afetivos prévios e mostrar as razões pelas quais houve a contratação são algumas das medidas indicadas por ele.

Os especialistas recomendam ainda que as avaliações sempre tenham parâmetros objetivos, que evitam discussões ou fofocas em torno das decisões. Se não houver clareza absoluta, dizem, os demais colaboradores podem se sentir desmotivados e até injustiçados em promoções e concessões extras de benefícios pela equipe.

Gabriel Sala joga futebol uma vez por semana com colegas (FOTO: TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO)

Para a sócia diretora da recrutadora RED, Daniela Lopes, as amizades prévias às contratações são mais delicadas do que as criadas com a convivência no trabalho. De forma ideal, amigos e parentes não deveriam ser alocados como subordinados ou pares do funcionários que os indicaram porque a relação pode motivar preconceitos e criar ambientes desconfortáveis.

“As pessoas devem se preservar. Se um gestor for amigo de um subordinado, ele deve dar feedbacks estritamente profissionais e evitar tratar de assuntos pessoais. Os outros colaboradores da empresa não precisam saber se um frequenta a casa do outro, por exemplo”, diz.

Por outro lado, políticas de movimentação de pessoal nas empresas, o chamado job rotation, pode ser uma alternativa para os casos de relações afetivas construídas com a convivência, segundo Moraes, do Hay Group Brasil. “Sempre haverá um coleguismo que ultrapasse os processos da empresa”, diz.