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‘Leve com as pessoas, dura com a situação’

claudiomarques

20 agosto 2014 | 06:52

‘Entrevista com o CEO’ – ELIANA TAMEIRÃO, presidente da empresa de biotecnologia Genzyme

Cláudio Marques
Uma líder democrática, dinâmica, disciplinada, organizada, planejada, com muita energia e que adora o que faz. Assim se define Eliane Tameirão (foto acima), presidente da empresa de biotecnologia Genzyme do Brasil . Realmente, essas são características que se sobressaem numa conversa com a executiva, que ainda encontra tempo, disposição e determinação para participar de outras atividades como ser dos conselhos da Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa e do Etco – Instituto Brasileiro de Ética Concorrencial, atuar no Movimento Capitalismo Consciente e da Artemisia Negócios Sociais, onde é mentora de um grupo que faz hip-hop para o qual dá dicas sobre gestão. A descoberta de que gosta mesmo de trabalhar em equipe e de liderar veio durante a faculdade, quando fez parte do diretório acadêmico da Universidade Presbiteriana Izabela Hendrix, em Belo Horizonte. A seguir, trechos do depoimento da líder mineira de 47 anos, que se mudou para São Paulo em 1990 e já atuou na Biobras, Miles, Pasteur-Meriéux e Novo Nordisk.
A descoberta
Eu era muito tímida, mas sempre que fazia testes vocacionais apareciam habilidades de liderança, de comunicação, de trabalho, em muitas áreas, mas sempre alguma coisa ligada à marketing, a vendas. Eu gostava muito da área de medicina, de ler bula de remédios, mas as coisas não eram muito claras. Prestei dois vestibulares: biologia e economia, porque tinha amigos que estavam indo para essa área. Passei em dois cursos, biologia e economia, e acabei optando pela biologia, pois era aquilo que gostava – não segui os amigos. Fiz todo meu curso de biologia, mas durante a faculdade eu fui me descobrindo exatamente com aquelas habilidades que testes me mostravam.

O desenvolvimento
O diretório acadêmico da faculdade estava fechado, o que foi minha primeira frustração, e acabei fazendo parte de um grupo de alunos pela sua abertura. E ali acabei desenvolvendo liderança, participando ativamente das chapas eleitorais. Foi um momento de definição de carreira.

A opção
Ao terminar o curso, já trabalhava – estudava à noite e trabalhava de manhã numa indústria – e surgiu a oportunidade de fazer uma opção, de ir trabalhar em pesquisa no Instituto Pasteur, em Paris. É o que todo biólogo quer. Ao mesmo tempo, eu já tinha participado de toda a gestão do DA, estava envolvida completamente com essa questão de liderança. Desde aquela época, as questões da comunicação, liderança, trabalho em time, querer que realmente as coisas se transformem, eram as habilidades. Falou de novo mais alto aquilo que eu gostava de fazer e decidi não ir para Paris. Fiquei. Era uma simples analista de área comercial de um laboratório nacional em Belo Horizonte. Felizmente, tive a coragem de tomar essa decisão. E assim, foi o desenrolar da carreira. Foram momentos importantes a opção de curso, depois, ter de fazer uma opção de algo que brilhava aos olhos, mas por outro lado alguma coisa me dizia ‘não vai, você gosta do está fazendo’. E aí continuei nessa empresa, a Biobrás, e tive uma carreira interessante.

O início
Fui me desenvolvendo na Biobrás. Comecei na área comercial e foi muito interessante, porque acabei gerenciando projetos importantíssimos. E, aos 20 e poucos anos, uma multinacional que era líder global no setor fez um convite para eu me mudar para São Paulo e começar a organizar essa empresa, fazer o startup de uma grande multinacional, líder no setor, a Novo Nordisk.

Expertise
Foi muito bacana construir a empresa do zero. Ela já era líder globalmente quando veio para o Brasil e hoje é uma empresa com estrutura muito sólida. A partir disso, participar da construção de empresas passa a ser a minha grande expertise. Depois de consolidar a Nordiski no Brasil, recebi o convite para começar uma nova empresa no Brasil, a Genzyme. Eu já tinha, então, muita experiência gerencial acumulada. Fui a terceira colaboradora a ser contratada, só havia o presidente e uma pessoa técnica. Na Genzyme, que é pioneira em biotecnologia, pude desabrochar minha carreira e o meu potencial de liderança e de formar grandes times. Quando iniciamos, muita gente falava ‘isso não vai para a frente’. Hoje, grandes farmacêuticas adquirem empresas do setor – o mercado ainda não está consolidado, pois o futuro passa pela biotecnologia.

Gestão
Na gestão, não inventamos roda nenhuma, só tivemos a ousadia de colocar caráter, bom humor, confiança antes até de algumas competências. Na Genzyme, dificilmente se toma uma decisão isolada, é preciso ouvir a área médica, a de pesquisa química, a turma da ética, do compliance. É empresa que trabalha matricialmente e para atuar assim, o ego tem de ser trabalhado diariamente.

O CEO
O CEO que hoje fica trancado na sua sala, que não circula, que não fala com pessoas, cuidado! Pode tomar decisões que talvez não sejam as melhores para o coletivo.

A executiva
Sou determinada, porque se não houver disciplina, planejamento, organização não há resultado. Precisa haver sim alguns controles, é importante. Mas acima de tudo, é preciso ser leve com as pessoas, dura com a situação. O líder tem de entender o que levou o profissional a tomar uma atitude, em que momento ele estava, o que ele está falando, como ele está capacitado. Muitas vezes o que eu vejo é muito mais o controle do gerenciamento do que entender. Sentar à mesa, todo mundo faz, agora, ter a disposição para entender o que está sendo colocado, isso dá trabalho, tem de despender tempo, o executivo hoje não tem tempo para nada.

A autodefinição
Eu me defino como uma líder democrática, dinâmica, disciplinada, organizada, planejada, com muita energia, que adora o que faz.

Capitalismo e lucro
Eu e um grupo de amigos saíamos para tomar uísque. Um dia comentamos que estávamos chatos, que nos encontrávamos para reclamar em vez de fazer algo mais proveitoso. E aí fundamos informalmente o que chamávamos de Rede de Líderes Conscientes. Era um grupo que achava que dava para pagar bem o funcionário, pagar o imposto, ter uma gestão mais democrática, ativa, mais inclusiva, mais diversa. Mas como trazemos mais pessoas para esse modo de gestão? E aí acabamos fundando no Brasil o Movimento Capitalismo Consciente. Não sou contra o lucro, de jeito nenhum, só recito muito é o que fazemos com esse lucro. Acho que temos de pensar um pouco mais nisso.

Hip hop
O fato de eu ter uma vida privada que não me exige tanto, claro, ajuda. Mas descobri que adoro colaborar. No projeto da Artemisia Negócios Sociais, eu sou mentora de um grupo que faz hip hop. Eu ajudo os meninos lá do Jardim Ângela como parte de um projeto para tirar meninos do tráfico, da rua, ensinando-os a grafitar, a fazer música, a ser MC profissional, para que possam ganhar dinheiro com isso. Então, nos reunimos de vez em quando. Na primeira vez, vi que eles não tinham fluxo de caixa, quando perguntei onde eles registravam as despesas. A minha participação é bem pontual.