A reinvenção da vida profissional
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A reinvenção da vida profissional

EDILAINE FELIX

22 Novembro 2015 | 07h46

Oliveira. Da odontologia para a arqueologia dentária

Oliveira. Da odontologia para a arqueologia dentária

Guilherme Moraes
ESPECIAL PARA O ESTADO

Administradora de empresas desde 1996, quando se formou pelas Faculdades Integradas Campos Salles, Andrea Fonseca Presotto, de 40 anos, tomou uma decisão ousada no final do ano passado: assim que pudesse, abandonaria a carreira para se dedicar à psicologia, sua paixão desde a juventude. Dito e feito. Poucas semanas depois, já atendia em seu consultório na Chácara Klabin, em São Paulo.

Andrea entrou para um grupo que tinha poucos membros há 30 anos, mas, segundo especialistas, vem crescendo desde então: o dos profissionais que, sem medo de mudanças, recorrem a um plano B para a carreira. Segundo ela, para ter mais satisfação no trabalho. “Não estava infeliz como administradora, mas desde que estudei psicologia, me encantei.”


Ainda estudante de administração, em 1994, Presotto engatou um estágio no escritório de um laboratório de análises clínicas. Logo depois, foi efetivada e trabalhou por três anos na organização até entrar para o time de colaboradores de uma empresa familiar da área da saúde, em busca de uma jornada mais flexível. No novo emprego, teve as duas filhas, hoje com 17 e 12 anos. Mas a vontade de estudar psicologia não dava trégua.

Foi então que, em 2005, fez dois cursos de extensão na Fundação Getúlio Vargas sobre gestão e liderança organizacional. “A partir dessa época, decidi que queria aquilo para minha vida e resolvi investir”, conta. Andrea começou a cursar psicologia em 2007 e se formou em 2012. Durante dois anos, conciliou as duas carreiras, mas optou pela segunda formação no final de 2014.

Andrea. Ela trocou a administração pela psicologia

Andrea. Ela trocou a administração pela psicologia

Nem sempre quem se reinventa profissionalmente desistem da carreira em que está. É o caso de Rodrigo Elias de Oliveira, 40 anos. Graduado em odontologia pela USP em 1998, hoje ele também é arqueólogo. Ele se encantou pela área durante seu mestrado em odontologia, terminado em 2008. “Em uma viagem por sítios arqueológicos brasileiros, em janeiro de 2006,acabei conhecendo o Walter Neves”, conta. Ele se refere ao arqueólogo e antropólogo apontado como o “pai” de

Luzia, um crânio humano de 11 mil anos, o mais antigo até agora encontrado nas Américas, que pertenceu a um extinto povo de caçadores-coletores da região de Lagoa Santa, nos arredores de Belo Horizonte.
O interesse o levou a frequentar o Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos do Instituto de Biociências da USP, onde o professor Neves atua, ainda durante o mestrado. Terminada essa fase de estudos, foi convidado a participar oficialmente do laboratório.

“Depois, resolvi fazer meu doutorado sobre saúde bucal em população arqueológica do deserto do Atacama (Chile).” Em 2013, ele se tornou doutor em biologia genética pela USP.
Oliveira nunca abandonou o consultório e divide seu tempo entre a odontologia e o laboratório. E ao menos uma vez por ano faz trabalho de campo em sítios arqueológicos. “É uma via de mão dupla. Cada vez mais, os conhecimentos que adquiro no laboratório são úteis para o meu atendimento no consultório e vice-versa.”

Tanto que seu pós-doutorado, iniciado em outubro, novamente junta as duas áreas do conhecimento. Trata-se do Projeto Salivar. “O objetivo é entender a influência que a dieta tem (e teve) sobre nossos dentes, e sobre os dentes dos esqueletos arqueológicos que continuo estudando.”

Ciclos. Nem sempre, porém, o processo de reinvenção é tranquilo e amparado em certezas. De acordo com a coach Fátima Motta, o profissional insatisfeito com a carreira deve pensar bem antes de optar por uma nova área de atuação. “Sabemos que existem ciclos nas nossas vidas, inclusive na nossa carreira. Mas é importante não mudar apenas por mudar”, diz.

Barchetta

Rosângela. Da sala de aula para o salão de beleza

A chance de se fazer uma escolha errada, segundo a psicóloga e professora Sandra Loureiro, aumenta, se o profissional fica desempregado. “Quando a pessoa perde o emprego, logo fica desesperada atrás de outro, desconsiderando suas afinidades e pontos fortes. É preciso ter muita cautela, então.”

Principalmente se a mudança profissional se refere a ter o próprio negócio. Foi o que ocorreu com a professora Rosângela Barchetta, de 52 anos. Depois de mais de 20 anos trabalhando como educadora, decidiu deixar o magistério e investir no sonho empreendedor do marido, de abrir um salão de cabeleireiro.

Atualmente, a empresa do casal, o Studio W, também forma profissionais na área. “Assim, consigo unir meu lado empreendedor com minha formação, ao contribuir com a educação profissional”, diz. / COLABORARAM FÁBIO ROSSINI E EDILAINE FELIX.

Autoanálise criteriosa deve anteceder a tomada de decisão 

Membro da Sociedade Brasileira de Coaching, Márcio Manincor diz que o profissional insatisfeito com sua carreira deve fazer uma criteriosa “análise interior” antes de decidir trocar de área. “A forma ideal de ponderar pontos positivos e negativos é analisar as emoções. Se o profissional passa mais tempo insatisfeito com os resultados que gera, talvez seja mesmo a hora de mudar”, diz.

Além da aptidão, o profissional que estuda trocar de profissão deve avaliar uma série de pontos sobre a nova área. “É preciso analisar de forma profunda quais são as dificuldades e desafios que essa nova carreira irá impor e avaliar se está disposto a enfrentar tudo isso”, diz a coach Fátima Motta.

De acordo com especialistas, em alguns casos, a falta de motivação causa a ideia errada de que é preciso fazer uma mudança na carreira. Antes disso, porém, o ideal é buscar alternativas para seguir na área.

Silva. Ajuda a amigos rendeu convite para trocar de área

Silva. Ajuda a amigos rendeu convite para trocar de área

Manincor sustenta que, antes de efetivamente trocar de empresa ou área, uma opção é o profissional pedir mais responsabilidades no trabalho. “No fundo, todo ser humano sabe de sua capacidade e, quando ela não é usada integralmente, nossa motivação vai sendo minada. Vai dando preguiça”, argumenta.

“Muitas vezes, por mais afinidade que o profissional tenha com seu cargo, executar sempre as mesmas tarefas todos os dias pode ser desmotivante. Novas metas estimulam o trabalhador”, afirma Adriano Corrêa da Silva, de 29 anos.

Formado em administração pela Fundação Getúlio Vargas, ele atuou como consultor de finanças corporativas na BDO de 2008 até 2011, quando ajudou os colegas da equipe de auditoria em alguns trabalhos. Silva foi tão elogiado que recebeu um convite para trocar de área. Entre 2011 e o ano passado, Silva participou de um intercâmbio e trabalhou na BDO do Canadá. Atualmente, o jovem é um dos sócios da empresa no Brasil.

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