Economia

CARREIRA

Carreira promissora leva profissionais a mudar de cidade

Para ganhar experiência e crescer na profissão, trabalhadores aceitam propostas de trabalho fora dos grandes centros

EDILAINE FELIX

10 Janeiro 2016 | 07h57

Martini. Trocou São Paulo por Vitório, ES

Martini. Trocou São Paulo por Vitório, ES

As oportunidades de trabalho podem não estar em sua cidade de origem, por isso a mobilidade é um atributo bem considerado por recrutadores no momento da contratação. Posições fora do Rio de Janeiro e de São Paulo, por exemplo, não tem tanta exposição no mercado, mas podem proporcionar possibilidade de desenvolvimento profissional.

Depois de 12 anos atuando no mercado de cosméticos para mulheres, Gustavo Martini, de 37 anos e formado em engenharia mecânica, decidiu mudar não apenas de área de atuação, mas também de cidade. Deixou São Paulo para se estabelecer em Vitória (ES), a fim de assumir o cargo de diretor de marketing e vendas da Wine, site de e-commerce de bebidas.

“Troquei de setor, de target, de modelo de negócios e de cidade. A empresa, com sete anos de vida, cresceu muito e agora precisa se preparar para mais um novo ciclo de expansão, e quero participar dessa fase.”

Segundo Martini, a vontade de empreender na carreira e poder estar à frente da tomada de decisão foram relevantes para aceitar a proposta. “Aqui eu participo de todos os processos.”

Esta não foi a primeira mudança de cidade de Martini, que trabalhou no Rio de Janeiro num projeto de dois anos na área de marketing de uma unidade regional da Natura. Agora, no entanto, antes de aceitar a proposta de uma empresa menor e com menos tempo de atuação no mercado, o diretor precisou colocar muitos fatores na balança.

“Avaliei oportunidades de desenvolvimento, o nível de autonomia no processo decisório envolvendo a função e a cultura da empresa. Cheguei a conferir qual era a avaliação da empresa nos sites Reclame Aqui e E-bit. No aspecto pessoal, também pesou na decisão a qualidade de vida em Vitória, com um ritmo bem diferente de São Paulo.”

Recém-casado e sem filhos, ele conta que a decisão foi conjunta, corroborada pelo fato de sua mulher ser profissional liberal, com flexibilidade para a mudança. Hoje, ele tem como desafio estruturar a diretoria de marketing e vendas para o próximo ciclo de crescimento da empresa, incluindo uma possível atuação internacional. “Esse tipo de desafio me trouxe brilho nos olhos e acabou me motivando a aceitar a posição.”

Mudança. Para o headhunter e sócio da Flow Executive Finders, Luiz Mariano, empresas fora do eixo Rio – São Paulo precisam de profissionalização e de líderes com melhores práticas de gestão em processos, informações financeiras, operacionais, além de ter conhecimento em ferramentas de gestão de pessoas, de resultados, controle de metas, plano de carreira, desenvolvimento e retenção.

De acordo com ele, há oportunidades nos estados de Minas Gerais, Bahia, Mato Grosso, no interior de São Paulo, além da região Nordeste, e em setores como mineração, agronegócio, papel e celulose, etanol, exportação, logística, varejo, e-commerce e energia.

“O profissional apto para a função, além de mobilidade, deve ter experiência no setor e competências para fazer gestão e liderança de processos.”

Para Mariano, o que motiva um trabalhador a aceitar a mudança normalmente é a progressão de carreira e a remuneração. “Quando retorna, o profissional volta melhor, mais maduro, mais versátil e adaptável a novas culturas, transitando melhor nas diferentes esferas de gestão”, afirma.

Rodrigo Maranini, gerente das divisões de Engenharia e Logística e TI da Talenses Rio de Janeiro, diz que cerca de 70% dos projetos da recrutadora são para fora do eixo. “Antes era inimaginável atrair um profissional de São Paulo, por exemplo, para outra localidade”, diz.

Ele destaca João Pessoa (PB), Recife (PE) e Manaus (AM) como polos atraentes para profissionais de outros Estados. Segundo ele, muitas áreas e setores já concentram operações fora do eixo formado pelas duas principais capitais do País.

“Muitas empresas têm implantado processos em pequenas cidades ou fora dos grandes centros, e profissionais que estão em busca de desenvolvimento profissional, e até de valorização da qualidade de vida, optam pela mudança”, diz Maranini.

Para ele, é necessário se adaptar-se à nova realidade do mercado. “As pessoas precisam fazer uma leitura do ambiente, entender o estágio no qual a empresa está, qual o papel delas na organização e se podem ser um agente de mudança dentro da companhia.”

Na opinião da gerente do escritório de Minas Gerais da recrutadora Robert Half, Flávia Alencastro, a mudança de cidade ocorre pela remuneração e por melhor qualidade de vida. “Em muitos casos, o profissional muda para outra capital, que não é tão perigosa ou com trânsito tão caótico, em busca de um novo modelo de vida e com possibilidade de ter crescimento na carreira.”

Segundo Flávia, Minas é muito forte em engenharia e mineração e atrai muitos profissionais para as indústrias locais. Ao mesmo tempo, exportar trabalhadores experientes para outras regiões do País.

“A crise atrelada à maior dificuldade de encontrar uma colocação faz com que profissionais que tinham restrições à mobilidade abram o leque de opções. Mas é preciso ter cuidado para não se arrepender. É necessário a pessoa avaliar se aceitaria uma proposta de trabalho em uma região que jamais iria em outras circunstâncias.”

Flávia orienta a ter cautela, autoconhecimento e saber tudo sobre a vaga antes de concordar com uma proposta. “Aceite uma oportunidade na qual conseguirá ter crescimento e desenvolvimento. Aceite não por não ter opção, mas porque é bom para você e sua carreira. Mobilidade é importante, mas tenha cautela.”

Mudança não pode ser falta de opção

Guidelli. De Santos (SP) para São Luís (MA)

Guidelli. De Santos (SP) para São Luís (MA)

Há um ano, o jornalista Tiago Guidelli, de 35 anos, saiu de Santos (SP) para São Luís (MA) para assumir o cargo de gerente de Terminal Portuário na Amaggi e Louis Dreyfus Commodities. “Sou de Araraquara, interior de São Paulo. Minha primeira mudança foi para trabalhar em Santos, na área de relações institucionais da ALL. Fiquei lá quatro anos”, conta.

Em 2014, Guidelli foi convidado por uma empresa de headhunter para participar de um processo seletivo para uma vaga no Maranhão. “Quando fui para Santos, era no mesmo estado, em uma semana decidi levando em consideração o meu crescimento profissional. Para aceitar a vaga em São Luís foram três meses de processo seletivo e o aceite também foi baseado no desenvolvimento da carreira. Em Santos, eu dividia a operação, aqui eu sou o gestor.”

Guidelli conta que, quando recebeu a proposta ia casar e tinha acabado de comprar um apartamento em Santos. “Precisei considerar os riscos, desafios e as oportunidades”, diz.

O gerente mudou para São Luís em janeiro de 2015, com sua mulher e conta que já está adaptado a nova realidade. “Antes eu ia para Araraquara a cada 15 dias, hoje vou a cada três ou quatro meses”, brinca.

O desenvolvimento profissional obtido no último ano é muito importante para ele. “Eu já cresci muito, conheço toda a cadeia de produção de negócios de grãos e tenho uma equipe de 46 pessoas. Quero continuar aqui e acompanhar o crescimento desse projeto que vi nascer. Quero me estruturar, aprender os detalhes da área e poder voltar mais forte. A mobilidade me fez amadurecer profissionalmente e em liderança”, diz.

Para o diretor executivo da Michael Page e Page Personnel, Roberto Picino, o processo para movimentação é complexo tanto para a empresa quanto para o profissional, “ambos devem estar predispostos a mudar”, diz.

“Mobilidade é importante e inerente a muitas carreiras. Ao falar com executivos, 20%, 25% deles tem mobilidade, mas é preciso avaliar bem, se não é falta de opção, uma vez que a adaptação não é tão simples.”
Segundo ele, quando uma empresa abre uma unidade de negócio em outra região, ela precisa de especialistas e muitas vezes precisa buscar nos centros onde estão as empresas dessas áreas. “Praticamente todas as áreas têm oportunidade”, diz.

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