Economia

CARRERIA

‘Procurar emprego dá trabalho e exige planejamento’

Para ter sucesso, especialista em RH diz que é preciso disciplina e foco na busca, ter currículo bem elaborado e manter contatos

EDILAINE FELIX

25 Janeiro 2016 | 07h56

Claudino. Está em busca de uma vaga com carteira assinada desde o ano passado

Claudino. Está em busca de uma vaga com carteira assinada desde 2015

Em 2015, o País fechou um total de 1,542 milhão de postos de trabalho com carteira assinada, o pior resultado da série histórica, iniciada em 1992 pelo Ministério do Trabalho e Previdência Social. Diante da deterioração do mercado de trabalho, especialistas em recrutamento e seleção enfatizam que o profissional que está em busca de uma recolocação precisa estar cada vez mais preparado para não deixar a oportunidade escapar.

“É um momento delicado na vida da pessoa, que mexe com o lado financeiro e familiar. Perder o emprego traz impactos bastantes significativos”, diz a especialista em RH pela Vagas.com, Denise Bojikian.

Segundo ela, é o momento de fazer uma análise de cenário: o que aconteceu para o desligamento, enxergar onde podem existir oportunidades e os segmentos que estão em alta.

“Procurar emprego dá trabalho, exige disciplina e planejamento. É preciso saber se quer o mesmo modelo de trabalho ou se está disposto a mudar, além de manter ativa a rede de contatos”, recomenda.

Denise aconselha a mapear os contatos classificando-os por perfil: contratantes e informantes, aqueles que podem dar informações sobre oportunidade e os influenciadores, além de empresas que a pessoa quer trabalhar e as que não quer.

Na hora de buscar uma recolocação, um currículo bem elaborado é um forte instrumento de contato. “Não pode ser feito de qualquer forma, seja em papel ou preenchido diretamente no site, o conteúdo deve ser bem elaborado. A internet pode puxar o seu tapete. Hoje, são milhares de currículos recebidos pelas empresas, o que faz a concorrência ser infinitamente maior.” Outra dica dada pela especialista é de ter uma rotina para procurar emprego. “Faça disso um projeto.”

Plano. O engenheiro naval Gustavo Rigolin Claudino, de 41 anos, está desde o ano passado buscando uma recolocação profissional com carteira assinada. Atualmente, ele faz trabalhos freelancers de consultoria.
“Por enquanto, estou trabalhando com projetos, mas quero um emprego com carteira assinada. Achei que a procura não era tão difícil: tenho currículo bom, mais de dez anos de carreira, com MBA em negócios nos Estados Unidos, inglês fluente, mas a busca ficou mais penosa que eu imaginava”, diz o engenheiro.

Claudino conta que estava buscando um cargo específico em planejamento estratégico, que está alinhado com suas experiências anteriores em bancos, mercado financeiro e meios de pagamento. Ele listou companhias que gostaria de trabalhar, além de concorrentes, fornecedores e parceiros que conhecia. “Mapeei empresas e a rede de relacionamento, selecionei cerca de 50 empresas que eu conhecia e fui conversando com amigos e contatando pessoas pelo LinkedIn. Eu tinha contatos, mas não uma proposta de recolocação.”

Abalado com a falta de retorno dos processos seletivos e acreditando que “estava faltando alguma coisa”, Claudino decidiu procurar ajuda profissional e contratou, em agosto, uma assessoria em recrutamento. “Queria gerar mais entrevistas e saber em que eu poderia melhorar.”

Ele conta que aprendeu a ser mais efetivo, a se vender como profissional e se sair melhor nas entrevistas. “Estou participando de alguns processos, estou mais confiante e mais experiente. Estou esperançoso e sabendo que cada entrevista é uma batalha. É um passo de cada vez, com paciência, determinação e muito trabalho”, diz.
Para o consultor de carreira da Thomas Case & Associados Eduardo Bahi, o profissional deve se conscientizar de que na crise há mais gente buscando emprego, por isso, ele deve melhorar as ferramentas de busca. “Ligar para a empresa, falar com o RH e enviar o currículo diretamente para o ‘dono da vaga’ é uma alternativa eficaz.”

Oportuno. O profissional que tem uma indicação adequada sairá na frente de outros candidatos. “Há substituição no mercado, as empresas estão contratando, mas é preciso se encaixar no perfil adequado.”

Segundo Bahi, é preciso ter um currículo alinhado e analisar o perfil e as competências. “É preciso profissionalizar a busca por uma vaga. Seja profissional, procure aconselhamento de especialistas para ser atraente e tentar aumentar a capacidade de conseguir uma vaga”, diz.

Na opinião do autor do livro O Emprego dos Sonhos (Editora Alta Books), Ney Cavalcante, o momento desperta preocupação, por isso é preciso manter a serenidade, controlar o emocional, ter uma boa dose de resiliência, autoestima e se preparar para cada entrevista como a mais importante da vida. “Atitude é fundamental. Deve agir como se estivesse desenvolvendo um projeto com começo, meio e fim. E deve vender liderança, capacidade de resolver problemas e de encontrar soluções.”

Busca estruturada evita atitudes impensadas

“A primeira ação é estruturar uma campanha para procurar um novo emprego”, recomenda a vice-presidente da ABRH-Brasil, Elaine Saad. Segundo ela, é comum, no desemprego, fazer qualquer coisa, sem planejamento ou reflexão do que quer, qual a empresa, se quer continuar no mesmo mercado e no segmento.

Fazer um bom currículo – no máximo em duas páginas, constando área de atuação, formação, cursos, experiência atual e anteriores e descrição de três últimos cargos – é fundamental, na opinião de Elaine. “Envie para a rede de contatos, anúncios de jornal, direto para as companhias de seu interesse e para empresas de recrutamento e seleção. É importante também saber quais empresas estão contratando e diversificando o quadro de funcionários”, diz.

Elaine orienta a trabalhar diariamente na busca: ligar para contatos e empresas, almoçar com amigos, estruturar currículo e listar empresas. De acordo com Elaine, é preciso se preparar para a entrevista e saber fazer perguntas sobre a vaga.
“Saiba que a empresa oferecerá de 60% a 70% do que você planejou no começo da busca.”

A vice-presidente da ABRH aconselha a não abrir mão do planejamento e ter um investimento financeiro. “Como a pessoa não sabe quanto tempo vai ficar desempregado, é melhor guardar dinheiro”, recomenda.

Canais. “Quem está procurando emprego deve ter exposição e acesso 24 horas por dia. Se candidate para as vagas que atendam 70% do seu perfil”, diz a assessora de carreira da Catho, Larissa Meiglin.

Para ter uma candidatura mais assertiva a assessora também recomenda ler atentamente o que a vaga pede. Segundo ela, as pessoas têm vários talentos e ao perceber que sua área de atuação está desaquecida, se tem mais habilidades poderá abrir o leque de opções. “Não é recomendado colocar dois objetivos distintos, mas fazer dois currículos com uma carta de recomendação.”

Autoavaliação. De acordo com Larissa, é muito importante trabalhar as habilidades. “Lembre-se dos feedbacks recebidos e faça uma autoavaliação para saber as lacunas e os pontos fortes”, diz.

A profissional da Catho enfatiza que é natural ficar mais triste quando se fica desempregado e que é bom passar por isso. “Mas depois de uma semana, é preciso erguer a cabeça e batalhar para conseguir o novo empreso”, diz.

“É preciso se superar para passar imagem positiva na entrevista, o entrevistador não pode perceber desânimo. Se o candidato não tiver atitude, ficará difícil encarar a maratona de busca por um emprego”, acrescenta Larissa.

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