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‘Espírito de colaboração é fundamental’

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‘Espírito de colaboração é fundamental’

Presidente da Tokio Marine Seguradora afirma que é preciso orquestrar e estimular constantemente o lado empreendedor dos colaboradores

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10 Fevereiro 2016 | 05h55

Ferrara: "Algo que temos de  constantemente no ambiente corporativo é fazer as áreas internas colaborarem entre si"  Foto: Tiago Queiroz/Estadão

Ferrara: “Algo que temos de trabalhar constantemente no ambiente corporativo é fazer as áreas internas colaborarem entre si” – Foto: Tiago Queiroz/Estadão

Por Cláudio Marques

Com 35 anos de carreira na área financeira, 15 dos quais no ramo de seguros, José Adalberto Ferrara tem 61 anos de idade e preside a Tokio Marine Seguradora desde julho de 2013. Formado em ciências da computação pela Unicamp, foi na área tecnológica que consolidou seu trajeto profissional. Tem passagens por Unibanco e Banco de Boston, onde foi diretor de tecnologia (1996-2000) na sede da instituição nos EUA, quando Henrique Meirelles era o presidente. Durante esse período obteve o Certificate of Special Studies – General Management da Harvard University (no Brasil, já tinha cursado pós-graduação com ênfase em administração financeira na Fundação Getúlio Vargas). Com a venda do Bank Boston para o Bank of America resolveu retornar ao Brasil no ano 2000. Aqui, entrou no mercado de seguros trabalhando na Allianz. Em 2009, foi para a Tokio Marine como diretor de tecnologia. Quatro anos depois, assumiu a presidência da empresa, que faturou R$ 3,8 bilhões em 2015, um crescimento de 138% na comparação com o R$ 1,6 bilhão faturado em 2011. No mesmo período, a mão de obra cresceu apenas 7% – são 1.700 pessoas. A seguir, trechos da conversa.

Guinada
Reconheço que é uma coisa diferente alguém de tecnologia assumir a empresa. Mas eu diria que nunca fiz tecnologia pela tecnologia, sempre trabalhei em tecnologia pensando no negócio da companhia. Normalmente, uma pessoa de tecnologia é mais introspectiva, tem a preocupação maior de fazer os projetos que lhe são pedidos. Eu penso um pouco diferente e sempre procurei entender o negócio. Discutia e conversava com os CEOs, com diretores que eram meus pares a respeito de soluções de negócios envolvendo tecnologia, que poderia ajudá-los (os diretores) a melhorar o seu negócio, a melhorar o seu processo, ou a ser mais produtivo, coisas desse tipo. É uma coisa natural em mim.

Conexões
Ao mesmo tempo, quando você está na área de tecnologia, você dá suporte a todas as áreas de negócios da companhia. Então, você vê todos os departamentos da companhia se comunicando. Acaba-se tendo visão ampla do negócio.

Executivo de TI
Se puder me rotular, eu diria que sou um executivo empreendedor. Um executivo de tecnologia que tiver um estilo empreendedor, que seja inovador, que tenha carisma para se comunicar nos vários canais dentro da companhia, sem ferir suscetibilidades, é uma pessoa que reúne sim todas as condições de galgar postos maiores.

Cooperação e gerenciamento
Uma questão que temos de trabalhar constantemente no ambiente corporativo é fazer as áreas colaborem entre si, para que a companhia se beneficie desse alto espírito de colaboração. Acho que esse é o estilo de gerenciamento que procuramos praticar na companhia. Ou seja, não fique olhando apenas o seu departamento, olhe a companhia como um todo, e não tenha receio de falar, dar sugestões de melhorias, ou fazer alguma pergunta para que certo diretor pense no seu departamento, no sentido de colaboração.

Suscetibilidades
É preciso haver alto espírito de colaboração entre as pessoas, sem vaidade corporativa – por isso, fico preocupado em não ferir suscetibilidades, mostrar que se está realmente imbuído de colaborar e não de jogar a pedra no terreno alheio. Então, se houver esse alto espírito de colaboração, quem ganha são os funcionários e todos os nossos clientes. E, por tabela, a empresa como um todo. Acredito muito no respeito aos valores da cultura da companhia, no trabalho em equipe.

Os três Ps
Trabalhamos muito fortemente aqui, costumamos dizer, nos três Ps, que são muito importantes para mim. O primeiro P é trabalhar com pessoas. É fundamental motivar as pessoas, fazê-las participar do processo de planejamento, engajar essas pessoas. Acho que com isso, você remove montanhas. O segundo P para mim é trabalhar os processos. O terceiro P é colocar um pouco de paixão naquilo no que você faz. Se você coloca paixão e está imbuído de boas intenções, sem ferir suscetibilidades, de conquistar as pessoas, fazendo com que elas entendam que você quer contribuir, então acho sim que com os três Ps podemos exceder as expectativas.

Abordagem
Trabalhar em equipe com foco em qualidade vem trazendo reconhecimento por parte de corretores e clientes, que veem a Tokio Marine sair de um faturamento de R$ 1,6 bilhão em 2011, no Brasil, para R$ 3,8 bilhões agora no final de 2015. Ou seja, um crescimento de 138% em apenas quatro anos. E somente em 2015 crescemos 17,3% em um mercado que teve um PIB negativo.

Perfil do colaborador
Precisa ter espírito de equipe. Eu também gosto de pessoas que tenham estilo empreendedor, pessoas que digam ‘dá para fazer melhor’, ‘dá para fazer diferente’, ‘dá para inovar aqui’. É não se acomodar com aquilo que já existe, sempre há espaço para você melhorar cada vez mais. E gosto de pessoas que trabalhem fortemente dentro dos valores da companhia, de respeito, ética, além de trabalhar em equipe.

Papel do CEO
O CEO tem de orquestrar constantemente o lado empreendedor das pessoas, estimular esse lado. E para que elas tenham esse estilo empreendedor, o CEO tem de trabalhar junto com os demais diretores, para fazer com que todos os funcionários sintam vontade de colaborar. O espírito de colaboração para mim é fundamental, é o que de fato sustenta o trabalho em equipe. Se isto for conseguido, naturalmente os departamentos vão se cooperar e vão deixar de ser silos isolados do mundo. Este é o nosso segredo.

Jovens
Eu diria para os jovens que tenham atitude empreendedora, que tenham humildade de aprender com os erros, e que trabalhem o lado do carisma, para serem bem aceitos em seus grupos, pelos seus pares, por seus chefes. O carisma sempre ajuda, é condição necessária, mas não suficiente, é bom que se tenha. Também significa aprender a se relacionar, porque no fundo uma empresa é feita de pessoas, é aquele primeiro P que falei. Se as pessoas estiverem comprando a sua causa, se tiverem olhando você como alguém que tem uma cultura empreendedora, de colaboração e não de ocupação de espaço, naturalmente a coisa vai. E esse é o maior desafio de todo presidente, do CEO: fazer toda a empresa ter esse espírito de colaboração que falo.

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