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Profissionalismo não distingue gênero

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Profissionalismo não distingue gênero

Executivas contam como conciliam vida pessoal e carreira; para elas, empresas estão mais abertas e criando espaço para crescerem

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CRIS OLIVETTE

06 Março 2016 | 08h03

Vice-presidente de marketing da Heineken, Daniela Cachich

Vice-presidente de marketing da Heineken, Daniela Cachich

Com a proximidade do Dia Internacional da Mulher, executivas contam como conciliam trabalho e vida familiar. Para elas, mercado está mais receptivo.

“Sempre ambicionei ser a representante da área de marketing de uma corporação. Tive isso bem claro na minha carreira”, conta a vice-presidente de marketing da Heineken, Daniela Cachich.

Ela está na empresa há cinco anos, dois deles no cargo atual, para o qual foi promovida durante licença-maternidade. Antes, passou dez anos na Unilever. Mãe de dois filhos, Daniela diz que conciliar os dois papéis não é fácil, mas é possível.

“Tento ser bem disciplinada. Todos os dias tomo café da manhã com as crianças e as levo à escola. Alguns dias me programo para buscá-las. Tenho muitos eventos noturnos e essa é a forma de garantir que possa estar sempre com eles.” A executiva explica aos filhos que quando não está com eles, está se realizando profissionalmente.

Daniela diz que conviveu com mulheres que a inspiraram na carreira. “Venho de uma geração que para crescer no trabalho era preciso abrir mão da vida pessoal. Essas mulheres me mostraram que podia ser diferente”, afirma.

Segundo ela, as empresas estão mais abertas e permitindo que as mulheres conquistem mais espaço. “Na Heineken sinto que há um respeito enorme quando estou numa reunião e digo que vou sair para levar minha filha ao médico. Nem todas as empresas chegaram lá, mas muitas já entendem a dualidade da mãe trabalhadora.”

Diretora de recursos humanos da Unisys, Laura Lafayette afirma que sua empresa acredita que a multiplicidade de diferentes perspectivas e pontos de vista leva à melhor tomada de decisões, beneficiando os clientes e acionistas da companhia.

“Recentemente, fomos homenageados pelo The Women Forum, de Nova York, por termos 40% dos assentos do conselho ocupados por mulheres. No Brasil, temos 37 gestoras e seis diretoras, num total de 1,8 mil funcionários, dos quais, 502 são mulheres”, conta.

ARQUIVO 02/03/2016 Carreiras e Empregos Laura Lafayette, diretora de recursos humanos da Unisys Crédito: Divulgação/Unisys

Laura Lafayette, diretora de recursos humanos da Unisys

Segundo ela, este é um tema muito importante nas pautas de reunião com os líderes da corporação. “Na área de vendas, por exemplo, não temos tantas mulheres ocupando cargos quanto gostaríamos, sendo essa uma das metas para 2016.”

A executiva conta que já se sentiu desrespeitada pelo fato de ser mulher. “É uma realidade e as mulheres precisam saber lidar com essa situação. Eu não admito e quando isso ocorre, peço respeito e digo que não me interessa o que a pessoa acha de mim, porque trabalhamos com um único propósito que é o crescimento da empresa.”

Laura acredita que quando a mulher ocupa alto cargo, precisa ter um marido que saiba gerenciar esse tipo de companheira. “Não é todo homem que aceita esse tipo de mulher. Para chegar a essa função é preciso ter muitas coisas, entre elas, o suporte em casa. Meu marido é quem toca o barco lá em casa, e isso não é para qualquer homem”, afirma.

Outra executiva que enfrentou resistência ao assumir a diretoria de Compras e Marketing da rede de Farmácias Pague Menos é Patriciana Rodrigues. “O segmento farmácia é tradicional, com empresas centenárias comandadas por homens mais maduros. Quando tiveram de negociar com uma jovem mulher, houve estranhamento. Tive de romper barreiras. Hoje, sou reconhecida como uma executiva por meus parceiros.”

Ela conta que a empresa tem uma estrutura forte feminina. “Nosso quadro de funcionários é composto 60% por mulheres. Em cargos de média gerência, a empresa tem mais de 50% de mulheres”, diz.

A líder de marketing da empresa de pesquisa online Opinion Box, Daniela Schermann, conta que assumiu o primeiro cargo de comando aos 24 anos.

Líder de marketing da Opinion Box, Daniela Schermann

Líder de marketing da Opinion Box, Daniela Schermann

“Entrei em uma rede de rádio como estagiária. Em menos de dois anos era responsável pela produção de toda a rede, com equipe em sete cidades. Tive de descobrir um jeito de fazer a minha voz valer ali dentro, mostrando que tinha conhecimento do que falava e fazia. Aprendi a me impor sem perder o charme e a elegância.”

Hoje, conta que está feliz trabalhando em um ambiente de startup. “Tenho 32 anos e sou uma das mais velhas dentro da empresa. Acho ótimo inspirar pessoas e ajudar os membros da equipe a crescer”, afirma.

‘Tem de escolher marido que apoie a carreira’

Atual presidente da região da América Latina e Caribe da Alcon, divisão de saúde dos olhos do Grupo Novartis, Camila Finzi, entrou na empresa em 2004 para ocupar um cargo de gerência. Segundo ela, a organização mede frequentemente o número de mulheres em posições de liderança. “Quando existem poucas mulheres, traçamos planos. Tive a felicidade de participar de muitos cursos de liderança para me desenvolver.”

ARQUIVO 04/03/2016 Carreiras / Mulheres Camila Finzi, presidente da Região da América Latina e Caribe (LACAR) da Alcon, empresa do grupo Novartis. Crédito: Divulgação / Alcon

Camila Finzi, presidente da Região da América Latina e Caribe (LACAR) da Alcon

Ela afirma que empresas com essa preocupação têm mais mulheres em posições de comando. “Por exemplo, pesquisa do Credit Suisse sobre a área de health care, hoje é de 13% o número de mulheres em cargos de alta liderança. Na Alcon, estamos em 25%, é quase o dobro. Somos quatro mulheres em 12, ainda é pouco, mas é mais do que a média do setor. Isso ocorre porque temos comitê de diversidade e inclusão.”

A executiva acredita que todos os países têm de ter planos e medir a participação feminina no mercado. “É preciso saber por que as mulheres não estão atingindo os altos cargos. Considerando-se todas as empresas do Brasil, se percebe que o número de mulheres é próximo a 50%, mas quando se olha os cargos de liderança, o número cai significativamente. Se a empresa não tiver o objetivo de melhorar, fica mais difícil.”

Camila afirma que mulheres que desejam crescer na carreira têm de escolher um marido que a apoie e que queira que a mulher também tenha uma carreira. “Se meu marido não tivesse me apoiado sempre que minha filha ficava chorando quando saía para trabalhar, e dito ‘ela já vai parar de chorar, não tem problema, tudo bem’, com certeza eu teria tido outras reações. Os filhos crescem, vão ter a vida deles, e eu queria que ela tivesse um exemplo de que as mulheres podem fazer as mesmas coisas que os homens.”

Segundo ela, é uma questão de melhores profissionais e empresas buscam as melhores pessoas, independentemente do estilo e gênero. “Não acredito que a pessoa que todas as vezes escolheu o trabalho tenha vida pessoal e familiar de sucesso.

Nem a pessoa que só escolheu a vida familiar tem uma carreira de sucesso. Tem de equilibrar. É verdade que a sabedoria só se adquire com a idade. Afinal, ela não traz só cabelos brancos e rugas.”

Para coach, mulheres buscam capacitação

A vice-presidente da Sociedade Brasileira de Coaching (SBC), Flora Victoria, conta que o International Business Report, da Grant Thorton, aponta que no Brasil apenas 18% dos cargos de gestão são ocupados por mulheres. “A média mundial é de 22,7%. Outro dado relevante é que 53% das empresas não têm mulheres em cargo de liderança.”

De acordo com Flora, o cenário da participação da mulher no mundo corporativo, principalmente em cargos de liderança, vem melhorando ao longo dos anos, mas não na velocidade desejada.

“Na lista das 500 maiores empresas do mundo feita pela revista Fortune em 2015, havia apenas 23 mulheres no cargo de CEO, o que representa 4,6% do total de empresas pesquisadas”, afirma.

Flora diz que desde 1999 a SBC formou 25 mil profissionais. “Desses, 71,4% são mulheres. E dentre alunos que fizeram o primeiro nível de treinamento, 40% das mulheres decidiram continuar aprofundando a formação, contra 35% dos homens. Isso mostra que elas estão buscando maior capacitação para ganhar mais espaço, que ainda não é meio a meio.”

Segundo ela, outro dado que confirma o desejo de crescimento por parte das mulheres é uma pesquisa que mostra que entre a população mundial com ensino superior, as mulheres representam 58%.

“A mulher executiva tem características que são comprovadas e que favorecem uma gestão mais eficiente. Uma delas é o estilo mais participativo com o seu time do que de autoritarismo. Ela busca cooperação, é mais agregadora. Outro ponto que faz diferença é ter padrão de comunicação muito expansivo. A mulher usa mais as palavras do que o homem.”

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