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Pós-graduação pode alavancar trajetória, mas não faz milagre

EDILAINE FELIX

13 março 2016 | 07:19

Sanglard. No momento certo, fez pós-graduação em marketing e MBA em gestão e liderança para acompanhar as mudanças do mercado e evoluir

Sanglard. Fez pós-graduação em marketing e MBA em gestão e liderança

A perspectiva de aumentar a remuneração, alcançar promoções e cargos de liderança estão bastante presentes em todas as pessoas que procuram cursos livres, de extensão, especializações e MBAs. No entanto, antes de investir tempo e dinheiro em um curso é preciso saber identificar qual deles se encaixa em seu momento de vida e carreira.

Para não ter dúvida, a especialista em educação corporativa e professora da Fundação Instituto de Administração (FIA) Marisa Eboli orienta a olhar a carreira no longo prazo. “Olhe para você e pergunte: o eu que gostaria de estar fazendo daqui a cinco anos? É preciso traçar metas de acordo com o que você pretende no futuro, na empresa que está trabalhando ou em outra.”

Segundo ela, é preciso ter consciência de quais competências são importantes para o desenvolvimento profissional no momento da decisão. “Antes de escolher o curso, saiba qual a necessidade atual, se é aumentar o repertório, melhorar a comunicação oral ou escrita, ampliar os conhecimentos técnicos ou de gestão”, diz Marisa.

Segurança. Emerson Sanglard, de 40 anos, identificou a necessidade de crescimento profissional e decidiu estudar para alcançar os objetivos.

Formado em administração e trabalhando na área de marketing, ele quis entender mais desse mercado e decidiu fazer uma pós-graduação. “Eu era trainee da Sadia, estava começando a carreira e o curso ajudou no desenvolvimento profissional. Eu tinha a teoria no curso e a prática na empresa”, diz.

Depois de concluir a pós-graduação, ele passou por algumas empresas até assumir o posto de coordenador de marketing na General Motors. Foi quando concluiu que, além das técnicas de marketing, precisava também de ferramentas de gestão estratégica, financeira e de liderança mais avançadas. Decidiu, então, cursar MBA em gestão e liderança.

“Fui percebendo o momento da carreira e a necessidade de melhorar”, diz ele, que atualmente é gerente regional de marketing para a América do Sul da Copa Airlines. Sanglard recomenda cursos de aperfeiçoamento, mas aconselha a identificar o momento certo, “sem atropelar os processos”.

A professora de gestão de pessoas do Ibmec-RJ e diretora de pesquisa da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH) no Rio de Janeiro, Alba Valeria Mello Duarte, afirma: “Conheça e defina os objetivos profissionais para nortear as opções”. Ela lembra que, independentemente do curso escolhido, é preciso dedicação, saber o quanto de tempo precisará dispor para realizar o curso, se será online ou presencial, e estar atento às necessidades do mercado.

“A gestão de tempo é muito importante, assim como as áreas e segmentos que demandam profissionais. Atualmente, cursos nas áreas de projetos e processos têm forte demanda pelas organizações que passam por reestruturação. Tem de olhar como está a empresa e aproveitar a oportunidade de crescimento da carreira”, diz.

A russa Alla Ryabova estudou letras e linguística em seu país. Em 2013, ela veio morar no Brasil. Aqui, fez aula de português e trabalhou como professora de russo, inglês e francês, mas percebeu que precisaria se especializar para ter crescimento profissional.

“Eu estava feliz com o que estava fazendo, mas para me desenvolver profissionalmente eu sabia que precisava estudar. Então decidi fazer um curso de pós-graduação em gestão da comunicação e marketing digital na Faap.” Alla conta que pesquisou cursos e optou pela área de marketing digital por causa do crescimento do setor.

Desenvoltura. Durante o curso, conheceu pessoas de diferentes áreas, como jornalistas, profissionais de vendas, de marketing e conta que, para ela que tinha a dificuldade com língua e de desconhecer o mercado de trabalho, foi importante essa diversidade.

Dois meses após começar a pós, ela conseguiu seu primeiro emprego, como social media, e desde de maio de 2015, ela trabalha como coordenadora de mídia na agência de publicidade Wieden+Kennedy. “Eu acredito que o curso abriu portas.”

De acordo com o diretor da FGV Managment, Paulo Lemos, é preciso entender a eficiência do curso para que ele esteja alinhado aos objetivos profissionais. “Existem cursos operacionais, que possibilitam o crescimento profissional, cursos para quem necessita de conhecimento de gestão, para o recém-formados, para aqueles que têm mais de cinco anos de experiência em uma área.”

Lemos lembra ainda que estudar é caro, e por isso é necessário ter retorno financeiro do investimento. “Precisa saber para onde vai na carreira e se não sabe precisa pedir ajuda, montar o mapa de desenvolvimento e traçar os caminhos e as etapas para chegar lá.”

‘Evolui na minha trajetória e passei para outro nível da minha carreira’

Formada em Publicidade e em Turismo, Marcia Colares Galvão, de 55 anos, fez o seu primeiro curso de pós-graduação em vendas e marketing em 1999, na Inglaterra, quando trabalhava como gerente de vendas diretas na companhia aérea British Airways.

“Nessa época, eu passava períodos na Inglaterra e no Brasil e sentia necessidade de evoluir na carreira. Eu já trabalhava com vendas e o e-commerce estava ganhando força, por isso optei por um curso nessa área”, diz.

Márcia. Especialização deu ouro nível para a carreira

Márcia. Após especialização, carreria evoluiu

 

Depois de concluir a pós, ela foi promovida a gerente de vendas direta e e-commerce, uma função nova que surgia por causa da necessidade de adaptação das empresas ao mercado de vendas pela internet.
“Valeu a pena fazer o curso, pois evolui na minha trajetória e passei para outro nível da minha carreira.”

Depois de ter passado por outras companhias aéreas, Márcia assumiu em fevereiro deste ano o cargo de coordenadora de marketing para o Brasil da rede de empresas áreas Star Alliance.

Sem tempo para uma nova pós, ela conta que continua se atualizando com cursos de extensão. “Acredito que a pós foi um tiro certeiro, pois foi ali que descobri o que eu queria fazer e fui melhorando as técnicas no dia a dia da operação. Todas as grandes conquistas da minha carreira vieram depois do curso.”

Márcia também admite que já tinha maturidade profissional, quando fez o curso e isso foi relevante para aplicar os conhecimentos dentro da empresa e se desenvolver.

“O segmento no qual atuo exige capacitação e não quero parar, pretendo fazer um curso voltado para a mídia digital”, conta.

Para professor, acompanhar curso requer maturidade e experiência

Para o coordenador geral da Pós-Graduação, Cultura e Extensão da Fundação Armando Alvares Penteado (Faap), Gley Fabiano Cardoso Xavier, a participação de um curso de especialização não garante um salário maior, mas abre a possibilidade de ascensão profissional. “No entanto, é preciso ter um projeto de vida e de profissão, identificar o que almeja, quando e qual curso fazer.”

Segundo ele, uma coisa é certa: não é possível parar de estudar, mas a escolha deve estar atrelada aos objetivos. “O erro é acreditar que a pós é um ‘cursão’ da área, mas será que vale a pena o esforço, dinheiro e para ao final perguntar: o que faço com isso? É precisa ter maturidade e não se deixar levar por modismos.”Para Xavier, maturidade não tem relação com a idade e sim com o conhecimento pleno da sua atividade, pois do contrário não conseguirá fazer networking nem discutir com colegas de curso sem entendimento de mercado.

Segundo ele, o curso é como um degrau no processo de formação. “Independentemente da área, o importante é saber como se estará depois. A pós é o momento de aposta e de virada na vida pessoal, profissional e financeira e deve ser uma fase prazerosa. Se você errar, a frustração será mais intensa”.

Na opinião da gerente executiva de programas de pós-graduação e abertos nacionais da Fundação Dom Cabral (FDC), Silene Magalhães, não há regra fixa para saber o melhor momento para cursar especialização, mas é preciso ter alguma experiência profissional, para não ter dificuldade de aplicar o conceito.

“Se terminou a faculdade e não tem experiência no mercado, nem mesmo como estagiário, procure uma colocação para ter a prática, para encontrar um programa de especialização que se encaixe em sua necessidade”, sugere. Para ela, não adianta fazer um curso para ter aumento salarial ou promoção. “Não é somente o programa, mas a necessidade de absorver conhecimento, transformar em sabedoria e utilizar na prática.”