Saiba em que áreas o direito está aquecido
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Saiba em que áreas o direito está aquecido

Velocidade da informação, novos ramos de atividade e tecnologia movimentam profissão

CRIS OLIVETTE

28 Agosto 2016 | 07h50

Rodrigo Santos, atua no setor Anticorrupção, Integridade Corporativa & Compliance da Veirano Advogados

Rodrigo Santos, atua no setor Anticorrupção, Integridade Corporativa & Compliance da Veirano Advogados

“As especializações mais recentes e modernas na área do direito são aquelas que tratam de temáticas do direito com foco interdisciplinar. Ou seja, que permitem o aprofundamento de temas da disciplina articulados à determinadas questões em outros campos do saber”, diz o professor e coordenador de pós-graduação lato sensu em direito da Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro, Rafael Almeida.

Gerente da área de direito da recrutadora Michael Page, Patrícia Tourinho diz que em relação às novas especialidades, a área de compliance vem recebendo bastante foco. “Ao mesmo tempo, devido ao momento econômico desafiador, profissionais de recuperação judicial e de crédito também estão sendo muito demandados. Posições de direito da tecnologia de informação também surgem com frequência.”

Patricia ressalta que cada vez mais as organizações buscam profissionais que consigam olhar a companhia como um todo. “As empresas querem profissionais que enxerguem além de suas áreas, que apresentem olhar de negócios e compreendam o seu papel no resultado final da operação”, diz.


Com o objetivo de ter uma atuação generalista, Pedro Mansur fez especialização Latin Legum Magister (LLM – pós-graduação em direito reconhecida internacionalmente) em direito empresarial e também em Litigation (área de contenciosos).

Pedro Mansur

Pedro Mansur

“A minha escolha se baseou na proposta dos dois cursos oferecidos pela FGV- Direito Rio, cujo modelo é bastante singular.” Ele afirma que os cursos possibilitam que o aluno tenha contato com diversos ramos do direito, o que lhe confere uma visão holística e sistêmica. “Os conteúdos são multidisciplinares, com disciplinas como economia e contabilidade, formando um profissional mais completo.”

 

Mansur trabalha no departamento jurídico e de relações institucionais da Souza Cruz. “Ocupo a gerência responsável pelo contencioso estratégico e pelas consultorias regulatória e de propriedade intelectual.”
Sua rotina de trabalho exige o mapeamento de riscos jurídicos a que o negócio está submetido. “Tenho de saber usar o direito como uma caixa de ferramentas que impulsiona o desenvolvimento sustentável da atividade econômica. Com conhecimento amplo do direito é possível oferecer soluções inovadoras ao negócio.”

Clássico. Segundo Patricia, entre as especializações na área do direito clássico que continuam tendo grande demanda estão as de processo civil, previdenciário, trabalhista e tributário.

Advogada tributarista, Amal Nasrallah

Advogada tributarista, Amal Nasrallah

A advogada tributarista Amal Nasrallah, membro efetivo da Comissão Aduaneiro e Comércio Exterior OAB-SP, membro do Instituto Brasileiro de Estudos Tributários (IBET) e sócia da Nasrallah Advocacia, afirma que muitos jovens têm buscado especialização em áreas relacionadas às empresas, como o tributário, trabalhista e empresarial – comercial e societário. Ela diz que direito tributário está ligado ao direito público e relacionado à atividade financeira do Estado.

“Esse profissional estuda as leis relativas à instituição, arrecadação e fiscalização de impostos, taxas e contribuições, o que o torna diretamente ligado ao orçamento, receitas e despesas públicas. Além disso, é muito relacionado à área contábil.”

Essa abrangência, segundo ela, requer do profissional muito estudo e dedicação. “Não basta ter conhecimento apenas em direito tributário, é necessário ter bons conhecimentos de direito constitucional, processo civil, processo administrativo e também de contabilidade.”

O coordenador de pós-graduação da FGV-Rio concorda que há grande demanda no mercado por profissionais especializados em direito empresarial. “Em relação ao direito tributário, área pouco abordada durante a graduação, há falta de profissionais especializados no mercado. Quem atua neste segmento tende a ser melhor remunerado”, diz Almeida.

coordenador de pós-graduação da FGV-Rio,

coordenador de pós-graduação da FGV-Rio, Rafael Almeida

Segundo ele, a recente mudança legislativa no Código de Processo Civil fez aquecer a procura por especialização em direito processual civil, porque os profissionais que atuam na área tiveram de se atualizar.

Aos 29 anos, Rodrigo Santos atua no setor Anticorrupção, Integridade Corporativa & Compliance da Veirano Advogados. O profissional foi contratado no início de 2014 para trabalhar na com direito concorrencial, mas mudou de área.

“Entrei na empresa no mesmo dia em que Luiz Navarro (ex-ministro-chefe da Controladoria-Geral da União), contratado para atuar na área de integridade corporativa. A afinidade entre nós, o levou a me envolver nos trabalhos da área, acabei gostando e aprendi na prática, junto com ele.”

O fato ocorreu quando a Lei Anticorrupção tinha entrado em vigor e a demanda de trabalho cresceu. “Muitas empresas nos procuraram para estruturar seus programas de integridade corporativa. Eu me envolvi muito no assunto e continuei na área.”

Segundo ele, por ser uma lei nova, os cursos de pós-graduação tendem a ser generalistas por não haver jurisprudência. “A Justiça brasileira não tem casos finalizados, o debate envolve muito o que deve vir. No exterior, há cursos consolidados, principalmente nos Estados Unidos, onde há extensa base de casos para análise, o que permite estudos mais profundos.”

Futuro. Nos próximos anos, Santos pretende fazer pós-graduação nos EUA, justamente porque o país possui advogados especialistas na área há vários anos.

Ele diz que no dia a dia sua atuação inclui a organização de programas de integridade para empresas. “Redigimos políticas e códigos de conduta, revisamos políticas já existentes na empresa para verificar se estão de acordo com as melhores práticas e com a lei.”

O advogado afirma que o escritório também presta muitas consultorias. “Várias questões ainda não foram regulamentadas e as empresas não têm muita noção sobre certas condutas.”

Segundo ele, grande parte da atuação também é de investigação interna nas empresas. “Quando há suspeita de que alguma conduta indevida possa ter sido praticada, ajudamos a conduzir as investigações e a revisar documentos. É um trabalho que exige a participação de muitas pessoas. A demanda é grande e o número de profissionais é pequeno”, diz.

Entrevista: José Paulo Graciotti, sócio da Graciotti Assessoria Empresarial

21.8 carreiras José Paulo Graciotti 2 

Quais desafios atingem esses profissionais?
O crescimento exponencial das informações no meio digital, tais como: decisões judiciais, peças processuais, contratos, opiniões e e-mails dificultam a busca, identificação correta e análise das informações relevantes para as necessidades de um advogado. Por outro lado, a capacidade de análise das informações, a síntese das ideias e argumentos e a elaboração dos documentos jurídicos ainda dependem de pessoas e de suas limitações humanas.
A tecnologia não é uma aliada?
Sim. O profissional encontrou na tecnologia uma aliada para enfrentar essa pressão e evoluir. Hoje, a advocacia é uma das profissões que mais necessita e depende da tecnologia para a prestação de serviços eficientes. Ela é encarada pelo advogado como um meio e não como um fim, e deve ser utilizada como ferramenta poderosíssima para melhor a eficiência do trabalho.
De que forma?
Deve saber extrair o máximo da tecnologia para encontrar agilmente as informações necessárias à produção de documento jurídico, contando com ajuda de robôs de busca ou softwares de inteligência cognitiva. Também deve saber gerenciar corretamente seu conhecimento estratégico organizando-o e indexando-o para utilização futura. Além de analisar estatisticamente jurisprudências e decisões anteriores de tribunais e magistrados.
Esse aprendizado faz parte da graduação?
Não. Apesar da tecnologia ser apenas uma ferramenta, todas essas atividades têm de ser concebidas e geridas por advogados por meio de softwares e sistemas inteligentes. Essa utilização exige uma formação muito mais eclética e tecnológica do que a puramente técnica que os estudantes de direito estão recebendo nas universidades.
Então, eles devem buscar formação complementar?
Cada vez mais. Ao longo da carreira, além da própria atualização especifica no direito, os advogados serão compelidos a se tornarem profissionais com conhecimentos mais abrangentes, principalmente no que se refere à tecnologia e ao mundo digital. Isso é necessário para que não corram o risco de se tornarem profissionais jurássicos.
Quais são as outras áreas que eles devem conhecer?
O advogado mais completo é mais competitivo e preparado para os desafios. É recomendável que tenham conhecimentos mais aprofundados em matérias associadas às relações humanas e conhecimentos de marketing institucional e pessoal para incrementar sua participação no mercado, tais como: gerenciamento de pessoas, gestão de empresas e marketing.