Mulheres no comando das empresas
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Mulheres no comando das empresas

Executivas que presidem organizações fazem parte de uma geração que rompeu paradigmas e abriu caminho para futuras líderes

CRIS OLIVETTE

05 Março 2017 | 07h32

Mônica Orcioli diretora Geral da Swarovski Professional Brasil e Latam

Mônica Orcioli diretora Geral da Swarovski Professional para América Latina

Desbravadoras. Essa pode ser a melhor palavra para definir o perfil de mulheres que fazem parte da primeira geração de executivas brasileiras a ocuparem cargos de alta liderança em grandes companhias.

“O papel da minha geração é facilitar esse processo para as gerações que estão chegando. Isso faz parte da minha meta de vida”, afirma a diretora geral da Swarovski Professional para a América Latina, Mônica Orcioli.

Em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, comemorado no próximo dia 8, contamos a seguir a trajetória de algumas executivas que estão abrindo caminho para a equidade de gêneros, além de trabalharem pela difusão da diversidade nas organizações onde atuam.


Bailarina clássica e mãe de três filhos, Mônica é formada em marketing, possui MBA pela Universidade de Pittsburgh e cursos de especialização pela Harvard University e Stanford University. “Estou no mercado há 28 anos. Minha trajetória tem sido intensa, mas sempre dosei as prioridades corporativas e pessoais para que essa jornada acontecesse da forma mais equilibrada possível.”

Segundo ela, conciliar o trabalho com a convivência familiar fica mais fácil quando a família entende que grande parte de sua felicidade e de sua realização também estão relacionadas à sua carreira. “Conseguir esse equilíbrio é uma grande fonte de realização para nós, mulheres.”

Às jovens executivas, Mônica recomenda que não se sintam culpadas pelas decisões que tomarem, pelas oportunidades que surgirão, pelas portas que abrirem e pelas que terão de fechar. “Além disso, que sejam elas mesmas, porque o mundo precisa de pessoas autênticas e abertas ao novo. Assim, estarão ajudando a tornar o ambiente corporativo mais rico e saudável.”

CEO da Zodiac Produtos Farmacêuticos, Heloisa Simão é economista formada pela Universidade de São Paulo e realizou cursos internacionais nas áreas de liderança e marketing. A primeira posição de liderança que ela ocupou foi em 2009, em outra companhia. Na Zodiac, é CEO há cinco anos.

Heloisa Simão CEO Zodiac Produtos Farmacêuticos

Heloisa Simão CEO Zodiac Produtos Farmacêuticos

Na universidade, Heloisa tinha interesse em trabalhar na área de negócios. “Coincidiu que meu estágio foi em uma empresa farmacêutica e me apaixonei por esse mercado. Gosto de participar do desenvolvimento de medicamentos e da evolução da medicina. É uma experiência maravilhosa.”

A CEO afirma que nunca teve o cargo de presidente como meta. “O que sempre me impulsionou foi participar de projetos desafiadores e assumir liderança em negócios com maior complexidade”, conta.

Segundo ela, durante boa parte da carreira não percebeu que existia discriminação. “Quando eu tinha um desafio, superava e seguia em frente. A partir de um projeto sobre liderança feminina do qual participei é que tive essa consciência.”

Heloisa diz que com a maturidade percebe que a maior dificuldade é o entendimento das pessoas sobre o que é diversidade. As pessoas repetem um discurso sobre inclusão, mas no dia a dia buscam os iguais.”

A executiva afirma que as mulheres são muito mais sabatinadas para crescerem na carreira. “Somos mais exigidas, temos de ter mais excelência.”

De acordo com ela, na Zodiac há bastante diversidade e equilíbrio nas várias funções. “Às mulheres que têm vontade e potencial de crescer, damos coach. Também acompanho de perto a carreira de algumas para entender quais dificuldades estão enfrentando.”

Segundo ela, o ser humano é composto de realização pessoal e profissional. “Esses dois lados têm de andar em harmonia, não importa se é homem ou mulher. É possível ter realização nos dois aspectos desde que a pessoa busque isso. Também é importante que haja diversidade, para que as decisões sejam melhores e para que todos tenham crescimento.”

Ela ressalta que a mulher que chega à presidência não é uma ET. “Faço tudo o que todos fazem, tenho problemas para administrar a casa, vou ao supermercado, lavo louça, cultivo orquídeas, enfim, sou uma pessoa normal.”

MUDAR DE RUMO E RECUAR PARA AVANÇAR

A carreira da presidente da Schneider Eletric, Tânia Cosentino, começou aos 16 anos como técnica eletrotécnica. “Depois fiz engenharia elétrica com ênfase em eletrônica e cursos de extensão na área de finanças e negócios”, conta.

Tânia Cosentino presidente da Shneider Eletric

Tânia Cosentino, presidente da Shneider Eletric

O cargo atual foi assumido em 2009, mas está na empresa há 17 anos. “Fui a primeira mulher e a primeira brasileira a assumir a presidência de uma subsidiária. Em 2013, assumi a América do Sul.”

Mesmo tendo preferência pela área de projetos, teve de mudar o rumo da carreira para poder crescer. “Quando concluí a faculdade, vi que as possibilidades de crescimento estavam fora da área técnica e migrei para a área comercial. Fui buscando os próximos passos com visão de curto prazo e provocando as mudanças.”

Tânia afirma que nunca enfrentou rejeição pelo fato de ser mulher. “Talvez porque sempre tenha trabalhado em empresas de grande porte e multinacionais. O foco na diversidade de gênero nas multinacionais ainda é maior do que nas empresas nacionais. Costumo comentar que quando comecei a trabalhar como estagiária de eletrotécnica participei do primeiro momento inclusivo, forçando a entrada de mulheres nesse mercado.”

Ela afirma, porém, que nunca enfrentou obstáculos por ser mulher. “Sempre busquei dar resultado e cultivei muita disciplina e aprendizado. Também sempre tive pessoas que me apoiaram para dar o próximo salto. É importante ter um mentor, sempre busquei esses aliados”, conta.

A executiva afirma que a Schneider tem metas de recrutamento mínimo de mulheres para posições seniores. “Temos compromisso global de até 2020 chegarmos a 30% de mulheres em cargos de liderança. Hoje estamos ao redor de 20%.”
Segundo ela, para ascender, homens e mulheres têm de fazer escolhas e serem felizes com elas. “E tem de sonhar. A mulher tem de se permitir olhar para um cargo maior e se projetar, planejar o que vai precisar fazer para chegar lá.”

Diretora financeira executiva da Itaipu Binacional desde 2006, Margaret Groff também precisou mudar a rota da carreira para crescer. “Nos primeiros seis anos de companhia cheguei ao cargo de gerente. Então, deixei Curitiba, minha cidade natal, para morar em Foz do Iguaçu. Trabalhava muito, tinha competências, mas vi que nunca seria superintendente”, diz a engenheira civil com pós-graduação em economia e em gestão e MBA em mercado financeiro.

Margaret Groff, diretora financeira da Itaipu Binacional

Margaret Groff, diretora financeira da Itaipu Binacional

Margaret preferiu sair da área técnica e até a regredir um pouco no salário, para depois dar um passo maior. “Em 2003, assumi a presidência do fundo de pensão da companhia. Pude mostrar meu talento. Depois de três anos ocupei o cargo atual. Foi a primeira indicação por competência técnica e não política”, conta. Ela diz que ao encontrar um obstáculo é preciso contorná-lo e buscar alternativas para conseguir chegar aonde quer.

‘Temos de ser mais proativas, ir mais à luta’

Diretora-geral da Peugeot do Brasil, cargo equivalente ao de presidente, a advogada Ana Theresa Borsari trabalhava no Procon, quando foi abordada por um headhunter dizendo que uma empresa que estava vindo para o Brasil procurava alguém com o seu perfil.

Ana entrou na empresa em 1994 para montar o departamento de atendimento ao consumidor. “Conheci Thierry Peugeot e a história da empresa. Identifiquei-me com os valores de respeito ao cliente e aceitei o convite. Entrei em um universo masculino, mas sempre utilizei o fato de ser mulher a meu favor.”

Diretora Geral da Peugeot no Brasil, Ana Theresa Borsari

Diretora Geral da Peugeot no Brasil, Ana Theresa Borsari

No decorrer dos anos, foi diretora de desenvolvimento e diretora de marketing. Até sentir que estava pronta para assumir um país e pleitear novo cargo. “Fui com minha família para a Europa e assumi a Eslovênia. Tornei-me a primeira mulher da Peugeot a assumir um país, quebrando grande tabu.”

Depois de passar sete anos fora, Ana voltou há 14 meses para assumir a marca no Brasil. “A grande mensagem é que a mulher precisa demonstrar sua ambição. A diferença entre nós e os homens, mesmo que sejam menos preparados, eles têm mais audácia para expor o que querem.”

Segundo ela, as mulheres acham que pelo fato de entregarem ótimos resultados, o crescimento virá naturalmente. “Temos de ser mais proativas, ir mais à luta, buscar mais”, diz.

“Não projetei uma carreira de presidência. Mas a minha trajetória me levou a estar no lugar certo, na hora certa, com as pessoas certas” conta a engenheira elétrica, CEO da Balluff Controles elétricos há três anos, Adriana Belmiro da Silva. Aos 45 anos, ele afirma que com a maturidade e seus 25 anos de carreira, agora planeja sua trajetória profissional para os próximos 20 anos: “Quero presidir uma empresa maior, com mais funcionários”.

Adriana Belmiro da Silva, Ceo e conselheira da Balluff no Brasil Crédito: Divulgação/Balluf

Adriana Belmiro da Silva, Ceo e conselheira da Balluff no Brasil Crédito: Divulgação/Balluf

Com MBA em marketing e em gestão global de negócios, Adriana fez, recentemente, curso de conselheira na Saint Paul Escola de Negócios. “Assim, abri caminho para médio prazo. Quero participar de conselhos consultivos e ajudar empresas no processo de gestão.” A CEO diz que é possível conciliar a vida profissional e pessoal desde que as mulheres escolham parceiros que as apoiem. “Não tenham medo de sonhar com posições mais altas.”