Disposição e vitalidade faz aposentado voltar à ativa
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Disposição e vitalidade faz aposentado voltar à ativa

Profissionais que conseguem retomar atividades dão equilíbrio ao time

CRIS OLIVETTE

19 Março 2017 | 07h17

Élcia Nascimento Costa, 74 anos (à esq.) e , Quitéria Lucas Farias Luz. de 63 anos

Élcia Nascimento Costa, 74 anos (à esq.) e , Quitéria Lucas Farias Luz. de 63 anos. Foto: Carolina Andrade/Drogaria Venancio/Divulgação

Professora aposentada desde 1995, Élcia Nascimento Costa, de 74 anos, está empolgada com o emprego conquistado neste ano. “Não havia buscado trabalho após a aposentadoria, até surgir essa oportunidade. Me candidatei à vaga para reforçar a renda mensal. A experiência está sendo ótima, vivo situações novas e divertidas”, conta.

Sua colega, Quitéria Lucas Farias Luz, de 63 anos, pulou, gritou e chorou de alegria quando recebeu a notícia que seria contratada. “Eu me inscrevi para a vaga, porque adoro o contato com o ser humano. Conversar e ajudar o outro é o que mais amo. Agora, o clima em casa até mudou. Meu marido me olha de um jeito diferente e me sinto mais valorizada.”

As duas foram contratadas como concierges pela Drogaria Venancio. “A principal tarefa delas é recepcionar os clientes e acompanhá-los à seção do produto que buscam, ou encaminhá-los a outro atendente, caso precisem de informações detalhadas”, conta a gerente de RH da empresa, Michelle Rodrigues.


A ideia surgiu quando a empresa identificou grande demanda de idosos nos lojas de Copacabana, bairro com a maior população de pessoas acima dos 60 anos no Brasil, conforme levantamento do IBGE.

“Concluímos que colaboradores nesta faixa etária iriam conversar melhor com este público, além de prestarem um excelente atendimento às pessoas de outras faixas de idade. Proporcionando melhor experiência de compra.”

Michelle afirma que a contratação tem se mostrado positiva tanto para o clima interno da loja quanto para os clientes. “Pelos comentários de consumidores e observações da gerência, percebemos que elas agregam experiência e bagagem de vida à equipe, e estão dando bons resultados no papel que desempenham na loja.”

Segundo a coach de carreira Madalena Feliciano, é crescente o número de pessoas que buscam permanecer ou se reinserir no mercado de trabalho.

“É um fenômeno recente no Brasil e está diretamente relacionado às melhorias nas condições de saúde da população, que leva ao aumento da expectativa de vida”, afirma.

A coach conta que estudos mostram que os 70 anos da sociedade atual podem ser comparados aos 50 anos de algumas décadas atrás. “Isso ocorre porque cada vez mais as pessoas com mais idade apresentam grande vigor e disposição. Essa realidade deve ser encarada como algo natural e saudável.”

Madalena diz que muitos empresários estão entendendo as vantagens de contratar pessoas com mais idade para cargos e atividades que exigem mais responsabilidades, disponibilidade e pontualidade.

“Em geral, essas pessoas são excelentes para trabalhar com atendimento a clientes por serem mais pacientes, humildes e maduras para reconhecer seus erros e buscar por melhorias. Além de serem menos ansiosas e terem menos responsabilidades e preocupações externas, pois os filhos já são adultos independentes”, ressalta.

Analista de RH do grupo Mania de Churrasco, Fabíola Padovani afirma que a empresa não restringe a contratação de pessoas com mais idade. “Pela experiência que temos, é possível afirmar que nas unidades que empregam pessoas mais velhas junto com jovens há um contrapeso interessante.”

Segundo ela, a imaturidade e ansiedade dos jovens, que querem as coisas para ontem, é amenizada pela convivência com os mais velhos, que mostram o outro lado da situação, como os benefícios oferecidos pela empresa e a qualidade do tratamento. “Eles nos ajudam a coordenar o time”, diz Fabíola.

Atualmente, o grupo Mania de Churrasco tem duas funcionárias que foram contratadas quando tinham 65 e 66 anos. Umas delas é Maria de Lourdes Arruda, que há quatro anos ocupa a função de coordenadora de área Jr. Antes de conquistar a vaga, ficou um ano desempregada.

Maria de Lourdes Arruda

Maria de Lourdes Arruda, de 70 anos, diz que gosta de liderar e orientar. Foto: Tiago Queiroz/Estadão

Hoje, com 70 anos, Maria afirma que não pretende parar de trabalhar tão cedo. “Sou muito ativa, adoro ler e trabalhar, não posso parar. Não quero parar. Gosto de me sentir útil, de liderar e orientar. Aqui tenho isso.”

Natural. Consultora de Transição de Carreira e Coaching da Thomas Case & Associados, Marcia Vazquez afirma que o trabalho é uma atividade fundamental para o desenvolvimento do ser humano. “Nada mais natural que os profissionais mais experientes estejam relutando em aceitar a aposentadoria inativa. Eles enxergam que esta pode ser a hora de realizar projetos profissionais diferentes, utilizar suas habilidades e competências em novas tarefas ou ter chance de buscar outras atividades de produção, remuneradas ou não.”

Nesse time está o engenheiro civil de 67 anos Jonas Duarte, que há seis meses procura trabalho. “Estava atuando como consultor em um grande projeto de minério de ferro, desenvolvido pela Vale, no Pará. Com o término do projeto, voltei para São Paulo e estou sem trabalho.”

Nesse período, tem feito cursos de liderança, coach, além de outros na área de gestão e relacionamento interpessoal. “Estou focando mais essa área de gestão de pessoas, pois na área técnica sempre participei de grandes obras como o projeto Carajás nos anos 1970, a transposição do Rio São Francisco e outros da OSX.”

Duarte também acumula experiência internacional, com vivência nos Estados Unidos e Portugal. Ele procura colocação como consultor ou diretor.

Segundo ele, além da crise, o fator idade pode estar dificultando a conquista de nova colocação. “Ao mesmo tempo, não acredito que a idade seja tão preponderante. Tenho contatos no exterior e lá fora também está difícil arrumar trabalho.”
Nas experiências que teve após os 60 anos, ele diz que o relacionamento com os jovens sempre foi muito bom. “Acabo virando mentor, ensinando o que já aprendi. Isso gera uma relação muito boa.”

‘Experientes são a melhor alternativa de capacitação de jovens’

O diretor da recrutadora Talenses, João Marcio Souza, considera que os motivos que levam pessoas com mais de 60 anos a continuar na ativa envolvem, além do ‘fator renda’, um tipo de ‘terapia ocupacional’.

“Sentir-se produtivo, ser/fazer parte de uma organização, acrescenta significado à existência humana. Não o de apenas estar no mundo, mas o de ‘ser’ no mundo. Isso melhora a qualidade de vida das pessoas e preserva a autoestima.”

João Marcio Souza, Diretor da Talenses

João Marcio Souza, diretor da Talenses. Foto: Claus Lehmann / Talenses / Divulgação

Mercado. Segundo ele, ainda não há no Brasil a mesma visão de países mais desenvolvidos, com populações menos jovens. “Neles, existe a consciência sobre a utilidade de se empregar pessoas idosas, diferentemente daqui, onde colocamos jovens em muitas funções aquém da energia e do potencial existentes, independentemente do fator educação”, ressalta.

Souza considera que pessoas com mais de 60 anos não ambicionam projetos muito além de 5 ou 10 anos de duração, nem trabalho em tempo integral, ou salários vultosos.

“Devemos tentar contornar as imposições da Civilização do Espetáculo (citando o livro de Mario Vargas Llosa), e sempre considerar a utilidade do emprego de seniores, buscando o candidato adequado para a função. Nessa faixa etária, há muitas pessoas com excelente capacidade de contribuição, desde que em funções adequadas”, pondera.

Consultora de Transição de Carreira e Coaching da Thomas Case & Associados, Marcia Vazquez lembra que o maior contingente de disponíveis hoje no país se encontra entre os jovens. “Estamos diante de uma crise no emprego sem precedentes. Os jovens não possuem experiência ainda, não foram ‘treinados’ no mundo corporativo e são, no ciclo da carreira, ainda, uma promessa.”

Segundo ela, “são os mais experientes que desenvolvem e capacitam os jovens, que os preparam para o futuro organizacional” e que podem lhes fornecer o maior legado: o conhecimento.

“Assim, os experientes são, para os jovens, a melhor alternativa de capacitação e de formação das suas carreiras, mesmo que estes jovens, algumas vezes, não consigam enxergar os mais velhos como fundamentais na companhia. Reflexo, certamente, muito mais da cultura da organização do que do próprio jovem.”

Márcia afirma que muitas pessoas depois dos 60 anos elaboram um novo plano de vida, criando alternativas de carreira, descobrindo talentos e habilidades, encontrando, nessa fase da vida, novas motivações e outras atividades produtivas.
“A vida e a carreira construídas, a experiência profissional adquirida, as vivências compartilhadas, os conhecimentos internalizados, formam uma bagagem profissional e pessoal de relevante importância, a qual muitos estão lançando mão para reinventar-se e revitalizar-se.”

Diversidade de gerações contra a escassez de talento

Pesquisa da ManpowerGroup Solutions feita com 4,5 mil candidatos em cinco mercados influentes ao redor do mundo (Estados Unidos, Reino Unido, Austrália, China e México) identificou que a discriminação por idade em práticas de contratação ainda é um problema em alguns países.

Segundo o estudo, número significativo de candidatos globais enfrenta a pressão da idade — em ambas as extremidades do espectro — como um desafio às suas aspirações de carreira.

O que os candidatos podem não perceber é que algumas organizações estão abraçando a diversidade geracional como uma maneira de superar a escassez de talentos, aproveitando que um número nunca antes visto de aposentados está retornando ao mercado de trabalho.

As empresas estão contratando trabalhadores bumerangue (aposentados) para preencher as vagas abertas e veem esse profissionais como fonte inexplorada de talento. Setores de hospitalidade, varejo e call center estão entre os pioneiros nas iniciativas que envolvem essas populações. Nesse processo, as organizações melhoram suas marcas como empregador e perante os consumidores.

Os resultados da pesquisa também salientam o fato de que a questão da idade continua a ser um problema muitas vezes não discutido por corporações multinacionais, bem como a razão pela qual uma força de trabalho geracionalmente diversificada pode contribuir para o sucesso do negócio.
Conforme o estudo, 34% dos candidatos acreditam que a questão da idade é um dos seus maiores desafios de carreira.

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