‘O que depende  de mim é escolher bem as pessoas’
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‘O que depende de mim é escolher bem as pessoas’

Eder Maffissoni, presidente do laboratório farmacêutico Prati-Donaduzzi, diz que setor é altamente competitivo e que ter uma equipe competente e alinhada eticamente à empresa é essencial

Redação

17 Abril 2017 | 07h23

CEO

Formado em direito, o presidente do laboratório farmacêutico Prati-Donaduzzi, Eder Maffissoni, entrou na companhia, na verdade, em razão da experiência que tinha em TI. Começou na área de análise de custos, mas a experiência durou apenas dois meses. “Na sequência, acabei fundando o departamento de compras da empresa, que era pequena, tinha 160 funcionários.” Ficou seis anos e meio na área, que teve seu campo de atuação ampliado e se transformou em departamento de suprimentos. “Mais tarde essa gerência virou uma diretoria. Nesse período, qualifiquei fornecedores no exterior, fiz muitas viagens para Índia, China, Europa, EUA, a fim de conhecer os fabricantes de matéria-prima do laboratório.” A experiência na farmacêutica incluiu passagens pela contabilidade, pela transportadora da companhia – que tem 28 unidades de distribuição espalhadas pelo País –, marketing e diretoria comercial, onde permaneceu até 2011. Em 2012, assumiu uma vice-presidência, criada com o objetivo de prepará-lo para a presidência. Sua chegada a este cargo marcou um momento importante no processo de profissionalização da empresa, fundada em 1993 pelos irmãos Luis e Arno Donaduzzi e por Celso Prati, em Toledo (PR). Atualmente, a companhia tem 4.000 colaboradores, possui 182 medicamentos e 1.384 apresentações registrados na Agência Brasileira de Vigilância Sanitária (Anvisa), das quais 1.120 são genéricos. Produz cerca de 12 bilhões de doses terapêuticas por ano. A companhia também detém a linha Vigora Plus, de suplementos alimentares. A seguir, trechos da entrevista.
O momento
Na minha passagem pelo marketing e pelo comercial, eu peguei uma visão do mercado farmacêutico em geral. Nesse momento foi criado o conselho de administração, e os sócios, que eram todos executivos na empresa, estavam com a ideia de profissionalizá-la, colocar um executivo no comando e eles saírem do dia a dia.
A preparação
Eu fui escolhido e foi feito um trabalho com uma consultoria para mapear minhas fortalezas e fraquezas e promover meu desenvolvimento. Passei quatro anos na vice-presidência sendo desenvolvido. Fiz cursos na Kellog, no Insead, na França, com apoio da Fundação Dom Cabral. Fiquei quatro anos aprendendo sobre o mercado e sendo desenvolvido em gestão para poder assumir esta posição atual.
Ligado em 220V
Eu até me pergunto por que eu fui o escolhido (para ser presidente), sendo formado em direito e trabalhando em uma indústria farmacêutica. Talvez a paixão e o trabalho pela empresa, a vibração e a determinação para entregar resultado sempre contribuíram. Talvez seja esse um pouco do meu perfil, sempre ligado em 220 V, focado em resultado e apaixonado pela empresa.
Bom senso
Eu acho que uma medida de bom senso é bem-vinda quando se vive a 220v. Uma carga de meio alta de ansiedade pode trazer resultados positivos, mas também pode trazer resultados pouco sustentáveis. Por isso é legal o bom senso, sempre pensar muito nas decisões e tomá-las com o pé no chão, sabendo o que está fazendo, e estar bem assessorado. É importante ter pessoas boas em cada uma das áreas e que ajudam nas decisões importantes.
Papel
Na verdade, o que depende de mim é escolher bem as pessoas. Escolher as pessoas competentes, capazes, que tenham alinhamento com os conceitos éticos da empresa e essas pessoas acabam desempenhando seu papel. O ambiente (no setor farmacêutico) é muito competitivo, embora eu acredite que haja espaço para todos, e um espaço privilegiado para aqueles que prestam um bom serviço. O maior segredo do crescimento do laboratório vem das pessoas. A qualidade do time é que nos permite competir nesse mercado acirrado.
Rotina
Minha rotina começa sempre às 8 horas. É um hábito todos os diretores tomarem o café da manhã aqui comigo, todos os dias. Falamos do desempenho diário da empresa, das dificuldades, basicamente da pauta do que é importante para o trabalho do dia, e aí cada um segue para o seu posto de trabalho. Fui eu quem implementou essa prática. É para ter todos os executivos trabalhando com foco no que é importante para a empresa.
Aprendizado
Uma das coisas mais desafiadoras neste trabalho é o aprendizado. Estamos em um mundo muito dinâmico, a tecnologia avança numa velocidade muito grande, algumas patologias vêm evoluindo nos tratamentos. Temos remédios para uma dor de cabeça a até mesmo para um câncer com uma grande dificuldade de se curar, e há tecnologias espalhadas em toda essa seara. O aprendizado é um desafio constante para nós, o mercado muda, são lançados medicamentos com mais tecnologia, e aí o mercado muda praticamente instantaneamente. Então, sim, um grande desafio é o aprendizado.
Formação
Ler bastante é importante para nos prepararmos. E nossa universidade corporativa tem cursos em parceria com a Fundação Dom Cabral, com a FGV, com USP, Unicamp, vários MBAs in company, temos muitas pessoas fazendo mestrado e doutorado em boas universidades. O que nos mantêm mais antenado no mercado são as visitas aos clientes, entender a necessidade, a dinâmica desse mercado o tempo todo. Estar junto do cliente sempre.
Migração
O grande foco do laboratório é o genérico, embora estejamos diversificando o portfólio, trabalhando produto de inovação incremental, inovação radical, produtos com estudos clínicos. Estamos migrando um pouco para outra área que não o genérico.
Desconfiança
Sem dúvida, no Brasil ainda há um grande preconceito em relação ao medicamento genérico, quando comparamos o mercado brasileiro com o mercados mais maduros. Nos Estados Unidos, por exemplo, 65% de todo medicamento consumido é genérico, enquanto no Brasil ainda sofremos para passar da casa dos 30%.
As razões
Ainda existem pessoas que lembram dos casos como o da pílula de farinha, da época dos produtos que não faziam efeito. Temos um passado que marcou muito e a partir daí começou a haver esse preconceito. Mas o medicamento genérico cada vez mais tem provado eficácia. Um dos nossos produtos para hipertensão trata 5.250.000 pessoas todos os dias, se ele não cumprisse o papel, teríamos um caos na saúde pública. Eu acredito que o Brasil tem andado a passos largos no caminho da volta da confiabilidade, quebrando esse preconceito. Hoje, há hospitais renomados que administram genéricos e ele vem sim ganhando espaço entre o consumidor e a classe médica.
Desafios
O primeiro desafio no cargo é consolidar essa transição (a profissionalização da empresa familiar). Todo processo no qual o fundador é muito presente – ele ocupou o cargo por muito tempo –, por mais que a minha maneira de trabalhar tenha sido formada por ele, é muito parecida e haja proximidade, talvez as coisas não aconteçam no ritmo que acontecia na época do fundador. Enfim, nosso desafio é consolidar essa transição, mostrando que o laboratório consegue seguir no mesmo ritmo com os mesmos princípios do fundador, conseguindo perpetuar esse valores. O segundo desafio é manter um crescimento sustentável e saudável. Esses são os desafios. / CLÁUDIO MARQUES