O futuro das profissões na  era tecnológica
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O futuro das profissões na era tecnológica

Substituição do homem por robôs provoca apreensão quanto à permanência do trabalho humano; acadêmicos rejeitam pessimismo

Redação

19 Junho 2017 | 07h07

a estudante Isis Tenca de Souza e sua mãe, Cristiane de Souza. Foto: Sergio Castro/Estadão

Por Cris Olivette
Ao mesmo tempo em que a evolução tecnológica traz inúmeros benefícios, também faz aumenta a apreensão a respeito do futuro das profissões e amplia a polêmica sobre o fim de muitos postos de trabalho. Nesse cenário incerto, como preparar os jovens na escolha da profissão?
Professor da Faculdade de Economia e Administração da PUC-SP, Leonardo Trevisan avalia que funções rotineiras têm maior potencial de ameaça. “ Atividades da área de serviços serão rapidamente substituídas, como a de recepcionista e vendedor, porque o uso de robôs faz aumentar a produtividade e confiabilidade no resultado da operação.”
Segundo ele, profissões que têm vínculos de proximidade com inteligência artificial como a de designer técnico, designer digital e engenheiro da computação terão mais perspectivas.
Coordenadora de mestrado do Insper, Regina Madalozzo afirma que os estudantes precisam ser preparados para enfrentar as transformações em curso. “Nos últimos 20 anos, ocorreram mudanças tecnológicas tão grandes que não aconteceram nos últimos 100 anos. É o ritmo das mudanças que assusta.”
Ela diz que o trabalho do futuro vai demandar pessoas flexíveis, que exerçam diversas atividades e que estejam dispostas a mudar. “É preciso incentivar muito a educação, o mercado vai precisar de pessoas bem formadas. É nisso que as famílias e escolas precisam focar.”
Ela diz que não basta oferecer educação forma. “Os jovens precisam ser preparados para continuar aprendendo. É esse desenvolvimento que estudiosos chamam de ‘educação necessária’.”
No Insper, por exemplo, ela diz que todos estão preocupados em desenvolver habilidades nos alunos que não são, necessariamente, as que eles usariam no dia a dia de uma empresa hoje em dia. “São habilidades de relacionamento, senso crítico e empreendedorismo. Existem escolas trabalhando essas questões para que os alunos tenham maturidade para encarar as mudanças. Outras, continuam apostando no desempenho nos vestibulares.”
No Colégio Radial, alunos do 9º ano do Ensino Fundamental II e do 1º ano do Ensino Médio participam uma vez por semana de aulas de projeto piloto comandado pelos fundadores da Geekie – empresa que desenvolve tecnologia para educação –, Claudio Sassaki e Mauro Romano. Batizado de Hacking your Life, o curso têm por objetivo ajudá-los a identificar quais são as sua paixões para que tracem projetos de vida e carreira.
“Estamos aplicando a metodologia do design thinking que é voltada à resolução de problemas de maneira um pouco diferente, relacionada com o propósito de vida: o que esses jovens querem fazer da vida? O produto, neste caso, é a vida deles”, diz Sassaki.
Ele conta que cada aluno define três projetos de vida. “O que ele faria hoje e qual seria o plano B. O terceiro é uma provocação para que saia da caixa e reflita sobre o que faria se pudesse trabalhar somente com o que gosta.”
Após eleger as profissões de interesse, os alunos vão a campo pesquisar mais sobre elas, por meio de entrevistas com quem está no mercado, com pessoas que começaram o curso e abandonaram, saber sobre possibilidades de atuação etc. “Assim, vão refinando o projeto ou resolvem mudar de opção.”
Cristiane Santana, mãe do aluno do nono ano do Colégio Radial, Edio Nascimento Junior, acha interessante a oportunidade que a escola está oferecendo ao filho, para que ele possa planejar seu futuro desde cedo. “Ele é muito jovem e fica perdido na hora de escolher uma profissão.”
Edio tem 14 anos e acha boa a experiência de pensar sobre seu futuro. “Estava indeciso, agora tenho mais certeza. Quero fazer engenharia mecatrônica, porque esse profissional pode trabalhar com engenharia mecânica, robótica etc.”
A mãe de Isis Tenca de Souza, de 15 anos, Cristiane Souza aprova a iniciativa da escola. “Vejo que muitas pessoas não têm mais campo de trabalho por conta da tecnologia. O curso abre um leque de opções e incentiva os alunos a terem uma visão real sobre o futuro.”
Isis pensa em cursar faculdade de direito. “As aulas sobre profissões estão nos ajudando muito, principalmente quem ainda não sabe o que escolher.”
Cenário. Especialistas da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Andre Miceli e Viviane Narducci analisam os impactos do mundo digital no mercado de trabalho e questionam: “O futuro do trabalho já está aqui. Todos têm de lidar com isso. A tecnologia evolui a cada momento e é aplicada de inúmeras maneiras, em todos os lugares. Isso é um problema?”
Viviane não acredita no desaparecimento de postos de trabalho, mas sim na substituição. “Robôs precisam ser planejados, desenvolvidos e programados. Portanto, tiramos o homem da situação ‘mão de obra’ e o colocamos na situação de ‘ser pensante’. Para tanto, será necessário desenvolver competências técnicas e comportamentais”, diz a especialista em gestão estratégica de pessoas.
Segundo ela, pesquisa da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), aponta que, na média, 57% das vagas de emprego estão suscetíveis à automação e robotização nos 34 países-membros da organização (o Brasil ainda não faz parte da organização mas pleiteia ser país-membro).
“Serão necessárias habilidades como flexibilidade, adaptabilidade, capacidade de interpretação, visão crítica, análise e síntese. Essa rapidez e enxurrada de informações também demandam capacidade de organização e aprendizagem contínua. Além de envolver capacidade cognitiva e boa dose de curiosidade”, afirma Viviane.
Segundo Miceli, coordenador do MBA em marketing digital da FGV, a tendência é que as organizações sejam mais abertas e permitam que qualquer funcionário tenha acesso ao CEO. “Isso aumentará a quantidade de projetos nascidos de camadas operacionais da empresa. Durante muito tempo, ainda, as resoluções estratégias virão dos seres humanos. A diferença é que, cada vez mais, tais decisões serão tomadas em função de dados coletados e interpretados por algoritmos.”
A coordenadora do Insper avalia que não se deve dar um tom catastrófico ao tema. “Minha monografia de graduação em economia foi sobre a destruição de empregos no período da revolução industrial, ocorrida nos séculos 18 e 19. Este é um tema que vem e vai, mas até hoje não surgiu essa horda de desempregados. Não acredito que isso ocorra, não temos evidências que mostrem isso”, afirma Regina, do Insper.
Trevisan concorda. “Vivemos uma revolução tecnológica e demográfica. A humanidade não tem interesse em ter muitos filhos. De alguma forma, ocorrerá um processo antropológico de adaptação, porque nenhuma sociedade se suicida.”

Para empresário, modelo atual de educação tem prazo de validade

Ao mesmo tempo, Sassaki afirma que nosso modelo de educação tem data de validade, porque não prepara ninguém para esse tipo de atividade. “O sistema atual estimula a memorização de conteúdos e trata todas as pessoas como se elas fossem iguais, ele usa a data de nascimento como se esse fosse o melhor critério para agrupar as pessoas. Esse modelo não faz mais sentido.”
Diretor de tecnologia da Foreducation Edtech – empresa que forma professores para que façam bom uso da tecnologia em sala de aula –, Marcelo Lopes cita pesquisa do Google sobre quais habilidades são as mais exigidas no mercado de trabalho atualmente.
Segundo ele, o resultado aponta que 51% das empresas querem profissional que saiba resolver problema, enquanto 33% querem quem saiba trabalhar em equipe, 26% procuram quem tenha facilidade de comunicação e 21%, alguém que tenha pensamento crítico. Entre outras habilidades com menos destaque.
“Portanto, não temos de preparar os jovens só para usar e trabalhar com tecnologia. Eles precisam ser preparados para resolver problemas, ter ampla bagagem de conhecimentos para que tenham raciocínio crítico e analítico, além de saberem trabalhar em equipe e serem sociáveis”, afirma.


Lista de profissões que tendem a desaparecer, segundo Andre Miceli:

Operador de telemarketing
Dada a ineficiência de muitas operações, esse tipo de atividade tende a ser substituído por sistemas de autoatendimento, bots e estruturas digitais.

Agentes de viagens
A capacidade dos turistas de usar a internet para pesquisar férias e reservar suas próprias viagens deve continuar a suprimir a demanda por agentes de viagens.

Pescadores
A diminuição da quantidade de peixes na natureza, melhorias nas técnicas de pesca e o design dos navios que aumenta a quantidade de pesca em escala e o aumento da concorrência das importações de peixes e mariscos cultivados contribuem para o declínio dos postos de trabalho.

Carteiros
Sistemas automatizados de classificação, clusters de caixas de correio, orçamentos apertados e maior uso de serviços on-line e de telecomunicações reduzem a necessidade de trabalhadores de serviços postais.

Tradutores
Os aplicativos de tradução instantânea como os do Skype, Google e Microsoft tendem a substituir boa parte dos tradutores.

Motoristas de ônibus
Ainda levará algum tempo até nos sentarmos em carros que nos levarão do ponto A ao B sem nossa ajuda. No entanto, caminhões em nossas estradas e ônibus em nossas ruas sem motoristas num curto espaço de tempo.

Caixas de lojas
Mecanismos e aplicativos de “self checkout”, robôs autônomos e a expansão do e-commerce irão diminuir drasticamente o número de vagas nesse tipo de atividade.