Escrevendo o roteiro do próximo ato da carreira
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Escrevendo o roteiro do próximo ato da carreira

Redação

07 Agosto 2017 | 21h15

Joel Dreyfuss em Nova York. Foto de Will Glaser/The New York Times

Claudia Dreifus /The New York Times

No inverno de 2007, John W. Siebel, oncologista de uma clínica muito procurada em San Mateo, Califórnia, sentia-se muito cansado. Embora, aos 64 anos de idade, encontrasse muita satisfação em ajudar os pacientes com câncer, Siebel estava sobrecarregado, precisando dar conta também das tarefas administrativas que envolvem a prática médica moderna.

“Achei que estava na hora de me aposentar”, diz ele,  hoje com 74 anos. “E queria fazer algo diferente.” Mas o que? Ao pedir sua aposentadoria, o medico começou a planejar uma nova vida. Adorava espaços livres, particularmente no Alasca, onde a terra e a cultura o fascinavam. No entanto, desejava continuar atendendo os pacientes, trabalhando em tempo parcial. A solução encontrada foi trabalhar como “médico oncologista temporário”, em que ele passou a cobrir férias de outros médicos em locais interessantes, incluindo o Alasca.


Sob muitos aspectos Siebel representa um novo tipo de aposentado, o profissional que, mais tarde na vida, aplica sua experiência de trabalho de outra maneira, combinando trabalho e lazer, mudando as idéias tradicionais sobre a aposentadoria.

Durante três meses de cada ano – essa limitação de tempo foi opção de Siebel, uma agência de emprego para médicos o escala para curtos períodos de trabalho em áreas remotas do Alasca,  Califórnia ou Idaho. Ele só aceita atribuições em locais que ficam mais próximos da natureza. Nos dias da semana ele atende os pacientes. Nos fins de semana vai para as montanhas e explora a região.

“Substituo médicos que estão em férias ou médicas em licença maternidade. É fácil para pessoas com a minha experiência médica particular conseguir esse tipo de emprego. “O trabalho do oncologista é mais ou menos universal, de modo que você facilmente se integra nas práticas que estão sendo adotadas.”

“Hoje, tenho mais tempo para conhecer a vida dos pacientes e isto me ajuda do ponto de vista clínico. Não tenho de me preocupar com o “consultório”, que é algo estafante. Agora eu me relaciono mais com o paciente, o que é uma das maravilhas desta nova situação.”

Esta flexibilidade no trabalho não é possível para todo mundo. “Você precisa ter habilidades que estão em demanda, ter uma boa saúde e alguma segurança financeira”, diz o médico. Apesar dos obstáculos, um grupo pequeno, mas importante, de americanos mais velhos, vem vivenciando, com variações, uma aposentadoria do modo como eles a projetaram para si próprios.

De acordo com um estudo realizado em 2015, 8% dos americanos com mais de 65 anos de idade trabalham em tempo integral. Outros 12% em tempo parcial. Alguns ainda atuam por necessidade financeira. Outros estão mais livres com a pensão recebida que vai lhes garantir uma nova vida de trabalho do modo que desejam.

Joel Dreyfuss, jornalista e editor haitiano-americano de 71 anos sempre teve em mente escrever um livro sobre o envolvimento de 300 anos de sua família com a história do Haiti. Ele nasceu em Porto Príncipe, no Haiti. Embora sua família fosse muito conhecida no país, Joel só conhecia alguns fragmentos da sua história passada. “Sabia que meu avô judeu, Emmanuel Dreyfuss, nascera na França e imigrou para o Haiti em 1893. Meu avô era um homem taciturno. Não conversava muito com os filhos sobre seu passado.”

Durante anos, Joel entrevistou seus parentes e foi reunindo histórias da família. Mas as demandas do seu trabalho – foi por vários períodos o editor de publicações como InformationWeek, PC Magazine e Black Enterprise  — o impediam de fazer a pesquisa necessária para o livro.

Em setembro de 2011, quando trabalhava como editor executivo do site de notícias The Root, que cobre a cultura negra, ele estava para completar 66 anos de idade. De repente se deu conta de que “o tempo estava passando e havia coisas que ainda desejava fazer – como o livro.

Naquele momento, resolveu reunir suas economias e se aposentar. Em fevereiro de 2012, Joel e sua mulher, Veronica Pollard, mudaram para Paris, onde muitos documentos importantes sobre  a história do Haiti estão guardados. (O flat que compraram no distrito de Parc Monceau, fica no prédio onde viveu o escritor Graham Greene).

Estes últimos anos têm sido uma mistura de caminhadas aprazíveis, bons jantares e pesquisa histórica. “O que faço hoje tem muito de jornalismo. Faço buscas de registros históricos e os cruzo depois, decifrando a história que existe por trás desses dados.”

No geral, seu tempo tem sido muito frutífero. “Soube da existência de um ancestral dos anos 1700”, diz ele. “Seu neto foi o único branco que assinou a Declaração de Independência do Haiti em 1804. Tenho um ou mais ancestrais africanos. Encontrei um documento dos anos 1770 indicando que um deles nasceu em Benin, foi vendido como escravo e enviado para o Haiti.

No inverno passado, Joel Dreyfuss terminou a primeira versão do  livro ainda sem título, onde mostra como a história multicultural da sua família está ligada à história do Novo Mundo. Ele pretende enviar a versão final da obra para seu agente em primeiro de janeiro.

“Eu não o teria escrito se não tivesse me aposentado, ou melhor, semi-aposentado.” / Tradução de Terezinha Martino

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