A guerra de culturas chega ao Vale do Silício
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A guerra de culturas chega ao Vale do Silício

A política adotada no Vale do Silício sempre foi mais libertária, mas recentes episódios mostram pessoas demitidas ou castigadas por emitir opiniões discordantes

Redação

11 Agosto 2017 | 06h51

Peter Thiel, investidor e membro da diretoria do Facebook é um dos poucos apoiadores de Trump no Vale do Silício. Fred Prouser/Reuters

 

Nick Wingfield /The New York Times

A guerra de culturas ficou bem evidente esta semana com a demissão pelo Google do engenheiro de software James Damore. Ele enviou um memorando para seus colegas e diretores contestando as medidas de diversificação da empresa. Sua demissão desencadeou um debate furioso sobre o modo como o Google tem lidado com a questão, alguns acusando a companhia de tentar calar o engenheiro por falar o que pensa. Os defensores  das mulheres no setor de tecnologia elogiaram a empresa. Mas a demissão se tornou um símbolo da intolerância do setor de tecnologia no tocante à diversidade ideológica


A política adotada no Vale do Silício sempre foi no sentido da esquerda, uma filosofia voltada para o livre mercado e mais libertária. Mas isso é passado, diante dos recentes episódios mostrando como as pessoas são castigadas por emitir opiniões discordantes. A demissão de Damore, despertou na capital da tecnologia do país o mesmo tipo de debate que toma conta do resto do país.

Essas desavenças já vinham ocorrendo no Vale do Silício há algum tempo, atingindo até os altos escalões. As tensões ficaram evidentes no ano passado com a eleição de Donald Trump, quando algumas pessoas do setor que apoiaram o então candidato à presidência foram alvo de fortes críticas pela sua decisão política.

No Facebook, Peter Thiel, investidor e membro da diretoria da rede social, recebeu uma nota negativa de Reed Hastings, diretor executivo da Netflix, por seu apoio a Trump. E Palmer Luckey, fundador da Oculus VR, startup de realidade virtual de propriedade do Facebook, foi pressionado a deixar a empresa após ser revelado que ele financiou secretamente uma organização pró-Trump.

Segundo Scott Galloway, professor de marketing na Stern School of Business, da universidade de Nova York, os comentários feitos por Damore tiveram um peso adicional para as pessoas de cada um dos lados do espectro político porque ele era um engenheiro do Google, uma das maiores companhias de tecnologia do mundo.

Essas empresas gigantes, como Facebook, Amazon, Apple, “são consideradas pilares da nossa sociedade. Controvérsias e declarações que emanam dos funcionários têm um peso diferente”.

O setor de tecnologia sempre seguiu sincronizado em assuntos como apoio à imigração e à diversidade, apesar de nessas empresas predominarem homens, brancos e asiáticos. Mas a eleição de Trump – com seus ataques contra o politicamente correto, sua linguagem grosseira com relação às mulheres, suas restrições à imigração e negação da mudança climática – parece ameaçar muitos desses ideais.

Ao mesmo tempo, o comportamento do presidente fez com que os dissidentes no setor de tecnologia se sentissem mais à vontade para emitir suas opiniões.

“Num certo sentido, Trump autorizou as pessoas a emitirem opiniões politicamente incorretas”, diz Adam Galinsky, professor na universidade de Colúmbia.

No Google, o diretor executivo Sundar Pichai, afirmou em e-mail  que Damore foi demitido por infringir o código de conduta da empresa, especificamente por alimentar “estereótipos de gênero nocivos” dentro da companhia. Damore declarou no seu memorando interno que razões biológicas explicam a baixa representatividade das mulheres no setor de tecnologia, o que provocou indignação generalizada dentro e fora do Google. Em sua defesa, Damore disse que tem direito de se expressar e que vai processar a empresa por sua demissão.

Seu memorando e a posterior demissão o transformaram em um herói em sites de notícias de direita como o Breitbart, que sempre criticou as tendências políticas do setor de tecnologia.

Um dos mais veementes defensores de Trump no Vale do Silício é  Peter Thiel, fundador do PayPal,  escarnecido por outras pessoas por sua posição política. Reed Hastings, da Netflix, semanas depois de o partido republicano indicar Trump como seu candidato,  advertiu Peter Thiel de que ele sofreria consequüências pelo seu apoio a Trump.

Thiel, um dos primeiros investidores no Facebook, proferiu um discurso na convenção republicana respaldando a candidatura de  Trump. Hastings, que apoiou Hillary Clinton, disse que, se Trump fosse eleito, “destruiria muita coisa boa no país”.

Reed Hastings, chairman da comissão que avalia os diretores do Facebook, informou Thiel em um e-mail datado de 14 de agosto que sua defesa de Trump refletiria muito mal na reunião de análise do desempenho dos diretores, marcada para o dia seguinte.

Outro partidário de Trump ligado ao Facebook, Palmer Luckey, não durou muito na empresa. Em setembro o Daily Beast publicou reportagem afirmando que ele havia financiado uma organização política pró-Trump chamada Nimble America. Notícias posteriores e postagens na mídia social o acusaram de financiar “memes” sexistas e racistas.

Outras importantes figuras do Vale do Silício estão preocupadas com o excesso de ortodoxia política no setor de tecnologia. Em um podcast em maio, Marc Andreessen, investidor de risco, disse que conhecia somente dois apoiadores de Trump no Vale, Peter Thiel e Palmer Luckey.

“O que deve fazer uma pessoal quando sente que não pode, literalmente, se expressar?”, perguntou ele, que é membro do conselho diretor do Facebook e apoiou Hillary Clinton na eleição. / Tradução de Terezinha Martino