‘CEO do Google deveria ser demitido’
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

‘CEO do Google deveria ser demitido’

Com a sutileza em falta nos EUA de hoje, Sundar Pichai deveria ter feito o possível para eliminar a tensão na empresa e ter defendido o fluxo de informação

Redação

12 Agosto 2017 | 07h06

O CEO do Google, Sundar Pichai, que demitiu o engenheiro James Damore por supostos comentários preconceituosos. Foto: Akintunde Akinleye/Reuters

 

 

 


 

David Brooks/The New York Times

Há muitos atores no drama sobre diversidade que se desenrola no Google, mas diria que a pior atuação foi a do CEO da companhia, Sundar Pichai. Mas o primeiro deles é James Damore que escreveu o memorando, onde tentou explicar porque 80% dos empregados na área de tecnologia do Google são homens.  Ele admitiu que são muitos os preconceitos de caráter cultural, mas também citou o componente genético. E descreveu algumas das maneiras pelas quais a distribuição de qualidades é diferente no caso dos homens e das mulheres.

Damore deu início a um longo e polêmico debate sobre genes e comportamento. De um lado há os que acreditam que os seres humanos nascem como uma folha em branco e são formados pelas estruturas sociais. De outro, estão os psicólogos evolucionistas que afirmam que o gene interage com o ambiente e tem importante papel na nossa formação. No geral, os psicólogos estão vencendo o debate.

No tocante às diferenças genéticas entre o cérebro masculino e o feminino, diria que a opinião convencional é de que as capacidades masculina e feminina são as mesmas em muitos campos  – QI, talentos para a matemática, etc. Mas há outros domínios em que em média, o cérebro difere. Parece existir mais conectividade  entre os hemisférios, na média, no cérebro feminino. A exposição pré-natal a diferentes níveis de hormônios masculinos  produz efeitos diferentes durante toda a vida de uma pessoa.

Em seu memorando Damore cita uma série de estudos, defendendo, por exemplo que os homens tendem a se interessar mais por coisas e as mulheres por pessoas. (Interesse não é o mesmo que capacidade). Vários cientistas da área respaldaram os dados oferecidos por ele. “Apesar da maneira como foi descrito, o memorando foi justo e preciso quanto aos fatos”, escreveu Debra Soh no The Globe and Mail, de Toronto.

Geoffrey Miller, psicólogo conhecido, escreveu no Quillette: “Em minha opinião,  todas as afirmações empíricas do memorando são cientificamente exatas”.

Damore foi especialmente cuidadoso ao afirmar que sua pesquisa se aplicava apenas a populações, não indivíduos. “Muitas dessas diferenças são pequenas e muita coisa importante coincide no caso de homens e mulheres, de modo que você não pode afirmar nada sobre um indivíduo levando em consideração as distribuições a nível de população”.

Este é um ponto crucial. Mas naturalmente não vivemos como populações, cada um vive sua vida individualmente.  Deveríamos ter muita simpatia pelo segundo grupo de atores neste drama, que são as mulheres do setor de tecnologia, que sentiram que o memorando de Damore tornou sua vida mais difícil. Imagine-se num ambiente hostil dominado por homens, ser interrompida quando fala nas reuniões, ou ser ignorada, ver sua capacidade colocada em dúvida e alguém dizer que as mulheres têm menos fome de status a são mais vulneráveis ao estresse. Naturalmente você rebateria tais afirmações.

Existe uma tensão que é legítima. Damore descreve uma verdade em um nível; suas críticas contemplam uma verdade diferente, que existe, mas em outro nível. Ele defende no seu memorando a pesquisa científica; elas a igualdade de gênero. É necessária alguma sutileza para harmonizar os dois aspectos, mas é possível.

Claro que sutileza na América moderna está em escassez. O terceiro protagonista nesse drama é Danielle Brown, diretora da área de diversidade no Google.  Danielle não combateu nenhuma das evidências apresentadas por Damore. Apenas escreveu que as opiniões dele eram “suposições incorretas sobre gênero”. Neste caso a ideologia anula a razão.

O quarto ator é a mídia. E a cobertura da imprensa desse caso tem sido atroz.

Conor Friedersdorf escreveu no The Atlantic. “Não me lembro qual foi a última vez que tantas agências de notícias e observadores descaracterizam tantos aspectos de um texto”. Vários jornalistas e críticos aparentemente decidiram que Damore se opõe a tudo que as pessoas esclarecidas acreditam, portanto eles não consideram que ele tenha agido com imparcialidade intelectual.

Essa turba que tem acossado Damore é semelhante à que observamos em muitos campi universitários. Temos nossas teorias sobre a razão pela qual essas manias moralistas se tornaram repentinamente tão comuns.  Diria que a incerteza extrema sobre moralidade, o sentido das coisas e a vida e geral vem provocando uma intensa ansiedade. Algumas pessoas defendem o absolutismo moral num esforço desesperado para encontrar uma base sólida. Elas têm uma rara e reconfortante sensação de certeza moral quando castigam alguém que viola um dos seus tabus sagrados.

E isto nos leva a Pichai, o suposto adulto do grupo. Ele poderia ter feito o possível para eliminar a tensão. Poderia ter defendido o livre fluxo de informação, mas não o fez e se juntou à turba. Despediu Damore e escreveu: “sugerir que um grupo de colegas possui características que o torna biologicamente menos apto a este trabalho é ofensivo e não correto”.

Esta é uma caracterização visivelmente desonesta do memorando. Damore não escreveu nada sobre seus colegas do Google.  Ou Pichai estava despreparado para compreender a pesquisa (improvável),  não é capaz de gerir fluxos de dados complexos (o que é mau no caso de um CEO), ou simplesmente teve medo de enfrentar o grupo enfurecido.

Independentemente disto, o episódio sugere que ele deve assumir uma posição não de liderança. Estamos num momento em que multidões furiosas à esquerda e à direita ignoram as evidências e sacrificam bodes expiatórios. É quando mais precisamos de bons líderes. / Tradução de Terezinha Martino