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Trabalhar no exterior exige bom preparo

Competência técnica, domínio da língua, vivência internacional e formação em instituição estrangeira ajudam a abrir caminho para uma vaga

CRIS OLIVETTE

22 Outubro 2017 | 07h13

Vinicius Germano procura recolocação nos Estados Unidos. Foto: Amanda Perobelli/Estadão

Formado em administração e com especializações em marketing e inovação, Vinícius Germano atua na área de marketing de bens de consumo. Ele já teve oportunidade de trabalhar fora do Brasil em duas ocasiões pela Mondelez, empresa na qual trabalhou até o início deste ano.

“Fiquei dois anos e meio na África do Sul como responsável pelos negócios com o Leste Europeu, Oriente Médio e África. Depois, trabalhei dois anos nos Estados Unidos”, conta.

De volta ao Brasil, desde meados de março Germano busca recolocação. “Pelo fato de já ter morado nos Estados Unidos, gostaria de voltar para lá, onde tenho bom network. Além disso, minha mulher e eu nos adaptamos bem e nosso filho nasceu lá”, conta.


A concretização do desejo de trabalhar em outro país, no caso do administrador Ubiratan Baraúna dos Santos Júnior, não foi realizada. “Passei férias na Itália e me identifiquei com a cultura. Como tenho o idioma fluente, acreditei que não seria complicado conseguir um trabalho. Em 2011, voltei para lá e procurei uma colocação durante alguns meses, como não consegui nada, voltei ao Brasil.”

Segundo ele, a frustração ocorreu, principalmente, pelo fato de o país estar em recessão econômica e com alto índice de desemprego. “Ouvia dos próprios italianos que não havia trabalho nem para eles, quanto mais para um estrangeiro.”

Presidente internacional da Stato, especializada em recrutamento de executivos e transição de carreira, Patrícia Epperlein afirma que o desejo de trabalho fora tem aumentado entre os brasileiros, como reflexo do momento econômico e político do País.

Patrícia Epperlein, presidente internacional da Stato. Foto: Gladistone Campos

“Existe essa vontade. Agora, para isso se tornar realidade, é outra história. Do ano passado para cá atendemos mais de 40 pessoas com essa expectativa.”

Segundo ela, trabalhar fora não é para qualquer um, porque além do domínio da língua, questões como dupla cidadania, graduação ou especialização em uma universidade estrangeira e experiência internacional anterior, contribuem muito para tornar o profissional mais atrativo para recrutadores internacionais.

“Selecionar um país mais aberto aos trabalhadores estrangeiros pode ajudar o profissional que busca essa experiência. Por ser muito procurado, o mercado americano é um dos mais difíceis para se conseguir um visto de trabalho.”

Ela afirma que a forma mais prática é a pessoa ser contratada por uma multinacional aqui no Brasil e conseguir transferência. “Caso contrario, será preciso ter paciência, porque é um processo lento e que pode levar mais de um ano.”

Patrícia diz que antes de definir o país, várias questões precisam ser avaliadas. “O plano de saúde, por exemplo, nos EUA é caríssimo. Outros países, porém, são mais receptivos e favoráveis à obtenção de visto de trabalho como Canadá, Austrália e Nova Zelândia.”

Outra dica da recrutadora é que o interessado se informe sobre a cultura e os hábitos locais, não somente em relação ao ambiente de trabalho, para avaliar se conseguirá se adaptar. Além de ponderar o fato de que viverá longe de amigos e familiares.

“Se o profissional pretende levar a família, tem de colocar tudo na ponta do lápis, ver se as contas fecham e se o salário será compatível com o custo de vida. Até mesmo a questão climática pode ser um complicador”, acrescenta Patrícia.

Conquista. Depois de ficar um ano e meio sem trabalho, a nutricionista Célia Suzuki conquistou posição global como diretora de publicações na Purina PetCare Company, nos Estados Unidos. Ela conta que iniciou carreira como trainee em um hospital, no Japão.

“Após alguns anos trabalhando no Brasil, ocupei o cargo de gerente de comunicações de nutrição na sede mundial da Nestlé, na Suíça. Acredito que ter tido experiência internacional foi um fator decisivo para a conquista atual, porque é uma posição global.”

Célia Suzuki, trabalha há 11 meses nos Estados Unidos

Célia está há onze meses nos Estados Unidos e diz que ainda não está totalmente integrada. “A adaptação impõem desafios pessoais e profissionais. Entender a cultura do país, do ambiente de trabalho e o perfil dos colegas são grandes desafio. Além disso, estou atuando em novo segmento, de nutrição animal.”

A executiva afirma que no processo de busca é importante conhecer a realidade de cada país. “Há países economicamente mais fortes como a Alemanha e a Franca, que ainda não estão restringindo a entrada de estrangeiros. Outros protegem as posições para os cidadãos locais. Na Suíça, por exemplo, está cada vez mais difícil a entrada de estrangeiros.”

Segundo ela, para maximizar o resultado de busca, os profissionais devem usar ferramentas como Linkedin e Glassdoor. “Faça reuniões via Skype com os headhunters para que possam conhecê-lo. Embora tenha notado que em alguns países, como a Itália, eles preferem contato pessoal. Assim como no Brasil, ter um bom network também ajuda o profissional a chegar até as vagas.”

Germano, por sua vez, também recomenda o uso de ferramentas para entrar em contato com recrutadores, mas considera a apresentação pessoal imprescindível para mostrar sua seriedade, comprometimento e vontade de alcançar esse objetivo.

“Estive nos Estados Unidos há duas semanas, me preparei para isso. Iniciei aqui no Brasil uma série de conversas e agendei reuniões. Tive bons contatos que estão abrindo algumas portas. Acredito que nas próximas semanas elas poderão render bons resultados.”

‘É preciso ter capacidade de adaptação acima da média’

Um dos fundadores da 99Hunters, marketplace que conecta empresas em busca de talentos a consultores especializados em recrutamento e seleção, Thiago Ananias, diz que o profissional tem de avaliar sua empregabilidade em relação ao país no qual pretende trabalhar, antes de decidir procurar emprego no exterior.

“É preciso analisar, por exemplo, como está o mercado de trabalho para profissionais com o seu perfil. Além das habilidades básicas, deve ter domínio dos idiomas necessários para o exercício da atividade e saber quais são os pré-requisitos para se obter um visto de trabalho”, diz.

Thiago Ananias, fundador da 99Hunters. Foto:Rodolfo Pazini

Segundo ele, o ambiente de trabalho de cada região, mesmo que em uma empresa multinacional, reflete muito as tradições, hábitos e cultura. “Em um país oriental, por exemplo, a hierarquia é ainda mais evidente nas relações profissionais. Já nos EUA, é comum os funcionários almoçarem em suas estações de trabalho, enquanto na Espanha não é raro respeitarem o horário da sesta (repouso após o almoço). Tudo isso pode interferir desde a forma de como se vestir para o trabalho até na maneira de administrar compromissos”, afirma.

Ananias ressalta que trabalhar fora exige competências essenciais como empatia e capacidade de adaptação acima da média. “Para melhor as chances de sucesso, é necessário ter um perfil flexível, que aceite mudanças. Também é preciso saber interpretar corretamente as orientações e ter humildade para aprender.”

Com passagem pelos Estados Unidos e África do Sul, onde realizou negócios com países do Leste Europeu, Oriente Médio e África, Vinícius Germano diz que, no início da experiência profissional em outro país, achou tudo muito diferente.

“Para trabalhar com os russos, por exemplo, demorei a entender como raciocinam e agem em relação aos negócios. Um executivo britânico me disse que para eles aprovarem um projeto, eu deveria de alguma forma, fazê-los achar que a ideia era deles e não minha. Esse conselho que me ajudou bastante”, conta.

Já nos Estados Unidos, Germano encontrou executivos com alto nível de formação. “Nos cargos de gerência sênior e diretoria, a maioria têm MBA em instituições renomadas. Então, o nível de conversa e de profissionalismo é muito alto, o que me obrigou a me preparar para ter conversas no mesmo nível. Isso me ajudou a me desenvolver”, ressalta.

Segundo Ananias, países que possuem maior distância cultural tendem a ser os com os trâmites mais complicados. “Quanto maior for esta distância, maior será a curva de aprendizado e, consequentemente, maiores os desafios que o profissional terá que enfrentar.”