‘Rede de sussurros’ feminina levanta a voz no local de trabalho
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‘Rede de sussurros’ feminina levanta a voz no local de trabalho

Correntes ajudam a proteger mulheres obrigadas a interagir com colegas conhecidos por assédio sexual

Redação

08 Novembro 2017 | 06h58

Maureen Sherry, ex-executiva do banco de investimentos Bear Stearns. Foto de Gabriela Herman /The New York Times

Julie Creswell e Tiffany Hsu / The New York Times

Elas chamavam a si mesmas de o “Glass Ceiling Club” (O Clube contra o ‘telhado de vidro’, as barreiras à ascensão profissional). Na década de 1990, um grupo de mulheres jovens e ambiciosas, que trabalhava no banco de investimentos Bear Stearns, reunia-se a cada dois meses em restaurantes locais, para discutir como tornar mais agradável o ambiente de trabalho feminino. As conversas inevitavelmente se voltavam para os colegas do sexo masculino, incluindo os de mau comportamento, disse Maureen Sherry, ex-diretora-gerente, que se reunia regularmente com as outras mulheres.

“É claro que nossas conversas se voltavam para os fatos que conhecíamos sobre os homens com os quais trabalhávamos”, lembrou Sherry. Ela passou nove anos no Bear Stearns antes de sair em 2000, acrescentando: “Sim, eram geralmente os mesmos homens que atacavam as mulheres jovens”.


Para as mulheres que eram obrigadas a interagir com alguns dos mais conhecidos por assédio sexual, Sherry disse que recomendava às jovens que ficassem na sala do pregão – um espaço muito público. “Essas e outras dicas de sobrevivência eram transmitidas de forma muito livre”, escreveu Sherry em um e-mail.

Essa era a rede de sussurros no trabalho.

Desde que as mulheres entraram para a força de trabalho, esse tipo de sistema de apoio exercido nos bastidores serviu como uma fonte vital para dividir informações e como um espaço seguro para alívio comunitário. O aconselhamento quanto a negociações salariais, política de escritório e o equilíbrio entre vida profissional e familiar podiam ser divulgados pelas conversas informais em cubículos, cafeterias e encontros para uma happy hour.

Essa rede também permitiu que os funcionários dessem pistas uns aos outros sobre uma gama de comportamentos que muitas vezes não eram vistos ou então ignorados por seus empregadores — o chefe ridicularizava a licença-maternidade, o gerente conhecido pelas piadas grosseiras, o colega do qual se dizia que apalpava as mulheres, ou pior.

Agora, com a internet funcionando como câmara de compensação para queixas – intensificadas pelo jorro de acusações contra figuras proeminentes, como o produtor Harvey Weinstein – as redes de sussurros abafados foram amplificadas. Por meio de fóruns públicos, grupos de convidados selecionados no Facebook, pesquisas privadas do Google, sites bloqueados e aplicativos com anonimato protegido, mulheres e alguns homens, buscam catarse e aprovação, contando suas histórias.

“Estamos em um período interessante agora, um período de certa forma esperançoso, no qual ter pessoas proeminentes falando sobre o assédio deu maior realce à conscientização sobre isso”, diz Fatima Goss Graves, diretora-chefe do Centro Nacional de Direito da Mulher.

“Quando uma pessoa se expõe, torna-se um grande alvo”, acrescenta. “Mas quanto mais pessoas se revelam, mais difícil é perseguir todas elas.”

Acusações anônimas

Em muitos casos, uma rede é conduzida por conhecimento de primeira mão. Em outras, por pura especulação. As acusações muitas vezes são feitas anonimamente e podem se espalhar rapidamente em fóruns on-line, prejudicando reputações antes que os acusados ​​possam se defender. Os homens que se tornam alvo de redes de sussurro queixam-se de ficarem sujeitos à ação de justiceiros e de enfrentar a vergonha em público; alguns ameaçaram entrar com processos.

No Bear Stearns – vendido para o JPMorgan Chase em 2008, durante a crise financeira – o “Glass Ceiling Club” advertiu a respeito do gerente sênior que tinha uma história de casos amorosos e uma tendência para transferir as pessoas com as quais mantivera ligações para escritórios remotos, lembra Sherry. No ano passado, ela publicou um romance semiautobiográfico, Opening Belle, sobre suas experiências.

As mulheres da rede de sussurros “não eram as melhores namoradas”, diz Sherry. “O que tínhamos em comum era a ambição profissional e o objetivo comum de um lugar de trabalho mais igualitário e, sim, isso incluiu a nossa perplexidade quanto ao comportamento revoltante que saiu de controle.”

Duas décadas depois, menos de duas em cada 10 mulheres vítimas de assédio já apresentaram queixa formal, de acordo com a Comissão de Igualdade de Oportunidades no Emprego.

A relutância decorre, em parte, dos riscos associados aos relatórios sobre assédio, incluindo medo de retaliação, de acordo com The Harvard Business Review. Muitas mulheres relataram ter sido demitidas ou colocadas à parte no trabalho depois de fazer denúncias, sendo rotuladas com criadoras de problemas, enquanto aqueles que as atormentaram enfrentam poucas consequências, ou mesmo sequer chegaram a enfrentá-las.

Quando, no entanto, a rede dos sussurros se desloca para plataformas de redes sociais, as acusações podem ganhar impulso e render rápidos resultados. No início de outubro, várias mulheres acusaram de assédio sexual pelo Twitter, Andy Signore, o criador da popular série de YouTube “Honest Trailers” e “Screen Junkies”.

Uma das mulheres, April O’Donnell, disse em vários posts do Twitter que Signore tentou atacá-la sexualmente várias vezes. April O’Donnell, que não retornou nossas tentativas de entrevistá-la, disse pelo Twitter que ela e outras duas mulheres haviam denunciado Signore, em agosto, ao departamento de recursos humanos da Defy Media, que possui o “Screen Junkies”, e disse ter aberto uma investigação.

Pelo Twitter, algumas mulheres disseram que a investigação parecia paralisada e foi só quando as acusações se tornaram públicas que a Defy Media tomou medidas.

Em uma declaração no Twitter, em 8 de outubro, o Defy Media confirmou o desligamento de Signore, dizendo que novas informações estavam disponíveis e que o “alcance e a magnitude de suas ações inadequadas tornaram evidentes”.

Em um comunicado divulgado por sua advogada, Yana Henriks, Signore negou quaisquer ações de agressão sexual, assédio ou retaliação. Ele disse que a Defy Media usou as acusações contra ele como uma oportunidade para privá-lo de sua sociedade na empresa.

A mídia social ajuda a manter e disseminar o que Fatima Graves, do Centro Nacional de Direito da Mulher, chama de “memória institucional”. Uma história escrita é mais fácil de transmitir do que uma falada, mesmo que o contador original seja anônimo, esteja em outro escritório ou tenha saído da empresa, disse ela.

O grupo do Facebook, que só aceita integrantes por convite, Tech Ladies, traz informações sobre ofertas de trabalho e convites para eventos da rede. Mas também tem um grupo de debates chamado #HelpASisterOut, cujos membros podem pedir conselhos sobre como enfrentar uma queixa de assédio ou indagar sobre a reputação ou a cultura de uma empresa.

“O que vemos são pessoas candidatando-se a um emprego em uma empresa e perguntando se alguém tem boas ou más histórias sobre ela”, disse Allison Esposito, fundadora da Tech Ladies. “Se ela é ótima, você verá isso nos comentários. Mas se não for, as pessoas vão dizer ‘mande uma mensagem direta para mim’ ou ‘vamos falar pelo telefone’, para partilhar a informação.”

Um aplicativo chamado Blind permite que todos funcionários de mais de 100 empresas, incluindo Google, Facebook, Amazon e Airbnb, se inscrevam através do e-mail de seu trabalho, mas conversam anonimamente sobre questões de escritório e do setor.

Mas no ano passado, o Blind também se tornou um ambiente propício para conversas francas sobre assédio sexual.

Quando Susan Fowler, ex-engenheira do Uber, afirmou em seu blog pessoal, em fevereiro, que suas acusações de assédio sexual contra um supervisor direto foram ignoradas pelo departamento de RH da empresa, os funcionários do Uber entraram no Blind mais de dez vezes, em média, todos os dias – gastando mais de três horas e meia – para discutir o escândalo.

Os sites agora estão cheios de mulheres – especialmente funcionárias mais jovens e novas – que estarão a salvo por meio de cliques de confiança no trabalho cuidadosamente acompanhados.

Em grupos privados do Facebook, as mulheres na profissão de comediante divulgam uma lista de homens que foram banidos de vários locais em todo o país por conduta sexual inadequada.

BetterBrave, um guia on-line de recursos para vítimas de assédio sexual no trabalho, teve mais de 30 mil visitas desde o início do verão. Foi lançado por três amigas da área de tecnologia. SheWorx, um grupo de advocacia para mulheres empresárias, abriga uma pesquisa on-line pedindo envios anônimos de experiências relacionadas a preconceito de sexo e assédio, “de incidentes notáveis ​​a pequenos cortes com papel e micro agressões enfrentadas todos os dias”.

O anonimato ligado a algumas acusações gerou debates. Ao ser divulgada em outubro, uma planilha do Google que citou dezenas de homens no mundo dos meios de comunicação, identificando indivíduos com descrições que vão de olhares de soslaio a assédio sexual e até mesmo ataques, provocou uma reação confusa.

Alguns aplaudiram a exposição dos homens acusados. Mas outros ficaram indignados com o fato de o documento ter sido amplamente divulgado, de que as alegações foram feitas anonimamente e o acusado não teve oportunidade de se defender ou ser retirado da lista.

Amanda Aiken, ex-assistente jurídica em uma pequena empresa canadense de investimentos imobiliário Foto de Cathie Ferguson / The New York Times)

Para Amanda Aiken, a rede de sussurros funcionou. De certa forma.

Aiken era uma nova assistente jurídica em uma pequena empresa canadense de investimentos imobiliários quando, durante um evento de empresa em 2011, um alto executivo repetidamente tentou persuadi-la a voltar para sua casa. “Seu corpo todo estava tocando o meu – eu tentava me afastar dele, me distanciar fisicamente, mas ele continuava a me seguir”, lembrou em uma entrevista.

Nos dias seguintes, ela soube que várias outras colegas tinham tido histórias semelhantes, incluindo sua amiga, Erin Carson. Depois de falar com a gerência, as mulheres foram convocadas para uma reunião com um dos proprietários da empresa para discutir suas acusações.

“Houve alguma raiva, algumas lágrimas”, disse Carson, recepcionista da empresa em Vitoria, Colúmbia Britânica, em uma entrevista. “Mas foi de certa forma tranquilizante saber que não estávamos sozinhas”.

O executivo deixou a empresa pouco depois. Aiken deixou seu trabalho, citando um persistente sentimento de estranheza. “Muitas mulheres comentam que acabaram desistindo porque os homens não ouviam quando dizíamos não e nós nos sentimos impotentes”, disse ela. “Eu quero recuperar meu poder”.  / Tradução de Claudia Bozzo

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