‘Acompanhei empresas em fases decisivas’
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‘Acompanhei empresas em fases decisivas’

Raphael de Carvalho destaca flexibilidade na forma de gerir como um dos trunfos da MetLife para crescer no setor de seguros do Brasil

Claudio Marques

10 Dezembro 2017 | 07h09

CEO. Raphael de Carvalho aposta da diversidade do grupo para resolução de problemas
Foto: Lúcia Haraguchi /Divulgação

Bianca Soares, especial para O Estado

Raphael de Carvalho, 51 anos, chegou à MetLife em março de 2015 já como CEO. Naquele ano, a multinacional americana havia decidido buscar alguém de fora para o cargo até então ocupado apenas por executivos da casa.

Após gestões focadas em acomodá-la ao público brasileiro, a empresa, que está no País desde 1999, procurava aumentar sua penetração no mercado local. A experiência com serviços financeiros – Carvalho trabalhou na Visa, Accenture, Itaú e Banco Pactual – o gabaritou para dirigir o novo momento da companhia especializada em seguros.

Segundo o CEO, o fato de ter atuado como consultor proporcionou uma visão mais ampla de mercado: “acompanhei diversas empresas e em momentos desafiadores distintos”. Atualmente, ele comanda cerca de 600 funcionários (no mundo, a MetLife tem 58 mil empregados espalhados por mais de 40 países). E tem como desafio crescer durante uma recessão marcada pelo desemprego.

Até aqui, diz, tem conseguido cumprir a meta. Em 2016, o faturamento chegou a R$ 1,14 bilhão, crescimento pequeno, mas registrado em um ano de crise e forte desemprego.

Trajetória 
Minha experiência em serviços financeiros tem sido útil por ser uma área próxima do setor de seguros. Também durante esse tempo, atuei em diferentes espaços: varejo bancário, seguros, formas de pagamentos. Como a tendência mundial é de convergência de parte desses serviços, acredito que o know how acumulado me dá uma perspectiva ampla e bastante interessante para o posto que ocupo hoje. Outra coisa interessante é que metade da minha carreira foi como executivo e a outra metade como consultor. Atuar na consultoria me permitiu entrar em contato com uma diversidade considerável de empresas e lidar com desafios e momentos distintos.

Missão
Embora a escolha por meu nome marque uma nova estratégia da MetLife, de buscar um executivo de fora da empresa para o cargo de CEO, a minha missão desde o início foi de evolução. A ideia é dar continuidade ao que vinha sendo feito, não se trata de um mandato de turn around. Meus antecessores prepararam o terreno e construíram a infraestrutura no País. Mas nós chagamos a um momento mais propício a alguém que tenha uma atuação forte no mercado local.

Cultura empresarial 
A minha visão é de simplificação da maneira como trabalhamos e no modo como nos relacionamos. O estilo, aqui, é horizontal: temos uma capacidade enorme de, independente do cargo, as pessoas contribuírem e, mais importante, sentirem-se confortáveis para fazer suas colocações. Na MetLife, a posição hierárquica de um colaborador deve ser vista quase que exclusivamente como o tamanho da responsabilidade dele. Nada tem a ver com a importância de sua opinião.

Diversidade
Esse é um ponto importante para a gestão e que tem tudo a ver com a cultura organizacional na qual fui desenvolvido: estar aberto para o que vem de outro ângulo. Partindo do princípio que, por definição, o meu ângulo eu já tenho, só me resta escutar a avaliação feita a partir de outro ângulo. Relacionada a isso está a diversidade, desde aquela em que mais temos posto energia, que é a de gênero, às demais, como a de geração e de backgrounds. Além de ajudar na resolução de conflitos, a pluralidade interna nos aproxima do olhar externo. Quanto maior for o número de pessoas diferentes na nossa equipe, maior é a chance de estarmos refletindo quem está la fora, ou seja, nossos clientes. [

Autonomia e integração
Nós também prezamos pela liberdade do funcionário. As pessoas decidem, dentro de um intervalo preestabelecido, que horas começam e terminam o expediente. Elas podem optar se vão trabalhar em casa ou no escritório. Nosso escritório, aliás, está organizado de maneira que não existe lugar fixo ou salas. A pergunta mais óbvia é se eu tenho sala, certo? Sim, nem eu tenho. Esses pontos valem desde o colaborador júnior ao mais sênior.

Satisfação
Em uma cidade como São Paulo, esse tipo de postura da empresa tem um valor enorme, porque existe a preocupação de se adaptar às necessidades do funcionário. E ainda incentiva uma coisa que para nós é muito importante, o senso de compartilhamento de responsabilidade.

Resultados
Nós conseguimos mensurar o resultado dessas ações qualitativa e quantitativamente. A percepção é que colocar na mão do funcionário esse tipo de decisão tem um impacto enorme em toda a organização, de aumento de comprometimento e responsabilidade. Claro que um ou outro precisará ser corrigido, mas no geral o efeito é bastante positivo. [

Case
Há pouco mais de um ano, decidimos, por uma questão de deslocamento, permitir que o nosso pessoal do call center trabalhasse em casa. Colocamos uma rede na casa do atendente, mecanismo de segurança, entre outras coisas. O resultado? Desde então, a produtividade cresceu mais de 20%, o nível de abstencionismo caiu a virtualmente zero e, hoje, a taxa de rotatividade desses funcionários está abaixo de 2%.

Crise
Apesar de os dois últimos anos terem sido difíceis, nós conseguimos crescer acima da média do mercado. Isso porque não somos os líderes do segmento, então ainda tínhamos uma margem para conquistar. Mas ainda temos um grande desafio. Basta considerar que o setor de seguros está muito relacionado ao nível de renda das pessoas e ao índice de mão de obra empregada. A tendência é que a taxa de desemprego (atualmente em 12,4%, segundo o IBGE), diminua. Só que até lá temos que pensar em respostas, até porque boa parte dos nossos produtos (seguro de vida, dental, previdência privada etc) chega ao consumidor através de seus empregadores.

Nicho
O envelhecimento da população brasileira é algo que está no nosso radar. E aí a experiência de estar em quase 50 países, muitos dos quais já passaram pelo que estamos passando agora, ajuda muito. Existe uma espécie de transferência de expertise. Por exemplo, como e onde o envelhecimento afeta o nosso negócio? Claro que temos que customizar para o nosso público local, considerar suas especificidades, mas alguns pontos são claros: o risco de morte está sendo levado para momentos mais tardes da vida, o que demanda novos produtos. Nós estamos em fase de aprovação de um novo produto que mescla seguro de vida com previdência privada.