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Atributo inovador atrai as organizações

Profissional ajuda negócio a acompanhar a velocidade das mudanças para sobreviver

CRIS OLIVETTE

06 Maio 2018 | 07h53

Luís Felipe Souza. Foto: Gustavo Moreira/Divulgação

“O profissional inovador pode ser encontrado em vários setores de uma empresa”, diz a psicóloga comportamental, Fabiana de Laurentis Russo.

Segundo ela, quem tem esse perfil é curioso, sugere ideias novas, busca informações sobre diversos assuntos, tem facilidade em associar experiências e utilizá-las de maneira transformadora, além de ser criativo e questionador.

“Ele tem em mente que é necessário e fundamental trabalhar em equipe, pois várias mentes pensam melhor que uma, e tem forte senso de coletividade. Além disso, flexibilidade é uma forte característica, que facilita adaptação a situações inesperadas, o que é sempre bem-vindo nas corporações.”

Diretor executivo da Michael Page, empresa global de recrutamento para alta e média gerência, Ricardo Basaglia afirma que a inovação entrou forte na agenda das empresas nos últimos doze meses.

“Minha percepção é de que houve aumento de investimentos nesse conceito. Agora, o desafio das companhias é saber conduzir a inovação para prismas que transcendam a tecnologia em si, isso quer dizer, como aplicar inovação de forma ampla, eficiente e diversificada, seja na gestão de pessoas, na condução de projetos, ou concepção de negócios.”

Ricardo Basaglia. Foto: Gabriela Gonçalves/Divulgação

Em relação ao profissional inovador, ele diz que esse perfil não deve ser confundido com o de alguém com habilidades meramente futuristas.

“Não é isso. Ele é um profissional que sabe olhar para o futuro, mas de forma orientada. Deve ser o responsável por construir a ponte que levará os negócios até o futuro. Portanto, não é alguém que olha à frente e tenta aplicar as tendências no presente imediato.”

Basaglia afirma que em qualquer modelo de negócio, no Brasil e no mundo, tanto o profissional quanto o conceito de inovação esbarram em resistência. “Por isso, a resiliência é uma capacidade determinante para ser um profissional inovador, porque a inovação tira as pessoas da zona de conforto.”

Na visão de um dos fundadores da plataforma de gestão de RH Convenia, Rodrigo Silveira, o que caracteriza o profissional inovador é a mentalidade positiva e uma insatisfação contínua.

“Isso faz com que essa pessoa esteja constantemente buscando melhorar, evoluir processos, produtos etc. É um profissional que contribui além de seu cargo.”

Rodrigo Silveira. Foto: Dayane Figueiredo/divulgação

Silveira diz que a inovação pode partir de pequenas ideias que melhorem processos, economizem ou garantam melhor produtividade, até insights para o desenvolvimento de produtos ou serviços. “O importante é que esse profissional esteja em constante evolução, atualizado com o mercado e alinhado com a estratégia da empresa.”

O conjunto de atributos descritos pelos especialistas compõe o perfil do desenvolvedor Luís Felipe Souza, de 26 anos. Ele trabalha na gestora de investimentos Magnetis há quase dois anos, e assim que foi contrato deixou evidente seu espírito inovador.

“A empresa ainda não tinha desenvolvido aplicativo móvel e nem tinha previsão de lançamento, então, sugeri a criação de um aplicativo usando tecnologia Progressive Web Apps (PWA), que ainda era pouco conhecida. Ela permite fazer um aplicativo sem a necessidade de criar um código, a partir do web site da empresa”, conta.

Após apresentar a ideia a todos do time, incluindo o CEO, a proposta foi aceita. “Todos concluíram que seria ótima alternativa para facilitar o acesso dos clientes ao sistema, por meio de celular. Criamos a solução rapidamente e ela é usada até hoje por alguns clientes, mesmo após o lançamento do aplicativo nativo”, diz.

Souza conta que depois de lançar o PWA, a empresa começou a se engajar cada vez mais no mundo mobile. “Acabei sendo deslocado para trabalhar no time de aplicativos. Estou gostando bastante, porque sempre procuramos usar tecnologias bem recentes.”

O jovem diz que trabalhar bem em equipe é importante na área de tecnologia. “Muitas vezes, não dá para suportar sozinho uma ideia muito grande. É preciso passar a ideia para outras pessoas para que ela seja desenvolvida em conjunto.”

Necessidade. Basaglia afirma que o perfil inovador passou a ser desejado pelas empresas por ser fator de sobrevivência, desenvolvimento e amplitude.

“Inovar é uma prioridade para todos os setores. Os seres humanos, não apenas na condição profissional, ou aprendem a inovar ou não saberão chegar com qualidade ao futuro, que chegará cada vez mais rápido.”

A guinada rumo à inovação, segundo ele, começa com a busca por melhor formação tecnológica, domínio da área de atuação, compreensão profunda do ecossistema que envolve a carreira e compromisso de construir pontes entre o presente e o futuro.

“Consiste, enfim, em melhorar o que é feito agora para criar soluções para o amanhã. Esse é um princípio orientador que faz toda a diferença.”

Arthur Igreja. Foto: Daniel Vendramini/Divulgação

‘Não adianta contratar o perfil correto e ter o ambiente errado’

Professor da FGV e especialista em inovação, Arthur Igreja, fala da importância de ter diversidade no time para que a inovação realmente cause impacto no negócio.

A busca por profissional inovador está em alta?
O mercado valoriza cada vez mais esse perfil. Em uma realidade na qual o contexto muda em velocidade crescente, ser capaz de identificar oportunidades e tendências virou atributo mandatório.

Qual é o perfil do inovador?
Entendo que é a capacidade de ter um olhar diferenciado, ser a pessoa que faz a pergunta inesperada, que consegue questionar produtivamente. Contudo, também tem alta capacidade de visão pragmática das coisas. Não podemos confundir inovação com curiosidade. Inovação é uma forma de resolver problemas, mas só faz sentido quando gera resultados. Muitos acham que o inovador tem muitas ideias, a ideia é apenas uma parte pequena neste ciclo.
Ele costuma ser observador? Sim, esta é uma das principais características. As melhores inovações surgem da observação de dores na experiência do consumidor e na observação de tecnologias emergentes. Conseguir combinar isso com um bom timing é fruto de afiada observação e experiência.

Ser resiliente é essencial?
Costumo dizer que inovar é um exercício de teimosia e aposta contra o mundo. O inovador parte da hipótese de que o status quo está errado e que algo pode ser radicalmente melhor, ou seja, é sempre uma estratégia de risco. Se a inovação é plenamente entendida, não é inovação, é evolução incremental.
Precisa assumir riscos então? Sim, e ao assumir riscos há aumento da taxa de erros, por isso deve ser resiliente para perseverar. Basta observar a trajetória de ícones da inovação, em sua grande maioria têm história errante antes de triunfar.

Trabalho em equipe é uma necessidade?
É condição essencial. Erroneamente são destacados casos de grandes personalidades de forma solitária, é virtualmente impossível causar grandes impactos sem um time incrível. Outro ponto é que a diversidade de mentalidades é item principal nas organizações mais inovadoras. Resolver problemas sozinho ou com um time muito homogêneo certamente é o caminho mais arriscado. É preciso ser capaz de suspender o julgamento, discutir abertamente e convergir para a melhor solução, sem importar quem a deu é essencial para ser inovador.

Como deve ser o ambiente de trabalho?
É desejável e importante oxigenar o ambiente de qualquer empresa com insights e tendências de outros mercados. Isso ajuda a abrir a mente. Mas vale lembrar que muitas vezes as melhores soluções surgem no chão de fábrica, ou vindas de profissionais que atendem diretamente os clientes, exatamente por estarem mais próximos de onde acontece a interface entre empresa e cliente.

O que a organização ganha tendo pessoas com esse perfil?
A empresa que possui profissionais inovadores ganha em capacidade de se adaptar constantemente, mas tem de prover ambiente no qual o erro seja tolerado e experiências incentivadas. Não adianta contratar o perfil correto e possuir o ambiente errado.