Autodidatas têm espaço na carreira de tecnologia
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Autodidatas têm espaço na carreira de tecnologia

Rápidas mudanças no setor de TI abrem portas para quem aprende por conta própria

CRIS OLIVETTE

18 Março 2018 | 07h51

Fernando Mercês. Foto: Rafael Arbex / Estadão

A falta de mão de obra especializada para atender o mercado de tecnologia é antiga. Para suprir as necessidades do segmento, que se transforma com grande velocidade, as companhias abrem espaço até para quem não tem graduação formal.

Segundo o presidente da Associação Brasileira das Empresas de Tecnologia da Informação (Abrat), Emerson Beneton, é comum encontrar profissionais autodidatas ocupando cargos técnicos de destaque nas empresas de TI.

Pesquisador de ameaças sênior da multinacional de segurança de dados Trend Micro, Fernando Mercês aprende tecnologia sozinho desde criança. “Comecei desmontando computadores e montando novamente. Depois, passei a consertar computadores de amigos.”

Sua carreira começou na área de montagem e manutenção. Também trabalhou com desenvolvimento e administração de rede, nas áreas de infraestrutura e programação, até chegar à área de segurança.

“Quando comecei a estudar, não existia muita informação, aprendia com a prática, além de participar de fóruns e ler livros. Hoje, dá para aprender coisas incríveis pelo YouTube, mas o meu aprendizado real ainda é guiado pela prática.”

Mercês faz parte do time de pesquisa global da empresa, formado por 20 líderes que atuam em diversos países. “Todos respondem ao diretor de pesquisa global. Nessa área, que é extremamente técnica, atingi o maior cargo, acima estão posições gerenciais que exigem outras habilidades e perfil.”

Beneton afirma que quem está no mercado há muitos anos como ele, que mantém a empresa de segurança da informação ABCTec há 22 anos, sabe que não basta titulação para que o profissional tenha bom desempenho. “Já vi muitos profissionais com menor titulação que têm mais vontade de aprender e melhor desempenho.”

Emerson Beneton. Foto: Wilson Corso/Divulgação

Ele diz que por se tratar de uma área extremamente ágil, aquilo que se aprende hoje, em questão de meses é reformulado. “A única maneira de se manter atualizado é sendo autodidata. Ir atrás da informação é muito positivo, por outro lado, selecionar a informação adequada é o grande desafio. Quem tem essa capacidade, acaba sendo um profissional diferenciado e mais produtivo.”

Segundo ele, o autodidata não aguarda a empresa definir a grade de treinamento. “É aí que está o desejável, porque a companhia pode não ter tempo para planejar treinamento, até porque, em várias esferas, não sabemos o que irá acontecer nos próximos meses.”

Como empresário, ele afirma que gosta de contratar autodidatas. “Já passei por situações nas quais o profissional tinha currículo brilhante e muitas certificações, mas a efetividade e capacidade de execução eram baixíssimas. Ao procurar informação, o autodidata adquire mais capacidade de aplicação e de execução.”

Para ele, há grande distância entre o mercado e a academia. “Contratar os autodidatas acaba sendo uma solução.”

Nem todas as empresas, porém, adotam essa postura. Mercês conta que certa vez se inscreveu para vaga de estágio em engenharia de software no Google. Ele passou nas provas práticas mas foi eliminado no quesito faculdade.

“Dois anos depois, o Google me fez proposta de emprego. Falei que tinha sido dispensado uma vez por falta de diploma. A recrutadora disse que outra pessoa havia me eliminado etc e tal. Mas já era tarde, porque tinha ido para outra área.”

Assim como Mercês, o líder do time de desenvolvimento Android da empresa de aplicativos Kanamobi, Taynã Bonaldo, também é autodidata. “Comecei a trabalhar com TI aos 15 anos. Fiz curso de informática e depois me tornei monitor nas aulas, em seguida me tornei professor”, recorda.

Conteúdo. Ele chegou a entrar na faculdade de tecnologia. “Quando comecei a fazer estágio como desenvolvedor, tive de buscar conteúdo na internet e aprender sozinho. Depois, entrei em uma grande empresa e comecei a me envolver com a área de mobilidade. Como o trabalho me consumia muito tempo, e como estava desmotivado com o conteúdo apresentado na faculdade, parei o curso no início do 3º ano.”

Segundo ele, o alimento do autodidata é o desafio. “Todos que têm esse perfil têm satisfação ao resolver problemas por conta própria. Alguns precisam de estímulo para buscar formação, outros caminham independentemente, olham para o mercado, identificam algo novo e partem atrás daquele alvo.”

Bonaldo também aprendeu inglês por conta própria, para ter acesso a mais conteúdos disponíveis na web. “Esse foi outro desafio. No começo, pesquisava em português, mas não era eficiente. Depois, comecei a traduzir textos, mas perdia muito tempo. Decidi ler em inglês e me habituei ao idioma. Isso facilitou minha vida na programação.”

Mercês também começou e desistiu da faculdade quatro vezes. Hoje, mantém canal no Youtube chamado Papo Binário, com dez mil inscritos.

“Diluo meu aprendizado profissional em aulas no formato que as faculdades deveriam oferecer. Ensino o que o mercado está pedindo para universitários e alunos do segundo grau. Se eles conseguirem combinar esse aprendizado com a faculdade, melhor ainda.”

‘Eventos Revelam Novas Tendências’

Recém-contratado na Kanamobi como front-end pleno – responsável pela parte visual de aplicativos e sites –, Ruben Luz Paschoarelli transita pela área de tecnologia desde criança, mas nunca pensou em cursar faculdade.

“Frequentava eventos de TI com o meu pai, que é programador, isso teve um papel fundamental na minha formação. Percebi que participando de eventos é possível conhecer as tendências de mercado, ver o que os outros estão fazendo, como e com quais ferramentas”, afirma.

Taynã Bonaldo (à esq.) e Ruben Luz Paschoarelli. Foto: Hélvio Romero / Estadão

O jovem de 28 anos conta que sempre fez cursos online ou presencial de curta duração. “Tenho várias certificações de cursos livres. Acredito que os desafios que tenho no trabalho e as experiências de troca de informações que mantenho com os colegas de trabalho, preenchem o vácuo que possa existir pela falta de um curso universitário”, avalia.

Ele conta que, para ampliar a sua formação, acompanha tutoriais na internet, faz testes online e lê livros. “Vejo que no mercado de TI há três tipos de profissionais: autodidata, aquele que aguarda a empresa dar um direcionamento em relação à capacitação, e os que fazem faculdade, sendo que muitos desses últimos também podem ser autodidatas”, afirma.

No trabalho, Paschoarelli ocupa a posição de front-end pleno nível três. “Isso significa que ainda não tenho a visão técnica e a experiência de um profissional sênior. Espero me tornar sênior em até dois anos.”

Seus planos incluem iniciar estudos para ser back-end e dominar a parte de sistemas. “Em seguida, quero estudar áreas correlatas como ciência de dados, blockchain e criptomoedas, porque sempre tem coisas para aprender. No futuro, quero ser um full stack, que é o profissional que sabe fazer tanto a parte de sistemas quanto a visual.”

Paschoarelli afirma que está sempre online, se relacionando com outros profissionais de várias partes do mundo. “Discutir com outras pessoas me faz aprender sempre.”

Inteligência artificial eleva o peso da graduação

O diretor comercial da Trend Micro, Rodrigo Garcia, avalia que, com o advento da inteligência artificial e machine learning, carreiras como ciência de dados abarcam outras áreas de conhecimento, como a de negócios e da matemática. “Por isso, o profissional deve ter qualificações que transitem entre esses campos e nesse caso, o ensino universitário ganha peso”, diz.

De acordo com ele, por muito tempo a formação profissional foi segregada por áreas de conhecimento. “Hoje, está tudo mais interligado. Talvez, para os interessados em atuar no mercado de dados, ter somente certificações pode não dar o embasamento necessário.”

Fernanda Oliveira. Foto: Hélvio Romero/Estadão

O executivo acredita, no entanto, que o peso do diploma universitário na carreira de TI é diferente quando comparado a profissões tradicionais. “A prática é essencial, principalmente para cargos técnicos. E muitas vezes, esse não é o foco do ensino atual”, afirma. “A experiência e o conhecimento de diferentes linguagens são mais importantes. Grandes empreendedores de tecnologia têm carreiras brilhantes e não possuem diploma”, diz.

Segundo Garcia, cerca de 30% dos funcionários da área técnica são autodidatas. Já na Kanamobi, a gerente de RH, Fernanda Oliveira, diz que 65% dos profissionais são autodidatas.