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Capital humano será melhor explorado

Atividades operacionais e que envolvem cálculos serão feitas por robôs; faculdades devem enfatizar habilidades sócio emocionais

CRIS OLIVETTE

17 Dezembro 2017 | 07h30

Fernando Massi. Foto: Bernardo Sardi

A evolução tecnológica envolve, cada vez mais, a substituição da mão de obra por máquinas. Nesse contexto, muitos se perguntam quais serão as habilidades e competências necessárias para atuar nesse novo mundo.

“Tudo indica que será aberta grande oportunidade para quem fizer um correto mapeamento das habilidades que serão exigidas pelo mercado”, diz o autor do livro A Quarta Revolução Industrial, mentor da Endeavor e ex-professor de MBA da ESPM, Fundação Dom Cabral e FIA, Sandro Magaldi.

Segundo ele, estudo divulgado no Fórum Econômico de Davos e publicado em 2016 demanda reflexão profunda. “Se pensarmos no desenvolvimento de competências, por exemplo, o estudo mostra que mais de 1/3 do conjunto de competências que serão essenciais em 2020, não existem hoje.”

Magaldi afirma que outro ponto fundamental decorrente da rápida evolução do mundo é a depreciação do conhecimento. “O mesmo estudo aponta que 50% dos conhecimentos adquiridos no primeiro ano da faculdade se tornam obsoletos quando o estudante chega ao quarto ano da graduação. Tudo isso nos traz indagações sobre quais são as novas perspectivas para o emprego.”

Além de pensar sobre a visão prática referente à substituição da mão de obra, Magaldi considera fundamental refletir sobre o ponto de vista estratégico.

“Fora a questão da educação obsoleta, existe a polarização de companhias que estão ocupando mais espaço no mundo. Elas evoluem tecnicamente de forma muito mais agressiva que a nossa. O Brasil está na ‘franja’ da evolução tecnológica. E o que estamos fazendo para preparar a sociedade para esse futuro? Esse tema deveria estar na pauta de discussão do governo e dos candidatos à presidência da república”, afirma.

Naercio Menezes Filho. Foto: Insper

Coordenador do Centro de Políticas Públicas do Insper, Naercio Menezes Filho considera necessário entender melhor qual é a vantagem comparativa do ser humano em relação aos robôs. “Os robôs pensam mais rápido e tomam decisões, inclusive, sem a ajuda do ser humano. Os indícios apontam para a menor necessidade dos homens, principalmente em carreiras que exigem mais raciocínio e realização de contas para a tomada de decisões”, diz.

Menezes concorda com Magaldi em relação à postura do governo e instituições de ensino. “Não vejo o governo e as faculdade se preocupando com isso.” Porém, acredita que o problema não é premente no País. “Essas dificuldades irão afetar os nossos filhos. Hoje, a população está mais preocupada com a votação da reforma da previdência. As pessoas não estão pensando no longo prazo.”

Segundo ele, é evidente que as instituições deveriam se mexer. “As faculdades devem enfatizar habilidades sócio emocionais como empatia e ensino de programação. Quem souber programar máquinas terá vantagem no mercado. Acho que os robôs não vão lidar bem com os humanos, porque temos muitas idiossincrasias e emoções. As máquinas farão contas, mas a sociedade vai precisar dos seres humanos para tomar decisões e lidar com as emoções.”

Menezes diz que atualmente fica evidente que as escolas construtivistas é que estavam certas, pois partem da premissa de que a aprendizagem e desenvolvimento são produtos da interação social.

“O tema sempre gerou polêmica por elas não terem foco no vestibular. Agora, sabemos que no futuro será mais importante ter habilidade sócio emocional que ser o melhor matemático da turma, porque nunca será possível ser melhor em cálculo que um robô.”
Visão. Na rede de clínicas OrthoDontic esse futuro já chegou. Além de investir R$ 3 milhões em recursos tecnológicos por ano, a marca também faz investimentos na otimização do capital humano.

“Nossa postura eleva a gestão de pessoas a um novo patamar, pois com automatização de algumas funções, nos deparamos com novos formatos de trabalho”, diz o presidente da rede, Fernando Massi.

Segundo ele, o colaborador que fica livre de tarefas operacionais passa a exercer atividades que exigem habilidades essencialmente humanas, como empatia e criatividade.

“O uso de totens e aplicativos, por exemplo, eliminou procedimentos de atendimento de recepcionistas, auxiliares e dentistas, proporcionando aos profissionais a possibilidade de prestar atendimento concentrado na experiência do cliente.”

A OrthoDontic mantém setor de treinamento e desenvolvimento e seus funcionários participam, periodicamente, de cursos e workshops. “Nos próximos anos, a aliança entre tecnologia e a utilização máxima das capacidades humanas nortearão os nossos objetivos.”

Segundo Massi, empresas e profissionais da nova era precisam ressignificar seu mindset quanto aos avanços tecnológicos, e entendê-los como forma de potencializar o trabalho humano no lugar de substituí-lo.

“A sociedade é dinâmica e muda em ritmo acelerado, a capacidade de adaptação será crucial para obter sucesso no mercado de trabalho”, acrescenta.

Carolina Pizolati Farah. Foto: Norton José

Consultores dizem que ensino anacrônico não acompanha evolução

Consultora em gestão de pessoas e especialista em mercado de trabalho, Carolina Pizolati Farah realiza, todos os anos, pesquisa salarial do setor de tecnologia em Santa Catarina.

“Tenho de validar os cargos que serão pesquisados e a cada ano preciso incluir funções que não existiam e retirar do estudo cargos operacionais. No meu trabalho, já está bem visível esse processo de mudança de função das pessoas”, afirma.

Carolina percebe que a preocupação com o futuro profissional atinge mais os profissionais, que precisam se reinventar e buscar conhecimentos, do que as empresas. “As pessoas estão inseguras. Algumas buscam conhecimento, outras não.”

Segundo ela, os que ocupam cargos estratégicos e de gestão, que exigem experiência, bom conhecimento, visão sistêmica e capacidade de analisar dados, não terão problemas para permanecer no mercado.

Miguel Monzu. Foto: Arquivo pessoal

“Faltam profissionais e sobra tecnologia. Ela é onisciente, como uma divindade, praticamente onipotente. Sem ela, não há atividade econômica. Sem tecnologia, não há negócio. Este é um fato indiscutível”, afirma o vice-presidente da consultoria de executive search e de estratégia de capital humano Fesa Group, Miguel Monzu.

Ele afirma que o avanço da tecnologia requer profissionais mais preparados, certificados em novas ciências que agilizam processos, automatizam tarefas, aumentam a produtividade e, consequentemente, melhoram a eficiência do país. “Para isso, é imprescindível que as universidades preparem os futuros profissionais para interagir e implementar tecnologias.”

Monzu ressalta, no entanto, que o ensino é anacrônico e não acompanha as nuances tecnológicas que surgem a todo instante. “As instituições de ensino não preparam o estudante para o mercado de trabalho que está em ebulição e mais evoluído que o currículo vigente.”

Segundo ele, a tecnologia não tira empregos, apenas exige profissionais com outras habilidades, preparados e com uma visão global do funcionamento de uma indústria. “Isso é bom para o profissional, que se torna parte de um sistema dinâmico e moderno, e para o País, porque tendo profissionais de ponta poderá, finalmente, buscar a riqueza que lhe é devida. E isto é um bom antídoto para o desemprego. Vida longa à tecnologia.”

Evolução. Sócio-diretor da Falconi Gente, Josué Bressane Junior lembra que as primeiras revoluções no ambiente de trabalho aconteciam em intervalo de séculos. Hoje, temos uma revolução por década.

Josué Bressane Jr. Foto: Luciana Serra

“Agora, as mudanças são sentidas por meio do avanço da tecnologia. As grandes inovações e seus impactos já podem ser vistos em inúmeros setores, com postos de trabalho sendo extintos. No entanto, isso não deve ser visto como problema, mas como nova mudança de patamar nas relações de trabalho.”

Bressane Junior diz que a tecnologia irá substituir atividades rotineiras e consideradas operacionais, exigindo que o profissional aprimore competências e características humanas.

“Não se trata de substituir o mecânico por uma máquina, mas de encontrar um mecânico com menos experiência em apertar parafuso e mais manejo com linguagem de programação para interagir com o robô que irá apertar o parafuso.”

Segundo ele, em 2015 a criatividade era a última competência no “Top 10 Skills” elaborado pelo World Economic Forum. Já em 2020, a previsão é que ela esteja entre as três mais importantes, acompanhada de resolução de problemas complexos e pensamento crítico.

“Além disso, dois novos aspectos surgiram na lista: inteligência emocional e flexibilidade cognitiva, indicando que o profissional será capaz de identificar um erro e realizar alterações necessárias para se adaptar às novas situações.”

O diretor afirma que a sobrevivência está nas mãos de ambas as partes: das empresas, que precisam reforçar seus processos de gestão e liderança, e dos colaboradores, que necessitam atualizar o conhecimento técnico. “O aprendizado contínuo é a chave para a eficiência e, consequentemente, para a geração de resultados diante do futuro que já chegou.”