Como o Vale do Silício se tornou um clube de ‘manos’
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Como o Vale do Silício se tornou um clube de ‘manos’

Autora do livro Brotopia, Emily Chang fala sobre o lado sombrio, secreto e dissoluto do Vale do Silício, ao expor o comportamento do setor de tecnologia em relação às mulheres

REDAÇÃO

21 Fevereiro 2018 | 07h03

Emily Chang, autora do livro “Brotopia”. Foto: Jim Wilson/The New York Times

Por Pui-Wing Tam / The New York Times

Emily Chang provocou um pequeno terremoto no Vale do Silício, no mês passado, quando a revista Vanity Fair publicou um trecho do seu novo livro, Brotopia.

Com um título que promete nos conduzir para o lado sombrio, secreto e dissoluto do Vale do Silício, Emily Chang conta como festas regadas a drogas ocorrem por trás dos bastidores, nas casas de executivos e investidores do setor de tecnologia. Uma das festas que mencionou, soube-se depois ter sido na casa do investidor de risco Steve Jurvetson, que deixou sua empresa no ano passado em meio a uma investigação envolvendo seu comportamento com relação às mulheres.

Em Brotopia, lançado em 6 de fevereiro nos Estados Unidos, as festas secretas em que sexo é a principal atração são um sintoma de um problema muito mais profundo dentro do setor de tecnologia no que se refere ao modo de tratar as mulheres. O exame feito por Emily neste aspecto coincide com atual movimento #MeToo e o debate desencadeado sobre igualdade de gênero.

Emily, 37 anos, âncora de um programa sobre tecnologia da Bloomberg TV, abordou recentemente as raízes desse desequilíbrio no que se refere a gênero no Vale do Silício e o predomínio dos chamados “bros” – esses jovens arrogantes que gostam de se ostentar. Eis alguns trechos da entrevista:

Pui-Wing Tam – Como o Vale do Silício se tornou a terra dos “bros”?
Emily Chang – Não era assim e nem sempre foi. As mulheres assumiram um papel vital na indústria de computação desde o início. Pense no filme Hidden Figures (Estrelas além do tempo), mas em todo o setor. O que ocorreu nas décadas de 1960 e 70 foi uma explosão de um setor que carecia muito de talentos. Não havia pessoas suficientes para trabalhar na área de computação. Então foram contratados dois psicólogos, William Cannon e Dallis Perry, que criaram testes de personalidade para identificar bons programadores. Esses homens decidiram, ao testarem 1.200 homens e 200 mulheres, que bons programadores não gostam de pessoas, que eles têm um total desinteresse nelas. Esses testes tiveram muita influência e foram usados em várias empresas durante décadas.

O fato é que se você está em busca de pessoas antissociais irá contratar muito mais homens do que mulheres. Não há nenhuma evidência de que homens antissociais são melhores no campo da computação do que as mulheres. Mas esse estereótipo se perpetuou até hoje.

E o que encontrou foram exemplos os mais flagrantes de como as mulheres são tratadas.
A cultura social e de festas é chocante. Durante dois anos entrevistei dezenas de pessoas familiarizadas com essas festas ou que foram demitidas por causa disto. Mas tinha muito menos a ver com sexo e mais com poder, e a dinâmica de poder é completamente desequilibrada.

O  que mais a surpreendeu nas histórias de mulheres que ouviu?
Uma das coisas mais surpreendentes para mim é que não se surpreenderam com a história narrada por Susan Fowler (ex-engenheira da Uber que no ano passado tornou público o assédio sexual que ocorria dentro da empresa). Esta é a vida delas diariamente. E as mulheres me falaram sobre como lidar com esse labor emocional o tempo todo, e é exaustivo. No final do dia estão cansadas, porque sentem como se tivessem exercido dois trabalhos, não um apenas.

 Após a publicação na Vanity Fair, você foi criticada por pessoas do setor de tecnologia.
Compreendo que este é um território novo que deve deixar muitas pessoas incomodadas, mas não haverá mudança se elas não se sentirem intranquilas. Essas histórias têm de ser expostas porque, do contrário, a cultura de rebaixamento das mulheres vai se perpetuar.

Você foi achincalhada no Twitter, como muitas mulheres do setor. Enfrentou outras formas de assédio?
Como jornalista, eu já me vi em situações muito desconfortáveis. Mas não se compara com o que as mulheres dentro do setor de tecnologia enfrentam todo dia,  simplesmente porque são em menor número. Conversei com engenheiras da Uber que foram convidadas para irem a clubes de striptease e outros no meio do dia. E, com frequência, aceitam o convite, porque é o que praticamente todo mundo faz. Você tem de se submeter para se encaixar no ambiente e ser simpática.

Quais são as chances de mudanças nesse tratamento das mulheres?
Estou animada porque vi exemplos ótimos. As mesmas pessoas que querem mudar o mundo – que estão explorando os limites do espaço sideral e criando comunidades flutuantes no oceano e carros autônomos – podem fazer isso. A mudança tem de vir de cima, e os CEOs têm de fazer da inclusão o seu foco e sua prioridade e comunicar isso para a sua organização, para que as pessoas também considerem isso uma prioridade.

Você tem três filhos e dedicou o livro a eles.
Quando as coisas ficam difíceis – porque não é fácil abordar o sexismo – olho para meus filhos e penso: ‘estou fazendo isto por eles’. E acho realmente que suas vidas serão melhores num mundo mais igualitário.

E mais importante, o Vale do Silício controla o que vemos, o que lemos ou compramos, como nos comunicamos, como nos relacionamos. Este não é um problema apenas do setor de tecnologia, mas da sociedade. E o setor de tecnologia  vem tendo uma influência sobre a humanidade muito maior do que qualquer outro. E este mesmo setor que mudou o mundo pode mudar esse comportamento. / Tradução de Terezinha Martino