‘Cuido da  empresa  como se  fosse minha’
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‘Cuido da empresa como se fosse minha’

José Roberto Kracochansky, CEO da WEX, diz que continua trabalhando como se fosse o dono

Claudio Marques

14 Maio 2018 | 07h38

JOSE ROBERTO KRACOCHANSKY. FOTO: GABRIELA BILO / ESTADÃO

O profissional que desenvolve sua carreira no mundo corporativo, chega a cargos de alto escalão e depois tornar-se empreendedor é bastante conhecido. Mas no caso do engenheiro José Roberto Kracochansky, o caminho que trilhou foi o inverso: começou a vida profissional como empreendedor e depois tornou-se executivo – sonho que sempre acalentou.

Desde 2012 ele comanda a multinacional de origem americana WEX, empresa de soluções de pagamento corporativo que atua há mais de 30 anos nos segmentos de benefícios, frete, viagem e saúde, com movimentação anual superior a US$ 40 bilhões. “Temos um movimento em torno de R$ 5 bilhões/ano no Brasil, mais de 3 mil clientes corporativos e já emitimos mais de 1,5 milhão de cartões”, afirma Krokachansky. A companhia tem 300 funcionários. A seguir, trechos da conversa.

Como você se tornou empreendedor?
Na verdade, eu virei empreendedor, sem querer, aos 17 anos. E nunca me imaginei empreendedor. Quando comecei a faculdade, o tempo de aula era menor em comparação ao que eu gastava no colégio. Por isso, comecei a trabalhar com um tio meu, Deo Kubric, que foi executivo de multinacional e tinha um bureau de locação de apartamentos. A coisa começou a avançar e montamos uma software house, a DK Informática, em seis meses dentro da empresa dele. Aos 19 anos, eu montei um segundo negócio, a Trikad, que trabalhava com CAD, que era a computação gráfica da época, e ao mesmo tempo estudava engenharia. O desafio então era me formar, que era um grande desejo do meu pai.

E depois?
Aí veio a bolha de internet e uma oportunidade de empreender de novo, montar uma start up com um produto que já tínhamos dentro da companhia e criamos a Healthlink. Uma coisa importante é que não estando satisfeito em ser empreendedor, apesar de ser super bem-sucedido, continuei estudando. Depois de formado, fiz especializações, mestrado, porque eu não enxergava meu futuro como dono de empresa a vida inteira.
Quando foi isso?
Foi em 1999/2000. Eu fiz o spin off, recebi um aporte do Fundo Elektra, que na época era do Banco Pactual, e em seis, sete meses, eu vendi a empresa para um grupo maior. Virei VP da Healthlink deixei de ser o dono, virei sócio minoritário sentado numa cadeira de executivo.

Mais ainda era sócio
Na minha cabeça já era um movimento de transição, até que por uma coincidência, eu fui parar (como associado) na Rio Bravo, um banco de investimento que tinha sido recém-inaugurado. Cheguei onde eu queria, um banco de investimento, que era o meu projeto de carreira: do empreendedor ao executivo. Foi uma experiência muito bacana, o tipo de pessoa com quem você convive num banco de investimento tem um perfil diferenciado, a vida de empreendedor é uma vida selvagem.

Do fundo foi para a WEX?
A oportunidade de assumir a gestão de uma das companhias que a Rio Bravo negociava surgiu quando uma delas ficou sem gestão, em 2004. E eu fui para lá para fazer turn around da companhia, que se chamava Unique e acabou sendo vendida para a WEX. Então, de 2007 até 2012, a companhia era 100% controlada por um fundo, em 2012 a WEX comprou 51%. Em 2015, adquiriu 100%. Eu posso dizer que em 2012 eu virei CEO de multinacional. Apesar disso, eu não mudei a minha forma, isto é, eu sou um CEO que cuida da companhia como se fosse minha. É o senso da responsabilidade, do comprometimento de longo prazo.

Fez o caminho inverso ao de muitos no mercado.
Eu sou muito grato pela minha vida empreendedora. Meu treinamento foi no dia a dia, e isso se tornou um grande diferencial. Tive meu tio ao meu lado, que me formou.

Como foi esse treinamento dado por seu tio?
Eu nunca fui treinado no sentido formal, mas eu tinha feedback todos os dias o dia inteiro. Além de que, cada vez que saía de uma reunião com ele, eu aprendia alguma coisa, estava sendo exposto a realidades muito diferentes, isso com 19, 20, 21 anos, e aí eu já estava tocando a empresa sozinho. Mas eu tinha feedback todos os dias de forma instantânea. Mais recentemente, já na Wex, a empresa começou a crescer de forma rápida, e eu tenho feito isso com meu time. Eu percebo que isso é uma forma de desenvolver, e aí não importa o nível do executivo, fica muito mais fácil quando você vai trabalhando o feedback, ele vai transformando essa relação em muito próxima. Então, o feedback deixa de ser uma crítica e sim uma forma de melhorar a convivência com o colaborador. É muito positivo estar trabalhando com uma pessoa com quem você tem afinidade.

Você, então, adota esse feedback constante?
Essa é fórmula que eu tento praticar no meu dia a dia aqui na WEX, do feedback constante. Muitas vezes a pessoa está esperando o trimestre, o mês, o ano para receber um feedback formal. Eu já tive isso aqui. E me perguntavam, não vai me dar o feedback do quarter? Eu dizia, eu lhe dei feedback todos os dias nesses últimos três meses cada vez que saímos de uma reunião. Isso é muito importante na formação do profissional. Temos um ambiente muito competitivo aqui, eu trouxe isso do mundo empreendedor e do mundo de banco de investimentos. O desafio agora é manter essa cultura com o time aumentando.

A gestão, então, passa pela questão do feedback e pela postura empreendedora do time?
Há também a questão da educação. Nos últimos anos, é muito difícil encontrar alguém com boa formação universitária. E acho que essa boa formação é um pré-requisito. Cem por cento de nosso pessoal que não tem formação universitária tem apoio para se formar. Ao mesmo tempo, lançamos este ano o primeiro grande programa de trainee com foco em universidades de ponta. Sou contrário a essa filosofia do Zuckerberg e do Steve Jobs de que é possível obter sucesso sem o lado educacional, são poucas pessoas que conseguem. Tivemos aqui um profissional que foi o melhor profissional de tecnologia que eu já conheci e descobrimos que ele não tinha formação universitária. Eu falei para ele que se quisesse ser promovido para um cargo de liderança, teria de acabar a faculdade. E ele perguntou porque teria de fazer isso se o Steve Jobs não se formou. Mas hoje, ter estudado em uma faculdade de ponta virou um grande divisor de águas para o crescimento de um profissional em nossa companhia.