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‘Montar e manter o time me dá orgulho’

Delio Morais, CEO da Hughes no Brasil, está há 44 anos no mercado de tecnologia, ele diz que perfil desejado do colaborador é ser apto a trabalhar em um ambiente de mudança

Claudio Marques

27 Março 2018 | 07h50

Cláudio Marques
O físico Délio Morais está há 44 anos, desde o início de sua carreira, envolvido profissionalmente com o mundo da tecnologia e há 25 anos lidera a Hughes no Brasil. A empresa de origem norte-americana, que está celebrando 50 anos de atuação no Brasil, se apresenta como líder mundial no fornecimento de serviços de rede e tecnologia de comunicação via satélite. “Começamos vendendo equipamentos (satélites), depois incorporamos prestação de serviços de rede corporativa ao nosso negócio, e agora oferecemos serviços ao consumidor final”, diz Morais.

A novidade a que ele se refere é o serviço de internet via satélite, que entrou no portfólio brasileiro em julho de 2016. “Cobrimos 3.700 municípios, atingindo cerca de 85% da população.” Agora na metade do ano, a Hughes terá um segundo satélite para o serviço, que deverá chegar a 4.900 municípios e a cerca de 92% da população.

O executivo admite que o serviço é mais competitivo fora de grandes centros urbanos. “Mas em regiões onde não há tanta oferta dos serviços tradicionais (fibra, cabo), aí o satélite tem um espaço muito interessante para crescer.” No Brasil, a Hughes tem 220 funcionários diretos e “mais toda a rede de parceiros para fazer serviços de campo, de atendimento e instalação que atende todos esses municípios”, segundo Morais.

A companhia é subsidiária da EchoStar, tem 30 bases técnicas no País e um Centro de Operações de Rede em Barueri (SP). O dirigente conta que, com 25 anos de casa, a tendência agora é ir se afastando do trabalho executivo e revela que já preparou sua sucessão. A seguir, trechos da conversa.

O senhor sempre teve interesse em tecnologia?
Meu interesse sempre foi a tecnologia, mas a tecnologia voltada para o negócio. Sou graduado em física e, na época da faculdade, eu queria trabalhar na área de tecnologia, mais especificamente na área de computadores. No entanto, não no sentido literal do bit, do byte, da programação, mas muito mais na área de negócios. Ou seja, vender. Então, durante uns 10, 15 anos, fiquei no mundo da computação voltado a negócio, e então eu fui migrando aos poucos para comunicação, de tal sorte que nos últimos 30 anos, eu tenho vivido nesse mundo de comunicações, tecnologia, mas sempre na área de negócios.

Está, então, na área que gosta?
Posso dizer que eu faço o que eu realmente gosto. Isso me motiva, mexe com meu astral, me faz acordar todo dia e vir aqui para a companhia sempre olhando esse lado do negócio.

O setor tecnológico evoluiu muito nesse período. A gestão também mudou?
Gente nunca sai de moda. Quando se fala em equipamentos, seja computador, celular, satélite, o que for, temos vivido uma transformação absolutamente fantástica. Mas negócio é algo que envolve gente nas duas pontas. De um lado, gente tentando fazer negócio e, de outro, gente também querendo fazer negócio. É uma pessoa que está vendendo uma ideia, um serviço, um conceito, e do lado de lá o que há é gente, pouco importa se é o mercado corporativo ou consumidor. Por isso, digo que gente sempre vai estar presente e não sai de moda. Pode até haver mudança de estilo de gestão, ferramentas de desenvolvimento de gente, tudo isso. Mas por mais que você traga novas ferramentas, que mude sistemas de gestão, mude determinados métodos, você sempre termina em gente. Muitos dizem ‘meu principal ativo é gente’, eu processo isso. É de fato o que eu entendo como mais importante, apesar de estar falando de uma empresa de tecnologia. Mas quem usa o satélite, o faz para melhorar a vida das pessoas.

Qual é o seu papel nesse quadro?
Acho que o meu papel, o papel de um CEO, é a busca do amálgama perfeito. Ou seja, é ter a diversidade de um time (para obter bons resultados), não só de gênero e raça, mas também em idade, em formação. Eu não quero um time só de engenheiros ou só de administradores ou economistas. Não quero um time com um perfil só de gente agressiva, de gente inovadora. Os gregos já diziam que o melhor caminho é o do meio. Então, é esse balanço que eu busco no meu time. Muito mais do que a proporcionalidade entre homens e mulheres, é diversidade no sentido lato sensu. Isso é a preocupação número 1 para mim.

Qual é o perfil de colaborador que busca?
Eu procuro trazer pessoas para trabalhar na companhia que sejam, antes de mais nada, aptas a trabalhar com a mudança. Lembro aquele conceito de que quem sobrevive não é aquele mais forte, mais rápido, mas quem tem a maior capacidade de se adaptar às mudanças. E elas estão acontecendo de uma maneira muito forte, inclusive na forma de fazer negócio. E vira e mexe você cai no fator gente. Quem está na interface com o mercado tem de estar atento ao fato que do lado de lá a pessoa também mudou o comportamento, o hábito, a formação. Mudaram as expectativas. E voltamos ao tema gente. Então, à medida em que vamos mudando, temos de entender como fazer negócio, como desenvolver a competitividade, como desenvolver e capacitar seus talentos internos, como os motivar, como manter seu pessoal. Digo que o mais importante hoje não é contratar pessoas, pagar um bom salário, mas é ter um propósito. Se não houver um propósito, se essa pessoa não estiver engajada na sua forma de olhar os negócios que você faz, rapidamente, principalmente quanto mais jovem a pessoa for, você a perde.

O que lhe dá mais orgulho em sua carreira?
Se eu for sintetizar, eu diria que é conseguir montar o time, manter o time, sempre atento ao que chamo de amálgama perfeito. Parece um pouco poético, ou teórico, mas se você for analisar no dia a dia, isso é a coisa que mais me dá o sentido de realização. E realização é você olhar para aquilo que é o seu maior ativo e deixá-lo cada vez mais preparado para os desafios do dia a dia.

Que dicas poderia dar para os mais jovens?
Quando eu contrato gente jovem, eu digo: seja curioso. A curiosidade é o que move a sociedade, é o que faz as pessoas se desenvolverem. Não aceite passivamente aquele ambiente em que você está, sempre questione. Seja curioso, leia muito. Mas não é ler manual de equipamento nem como ficar rico em cinco minutos. Leia, por exemplo, biografias. Esse é o grande desafio hoje.