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‘O ideal é se conectar com o propósito’

Ao longo da carreira na indústria farmacêutica, Rolf Hoenger, presidente da Roche Farma Brasil, tem como premissa procurar fazer a diferença na vida de pacientes

Claudio Marques

19 Fevereiro 2018 | 07h09

Rolf Hoenger. Foto: Amanda Perobelli/Estadão

Letícia Ginak
ESPECIAL PARA O ESTADO
A medicina foi a primeira escolha, mas não se concretizou como opção. “Por diferentes razões”, o presidente da Roche Farma Brasil desde janeiro de 2014, Rolf Hoenger, acabou se graduando em economia pela University of St. Gallen, na Suíça, onde nasceu.

Apesar de não ter realizado o sonho, Hoenger sente-se confortável com a profissão que exerce há mais de 30 anos e, principalmente, com a posição atual. “Em vez de tratar um indivíduo como médico, na indústria farmacêutica eu posso prover melhores condições para muitos pacientes.”

Na Roche desde 1993, Hoenger passou por diferentes países e cargos ao longo dos anos. Pisou pela primeira vez em território americano em 1999, atuando como gerente de marketing e vendas na América Central e Caribe. Foi presidente da Roche Peru e, em seguida, Roche Colômbia e Equador, além de ter ocupado o cargo de diretor comercial de desenvolvimento para América Latina.

Fundada em 1896 na Suíça, a companhia é constituída pelas divisões Farmacêutica e Diagnóstica. A Roche é uma das maiores empresas de biotecnologia do mundo, desenvolvendo medicamentos para as áreas de oncologia, imunologia, infectologia, oftalmologia e doenças do sistema nervoso central.

Para Hoenger, o título de presidente da divisão do Brasil veio acompanhado pela responsabilidade de impulsionar o crescimento local, além de incentivar a inovação para além da matriz. O desafio, porém, parece não intimidar em nada o economista.
A escolha pela saúde e por atuar, de alguma forma, na melhoria da qualidade de vida das pessoas é o que motiva sua carreira.

Acredita que é necessário transmitir esse ideal para a equipe?
As pessoas que trabalham na Roche não podem ver essa posição simplesmente como um emprego, um meio para ter um salário no fim do mês. O ideal é se conectar com o propósito (da empresa). E o nosso é fazer a diferença na vida dos pacientes. Acredito, inclusive, que isso dá uma razão de ser maior para nossos colaboradores. A primeira iniciativa para medir o sucesso da companhia é, inclusive, o número de pacientes tratados por mês. Nós geramos um código que chamamos de “pacientômetro”, que nos mostra justamente esse número de pessoas tratadas. E nossos pacientes sofrem com doenças graves, como diferentes tipos de cânceres, artrite, fibroses. Um paciente com câncer sofre impactos não são só sobre sua própria vida, mas também na de sua família. Neste cenário, eu acho que isso mostra para as pessoas um propósito claro.

Quais outras ações fazem parte da cultura da empresa?
Primeiro, eu entendo que cultura é uma coisa fundamental para qualquer empresa. Por exemplo, como nós nos conectamos com esse propósito faz parte dessa cultura. Além disso, o DNA da Roche é inovação. Pense que nós não desenvolvemos genéricos e similares, nada disso. Trabalhamos apenas para o desenvolvimento de produtos que passam por testes muito rigorosos. A premissa é que o medicamento, antes de mais nada, precisa atender pacientes de doenças que não têm uma cura hoje. Ou, ainda, medicamentos que precisam claramente ser melhores que os já disponíveis no mercado. Isso é puramente trabalhar com inovação. Mas, quando você pensa em uma filial, como no caso aqui do Brasil, a inovação não é sobre medicamentos, porque aqui nós não desenvolvemos novos produtos para a companhia. Porém, essa mesma filosofia de inovação precisa ser aplicada. E nós fazemos isso, por exemplo, para saber como nossos produtos chegam ao mercado brasileiro. Sabemos que aqui no Brasil o acesso a medicação é um grande desafio. É preciso soluções inovadoras.

E como vocês fazem isso?
Desenvolvemos internamente o “Inovamentes”, que faz parte da estratégia de criação da cultura de inovação. Com ele, investigamos novas possibilidades. Esse time que participa do projeto é o “catalisador” de inovação da empresa. Essas pessoas são treinadas, passam por cursos e workshops sobre o tema e são os responsáveis por multiplicar esses conceitos dentro da companhia. Esse processo tem gerado muitas novas ideias, como a combinação entre propor o bem para os pacientes e a inovação. Assim, há a procura pela melhor ideia que vai ajudar na saúde dos pacientes.

A comunicação entre marcas e clientes é atualmente uma das premissas para as empresas, inclusive farmacêuticas. A Roche tem alguma proposta em relação a esse tema?
Temos uma particularidade. Poucas vezes um paciente tomaria a decisão sozinho de tratar-se com um dos nossos medicamentos. É o médico quem toma essa decisão. Nesse sentido, nós não estamos impactando diretamente o paciente. Nosso trabalho de confiança e comunicação, que é super importante, é assegurar a qualidade da nossa marca diretamente com os médicos.

Como manter-se um profissional atualizado com as novas demandas do mercado, principalmente com a tecnologia remodelando algumas estruturas?
A primeira coisa que não se deve perder é a curiosidade. Você não pode pensar que já sabe tudo. E, se você tem curiosidade, você vai encontrar algo que nunca havia pensado. Uma das atividades que eu incorporei à minha rotina é ir a campo de 10 a 12 dias por ano. Sair para a rua é entender realmente e verdadeiramente o que está acontecendo lá fora. Saia da reunião, das visitas ao cliente ou hospitais. É preciso ver o que acontece de verdade no dia a dia das pessoas. É dessa forma que se traz novas ideias para dentro da empresa. A segunda coisa que não pode faltar é, obviamente, ler. E, por último, permitir que as pessoas se posicionem. Às vezes, temos um paradigma em nossa cabeça e alguém vem e o muda. Quando essa política floresce na companhia, as ações fluem muito bem e você não fica para trás.

Quais são os outros principais desafios que enxerga para a Roche no Brasil?
A maior diferença em relação a outros países é que o Brasil é bem maior. Temos diversos países dentro de um. E isso é o mais importante para trabalharmos. É preciso entender que o que funciona para o Sul do País não vai ser o adequado para o Norte. Por isso, o diálogo proposto com uma secretaria de saúde no Norte é totalmente diferente do que se terá no Sul. Atuamos com agentes de saúde no Amazonas e Pará com uma ação sobre o câncer de colo de útero, porque lá é a região com o maior número de casos no País. As equipes precisam ter flexibilidade para desenvolver as estratégias e prestar atenção nos diferentes mercados.