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Mailson: Duras verdades sobre o crescimento mundial

segunda-feira 17/09/12

Queda na demanda e no investimento estariam na base da crise mundial

mailson_da_nobrega.JPGMailson da Nóbrega* indica um artigo do Nobel de Economia Michael Spence, segundo o qual a queda na demanda e no investimento estão na base da crise mundial. Abaixo, comentário do ex-ministro da Fazenda

 

Os países ricos estão em crise. Seus problemas transbordam para os países em desenvolvimento. Dois fatores estão na base dessa situação. Quais seriam as respostas oficiais adequadas para lidar com eles? Esses são os assuntos de artigo do prêmio Nobel de Economia Michael Spence no Project Syndicate.

O primeiro fator, diz Spence, é a desalavancagem e a correspondente queda na demanda agregada. Desde o início da crise em 2008, países desenvolvidos, que haviam sustentado a demanda com alavancagem e consumo excessivos, tiveram que fazer os devidos consertos, o que requer tempo. Isso afeta o crescimento e o emprego. No setor “nontradable”, que está em déficit e representa dois terços da atividade econômica, não há substituto para a demanda interna. O setor tradable poderia resolver parte do problema, mas seu tamanho é insuficiente. O governo poderia suprir a deficiência mas o elevado endividamento limita sua capacidade de fazê-lo. Conclusão: dada a desalavancagem, o crescimento será modesto na melhor das hipóteses, no curto e médio prazos. Se a situação na Europa deteriorar e ocorrer um impasse na negociação do “abismo fiscal” nos Estados Unidos, o cenário mais provável será uma grande recessão.

O segundo fator tem a ver com o investimento. Quedas do investimento diminuem o crescimento e o emprego. “A dura verdade é que o efeito do crescimento liderado pelo consumo, que prevaleceu antes da crise, foi a deficiência no investimento, particularmente no setor público. Se o ajuste fiscal for feito mediante cortes no investimento, isso afetará o crescimento de médio e longo prazo. Haverá menores oportunidades de emprego para os jovens. Acontece que elevar o investimento tem um custo imediato: adiar o consumo”. Se quase todos concordam, diz Spencer, que é preciso investir mais para aumentar e sustentar o crescimento, ao mesmo tempo se acredita que alguém deve pagar por isso. Assim, o investimento será a vítima de um impasse sobre a distribuição dos custos do ajuste, o que se reflete no processo político, nas escolhas eleitorais e na formulação de medidas fiscais.

A questão central, prossegue o articulista, é a tributação. Se o investimento público tiver que subir sem aumento de impostos, serão muito elevados os cortes de despesas necessários para evitar o crescimento insustentável da dívida pública. A questão tem pelo menos duas décadas, particularmente nos Estados Unidos. Deixada sem solução, ela agora ameaça a coesão social. A renda da classe média na maioria dos países avançados está estagnada e as oportunidades de emprego estão diminuindo. A porção da renda apropriada pelo capital tem crescido, em detrimento do trabalho. Essas tendências, afirma Spence, “refletem uma combinação de forças da tecnologia e dos mercados globais”. Do lado da tecnologia, inovações poupadoras de mão-de-obra criaram uma cunha entre o crescimento e a geração de emprego em todos os setores”.

No lado tradable das economias avançadas, o crescimento do emprego foi limitado pela automação industrial – como a expansão do uso de robôs e em breve da impressão em 3D – e pela integração de milhões de novos trabalhadores nas redes globais de suprimento. “A crescente habilidade das empresas multinacionais de decompor essas redes por função e geografia, e em seguida reintegrá-las em custos de transação cada vez mais baixos, elimina a proteção que costumava vir da competição por trabalhadores locais.” Esse é um desafio particularmente difícil, assegura o autor, porque a política econômica não tem levado em conta os efeitos distributivos adversos das mudanças nos mercados globais.

Uma situação financeira saudável ajudaria, já que parte da renda que migrasse para o capital acabaria nas mãos do governo. Mas, com exceção da China, atualmente a posição fiscal ao redor do mundo é fraca. Por isso, a desalavancagem continua uma prioridade em muitos países, reduzindo o crescimento. Medidas fiscais anticíclicas estão limitadas pelo elevado endividamento público e pelos déficits fiscais. Até agora, há escassa evidência de vontade por parte dos políticos, dos formuladores de políticas públicas e talvez da opinião pública dos Estados Unidos no sentido de reduzir adicionalmente o consumo via tributação, de modo a criar espaço para a expansão do investimento voltado para o crescimento. Na realidade, diz Spencer, “o contrário é o mais provável.”

Na medida em que isso também acontece em outras nações avançadas, “a economia global enfrenta um prolongado período de baixo crescimento, com riscos de recessão provenientes de impasses na formulação de políticas públicas e de erros na Europa, nos Estados Unidos e em outros lugares. O cenário implica crescimento lento – possivelmente de 1 a 1,5 ponto percentual mais baixo – nos países em desenvolvimento, inclusive na China, com riscos igualmente elevados de resvalar para a recessão”, conclui Spencer.

* Mailson da Nóbrega foi ministro da Fazenda (1988 a 1990) e hoje é sócio da Tendências Consultoria Integrada e membro de conselhos de administração de empresas no Brasil e no exterior. Ele colabora com o Radar Econômico comentando artigos e reportagens da imprensa internacional.

Blog: http://mailsondanobrega.com.br/blog/