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Vilões do morador novato em apartamento

claudiomarques

30 agosto 2014 | 10:31

Conversas, música alta e uso inadequado da piscina são as infrações mais frequentes de condôminos que trocaram a casa pelo edifício

“O volume de voz foi o mais difícil de controlar”, diz Fátima (Foto: Felipe Rau/Estadão)

Edilaine Felix

A professora Fátima de Oliveira Branco, de 56 anos, mora em um condomínio há pouco mais de cinco anos e, embora hoje esteja completamente adaptada à rotina da vida em prédio, ela relembre das dificuldades de adaptação do início.

“A adaptação foi difícil. Afinal, além de morar em uma casa, independente, era um imóvel de 375 metros quadrados e me mudei para um apartamento de 75 metros quadrados. É diferente. É novo. O quintal, a piscina, a churrasqueira, tudo é coletivo”, diz a professora.

Fátima é uma das 210 mil pessoas que passaram a morar em condomínios na cidade de São Paulo nos últimos cinco anos, segundo informações de um estudo da administradora de condomínios Lello. São mais de 1,4 milhão de apartamentos em mais de mil novos empreendimentos residenciais na capital.

No processo de adaptação à vida coletiva, a professora conta que controlar o volume da voz durante as conversas foi o maior problema para a família – ela mora com dois filhos e o marido. Como moravam em uma casa ampla, quando um precisava chamar o outro, sempre o fazia em voz alta.

O barulho, não foi, de acordo com Fátima, motivo de grandes problemas ou constrangimentos no processo de adaptação ao condomínio. “Meu marido é corretor de imóveis e conhece bem a rotina dos condomínios, e ajudou a mim e aos nossos filhos no entendimento de regras e normas”, completa.

A professora conta também que estranhou a garagem, apenas duas vagas, marcada, pequena, apertada, mas não cometeu nenhuma infração. “Durante o processo de adaptação, não fomos multados ou notificados. Em relação ao barulho, nos policiamos e começamos a moderar o volume de voz. E, admito que esse foi o ponto mais difícil de controlar”, ressalta.

“Quando mudei para apartamento percebi três coisas: a família ficou mais próxima, minha passarinha (calopsita) pia bem alto e ainda fiz uma economia fantástica”, diz.

Para ela, todo o processo de adaptação valeu a pena, considerando a relação custo x benefício. Hoje, ela paga R$ 650 reais de condomínio e não precisa se preocupar com a limpeza de jardim, piscina ou da churrasqueira depois de um evento.

Para Fátima, todo morador novato em um edifício vai passar por alguns constrangimentos até entender o funcionamento de tudo. “Hoje, já estamos adaptados, a vida me sorri mais”, brinca.

Conhecimento. Para o gerente de condomínios da Auxiliadora Predial, Julio Herold, a maior demanda de um síndico são comportamentos inconvenientes decorrentes da falta de conhecimento do regulamento interno por parte de moradores que estão vivendo, pela primeira vez, em um edifício.

“Há regras em um condomínio. São 100, 500 e até cinco mil pessoas residindo e circulando pelo local diariamente. É diferente de morar em uma casa, onde você controla tudo e cria suas regras e a sua política de boa vizinhança”, acredita.

Segundo ele, comportamento clássico desse novo morador é percebido logo na mudança – quando ele decide mudar no sábado após as 14h ou no domingo. E, ao chegar ao prédio, descobre que no regulamento não é permitido.

Por situações como essa é que Herold ressalta a importância de conhecer as regras antes da mudança. Ele aconselha o condômino a pedir cópia do regulamento ao adquirir o imóvel. E, no caso do síndico, ele deve estar atento aos novos moradores e redobrar a atenção e sempre orientar o novato.

Usar o bom senso é importante. “Se é possível abrir uma exceção abra, mas seja firme informando o que diz o regulamento. Esclareça que existem normas em um condomínio. Mostre as regras, a convenção e o regulamento”, diz Herold, referindo-se à atuação do síndico.

Ajustes. Depois de 29 anos morando em casa, o engenheiro Rodrigo da Silva Dezembro, de 31 anos, foi morar em um apartamento depois de casar. “Para minha surpresa, minha adaptação foi rápida”, conta.

A maior dificuldade dele foi com os sons. Ele conta que recebeu ligações pedindo para diminuir a altura do volume da conversa quando estava com visitas em casa. Segundo ele, nada proposital, era o novo mesmo, em casa nunca percebeu que conversas poderiam incomodar o vizinho.

Isso ocorreu mesmo depois dele ter lido a convenção antes de mudar e de ter conversado com amigos que moravam em condomínios para entender um pouco mais do dia a dia.

“É difícil também se ajustar às reformas, com o recebimento e instalação de móveis em um imóvel que é seu, mas que você não pode fazer as coisas na hora que bem entender”, acrescenta ele.

Embora já esteja morando no condomínio há 1 ano e 8 meses, o jovem Dezembro acredita que não esteja 100% adaptado à vida em um edifício e ainda tem o “estereótipo” do morador novato.

“Cada dia é um aprendizado para entender até como se comportar, porque dá para reconhecer quem é morador novo, a forma como fecha a porta, como se comporta quando chega com o porta-malas repleto de compras”, brinca. Para melhorar a relação com o condomínio e conhecer mais da rotina, agora ele faz parte do conselho.

Dezembro está com problemas de vazamento em seu apartamento. Segundo ele, se fosse em casa, já teria chamado um profissional para efetuar o conserto, mas em um condomínio é diferente.

“Preciso saber a origem, ter autorização do morador para entrar na unidade, tudo seguindo o regulamento. Por isso, digo que não estou totalmente adaptado à vida em prédio”, diz.