Cozinha  no centro de projetos  modernos
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Cozinha no centro de projetos modernos

Abertura e integração são respostas a espaços menores e mudanças de hábitos

Redação

03 Dezembro 2017 | 07h00

Casa cheia. Por gostar de receber amigos e familiares, Maria Cecília optou por projeto aberto e integrado Foto: Marcelo Elias/Laguna

Bianca Soares, especial para O Estado

A cozinha deixou de ser um cômodo fechado e estritamente funcional para se tornar destaque em projetos de arquitetura e design de interiores. A explicação para a transição comporta pelo menos duas hipóteses, dizem especialistas.

Com a diminuição dos apartamentos, foi necessário pensar estratégias de ampliação do espaço social, daí a ascensão da cozinha americana. Além disso, o homem moderno dispõe de pouco tempo livre e prefere desfrutá-lo em família. Quanto menor for o número de paredes, maior será a integração.


De olho nisso, incorporadoras têm oferecido lançamentos menos compartimentados. “Atualmente, são poucas as casas que têm empregados. As pessoas preparam suas refeições, cuidam das tarefas domésticas, e não querem fazê-las isoladamente”, diz André Marim, diretor de incorporação da Laguna.

A tipologia que favorece a abertura dos ambientes está presente em mais de 90% dos empreendimentos da marca Living, do grupo Cyrela, diz Eduardo Leite. Segundo o diretor, a tendência é maior nas unidades de até 120 m², mas também pode ser vista em apartamentos maiores, inclusive nos de altíssimo padrão. “Nesse movimento, a cozinha, que era periférica, na área de serviço, aproximou-se do centro do lar. Depois, ampliou-se, não em tamanho, mas em alcance. E isso está mais ligado a estilo de vida do que a um segmento específico.”

Tudo junto. Living Exclusive, lançamento da Cyrela, integra sala, cozinha e varanda
Foto: Perspectiva/Cyrela

A arquiteta Sandra Escridelli concorda, mas faz uma ressalva: “A cozinha americana é, acima de tudo, uma solução de venda para apartamentos pequenos”. A dissertação de mestrado dela, apresentada na Faculdade de Arquitetura do Mackenzie, é um levantamento dos tipos de cozinha que dominaram o mercado de São Paulo entre os anos 2000 e 2015.

O estudo aponta que as áreas totais dos apartamentos diminuíram consideravelmente a partir de 2007. As cozinhas acompanharam a redução, chegando à média de 6 m² a 4 m² de área, que é o mínimo exigido por lei. “Com a quebra da parede e a construção de uma bancada, você olha em direção à sala e tem a impressão de que o espaço é bem maior.”

Para o arquiteto Nildo José, a estratégia das construtoras está em oferecer espaços reduzidos e ao mesmo tempo agregar valor às áreas comuns. O último ponto, defende, está em consonância com as demandas dos clientes, que privilegiam os espaços de exposição, aqueles em que recebem visitas.

Maria Cecília Morgentern, de 59 anos, considerou o hábito de reunir amigos em casa na hora de comprar uma unidade no Roc Batel, em Curitiba. O empreendimento, que será entregue em 2019, vende a ideia de movimento e liberdade a partir da abertura de espaços.

“Hoje, as festas começam antes, com todo mundo ajudando. Não existe mais aquela figura que fica de castigo fazendo a comida.” Na avaliação da administradora, cômodos mais integrados “facilitam e tornam mais agradável” as reuniões.

Mas o conceito de abertura também traz desvantagens, alerta Nildo José. O odor por toda a casa é um deles, embora haja equipamentos, como a coifa e o exaustor, que minimizam o efeito. “Cheiro de fritura incomoda muito as pessoas. Além disso, por sua exposição, a cozinha precisa estar sempre limpa e organizada.”

Foi pensando nisso que a arquiteta Barbara Blonkowski, de 33 anos, decidiu ir na contramão do que vê no mercado em que atua e projetar sua cozinha fechada. “Cerca de 90% dos meus clientes optam pelas integradas, e eu até aconselho o modelo. Mas, para mim, considerei o fato de não ter o costume de cozinhar e ter uma filha de 10 meses. Ou seja, a minha pia está sempre com louça de papinha ou mamadeira”, brinca.

Adequação. Cozinha fechada se ajusta à rotina de afazeres de Bárbara, mãe de uma menina de 10 meses. Foto: Marcelo Elias/Laguna

O espaço para socialização ficou na varanda gourmet. “Acho importante a planta oferecer uma opção para receber amigos. Posso colocar lá um fogão elétrico e planejar o ambiente também para agregar.”

As varandas, aliás, também têm passado por uma transição funcional, lembra o arquiteto Gabriel Garbin. Elas cresceram e já fazem parte do living dos apartamentos. “Antes, estavam posicionadas de modo que não interagiam com o restante da casa. Agora, muitas incorporadoras pensam a área como extensão da cozinha e da sala.”

Um estudo de 2017 da Houzz, plataforma americana que reúne profissionais de arquitetura e design, aponta que 51% das cozinhas novas ou reformadas, naquele mercado, abrem para outras salas e 20% para o exterior (varandas ou churrasqueiras).

O preço da abertura. O resultado de toda essa exposição da cozinha é um layout mais fluído, para incentivar a permanência nela, e mais sofisticado, afirma Luiza Loyola, da consultoria WGSN. “O desejo de conforto na área de jantar é maior. As banquetas e cadeiras, por exemplo, são mais aconchegantes, e as cabines, acolhedoras.”

Também os eletrodomésticos e equipamentos viram itens de decoração e, portanto, mais caros. A linha branca perde espaço para a inox. O liquidificador, a batedeira e os pratos, entre outros, saem dos armários e ficam à vista.

Após reforma, exposição do cômodo tende à sofisticação

Michelle Corrêa, 25 anos, vai se mudar em 2019, logo após o casamento, para o apartamento comprado na planta. Antes, porém, ela pretende fazer uns ajustes no projeto. A cozinha está no centro de suas preocupações com a decoração.

Isso porque o ambiente, junto com a sala, ocupará lugar de destaque na casa. A abertura e integração do espaço são motivadas por dois pontos centrais: dar ideia de amplitude – a área total do imóvel é 57 m²- e evitar o isolamento em cômodos.

“Inicialmente, seremos só nós dois. Não quero ficar sozinha enquanto cozinho, por exemplo. Com ela aberta, também posso assistir à televisão, conversar. Enfim, conviver com o entorno.” O posicionamento da cozinha está de acordo com o resultado da pesquisa feita por Sandra Escridelli. A arquiteta entrevistou moradores que escolheram adaptar suas cozinhas para o modelo americano.

Layout. Michelle Corrêa decidiu alterar a planta para não ficar sozinha enquanto cozinha Foto: Daniel Teixeira/Estadão

Da amostra, formada por mais de 200 unidades, 85,5% apontaram a possibilidade de manter conversações em diferentes ambientes como principal razão da escolha. Em seguida, está a sensação de expansão da área de convívio, com 83,6%.

O apartamento de Michelle ainda não foi entregue, mas a nutricionista já escolheu a parede que será derrubada. “A minha cozinha é estreita, aí a área de trabalho também seria muito restrita, por isso escolhi fazer uma bancada.”

O arquiteto Nildo José afirma ser possível adaptar praticamente qualquer planta, desde que feita uma avaliação completa do espaço. “O primeiro passo é entender os pontos da cozinha para, assim, desenhar o layout que melhor se adequa às necessidades e possibilidades do cliente.” Feito isso, determina-se o que será feito em hidráulica, elétrica, iluminação e marcenaria.

Também arquiteto, Gabriel Garbin diz que a alteração mais comum é retirar a parede que divide cozinha e sala ou cozinha e copa. “Depois, a gente posiciona o fogão na nova parede e transforma o espaço em uma ilha com banquetas, onde as pessoas podem sentar.

O valor da reforma varia conforme a quantidade de mudanças e o padrão dos equipamentos e eletrodomésticos. Segundo Nildo, o preço de um micro-ondas pode ir de R$ 300 a R$3.000. “Acho que é o aparelho que dá o melhor exemplo de como a sofisticação esperada pelo morador pode encarecer uma cozinha do tipo.”

Luiza Loyola, da consultoria WGSN, aponta tendências: “equipamentos com tom pastel e design com aspecto vintage (rosa pálido, lilás, verde, azul e amarelo), além dos tons metálicos, como ouro rosé.” Eletrodomésticos de inox e espelhados também estão em alta.”

São esses últimos os escolhidos por Michelle. “Para o armário, queremos uma madeira mais trabalhada e com vidros opacos. Também estudamos a possibilidade de esconder o micro-ondas, por exemplo, já que a parede não é tão espaçosa. Sabemos que ficará tudo à mostra, por isso a preocupação.”