Em edifícios mistos, moradores ‘adotam’ o comércio local
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Em edifícios mistos, moradores ‘adotam’ o comércio local

Empreendimentos têm de lavanderia a restaurantes e atraem, principalmente o público jovem, pela praticidade que oferecem

Claudio Marques

25 Fevereiro 2018 | 07h00

Darlene Santos mora em um prédio com essa característica há 11 anos e é síndica há um ano. Foto: Rafael Arbex / ESTADAO

Luiz Fernando Teixeira / ESPECIAL PARA O ESTADO
A possibilidade de residir em um condomínio misto, com opções de comércio e serviços em sua própria área, atrai pessoas que veem nisso praticidade e economia de tempo. Mas, diferentemente de uma farmácia ou mercado, um bar ou restaurante é visto como um possível local causador de transtornos aos moradores.

Ainda assim, profissionais do mercado imobiliário ouvidos pelo Estado, dizem que esse tipo de empreendimentos não interfere nos valores dos apartamentos, seja para venda ou aluguel. Na visão do corretor Gustavo Zanotto, da imobiliária RE/MAX, o fato não é determinante para negociações, mas ele diz que esse tipo de produto é uma tendência. “Baseado em análises, em pesquisas de mercado, a tendência hoje é haver mais produtos que ocupem na sua parte térrea lojas e comércio”, diz.

A diretora geral de Atendimento na Lopes Consultoria de Imóveis, Mirella Parpinelle Correa afirma que hoje as pessoas buscam ter a comodidade de tentar fazer as coisas em uma caminhada próxima à casa. “É uma tendência comportamental, porque as pessoas não querem mais gastar quatro horas no trânsito.” Entretanto, é ressaltado que a necessidade pelo serviço varia de acordo com o tipo de pessoa.

A praticidade atrai principalmente jovens, na opinião de Zanotto. Ele diz que pessoas na faixa etária entre 23 e 25 anos são as que mais procuram prédios com essas características. E aponta que os lançamentos dos últimos anos, que começam a ser entregues agora, contemplam essa demanda. “Os jovens procuram empreendimentos que proporcionem liberdade e que poupem trabalho como ter que procurar um lugar para lavar uma roupa, por exemplo.” Ele acrescenta que, baseado em pesquisas, o mercado imobiliário deverá lançar mais produtos desse tipo.

Darlene Santos mora em um prédio com essas características há 11 anos e se tornou síndica há cerca de um. Ela conta que os moradores têm uma relação harmoniosa com os comerciantes que ocupam o térreo do edifício, que fica na esquina de uma rua transversal à Rua Augusta. “Temos uma boa relação com eles.”

Em sua área, o edifício tem uma lavanderia, um restaurante, uma lanchonete, uma cantina além sobrelojas que não estão sendo utilizadas no momento. “A lavanderia entrega as roupas na nossa portaria com os nomes de uma forma bem mais pessoal e personalizada.”

Marisbene Rocha, que é síndica de um prédio misto há cinco anos, diz que, em geral, os condôminos gostam de viver próximo de pontos comerciais. “Temos uma floricultura e uma óptica e os moradores acabam utilizando os serviços”, relata. Assim como Darlene, ela não se recorda de ter tido problemas com os comerciantes, até pelo tipo do serviço prestado pelos lojistas.

Marisbene ainda diz que a floricultura chama a atenção e embeleza a frente do prédio. Ela, porém, admite: “Se fosse um bar, talvez fosse diferente”. Nesse sentido, a gerente de Relacionamento com o Cliente da Lello Condomínios, Angélica Arbex, lembra que a questão do barulho pode interferir no bem estar dos moradores.

“Pequenos bares e restaurantes podem trazer a sensação de movimento constante, que às vezes não é exatamente o que as pessoas procuram quando escolhem morar em condomínio”, afirma a gerente.

No entanto, Darlene aponta algumas das razões pelas quais ela acredita ser bom ter um ponto comercial um pouco mais “animado”. “Eles provocam movimentação próxima à portaria. Hoje, o condomínio até se beneficia da iluminação e isso traz mais segurança para nós.”

Entretanto, os moradores defendem a necessidade de haver entradas independentes para as áreas residencial e comercial. Tanto Darlene quanto Marisbene moram em prédios que têm a separação definida, mas em algumas construções mais antigas nem sempre isso acontece.

Mirella cita um exemplo famoso em São Paulo, em que não há essa distinção. Para ir ao restaurante inaugurado pelo chef Olivier Anquier, na cobertura do Edifício Esther, os clientes usam o mesmo elevador que os moradores do prédio.

A executiva lembra que os conceitos estéticos e que orientam a construção de um conjunto mudam ao longo do tempo. “Hoje, existe uma entrada bonita para o residencial, não é aquela coisa dos projetos antigos, em que havia aquela poluição visual.” Já Angélica lembra que a separação ajuda a valorizar os edifícios. “Isso é uma coisa importante, porque preserva a privacidade e a segurança.”

Uma das vantagens geralmente apontadas para esse tipo de empreendimento seria o barateamento das taxas condominiais. “Nos conjuntos que têm lojas, comércio, serviços na sua parte interna, geralmente a taxa condominial é um pouco menor”, diz Zanotto.

Nem sempre é assim. No edifício gerido por Marisbene, os lojistas têm o relógio de água e luz separados, o que não interfere nos valores da taxa condominial. No edifício de Darlene, uma convenção de moradores isentous os lojistas de pagar o rateio. “Eles precisam manter a mesma fachada, esse tipo de coisa, mas não pagam nenhuma taxa e não participam das decisões do condomínio.”