O que ninguém nunca fala sobre microapartamentos
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O que ninguém nunca fala sobre microapartamentos

Aqui, do lado de dentro, tudo é bem pequeno e não muito fofo. Ninguém avisa que tudo fica mais concentrado em uma pequena casa, que o ciclo de vida dos objetos se acelera

Claudio Marques

07 Junho 2017 | 07h06

Ilustração: Bee Murphy / The New York Times

 

 

 

 

 

 

Por Gene Tempest / The New York Times

Meu marido e eu dividimos um apartamento de 45 metros quadrados em Cambridge, Massachusetts. Moramos num “microapartamento”, o que às vezes é chamado de “casa minúscula”. Esse rótulo é orgulhosamente assumido pelas moradas com menos de 46 metros quadrados, de acordo com a Wikipédia. Estamos, involuntariamente, numa nova modinha, fazemos parte de um movimento que cresce no mundo inteiro.

Mas, no fundo dos caros armários personalizados e debaixo das camas New Age Murphy, a propaganda pro-petite escondeu algumas verdades inconvenientes sobre o outro lado dessa vida. Ninguém escreve sobre as pequenas mentirinhas que ajudam a vender esse novo e minúsculo sonho americano.

Aqui, do lado de dentro, tudo é bem pequeno e não muito fofo. Como a silenciosa maioria dos pobres e da classe média que habita cidades caras, não moramos em casas pequenas pelo design, mas porque é tudo o que nosso dinheiro consegue alugar.

“Como a silenciosa maioria dos pobres e
da classe média que habita cidades caras,
não moramos em casas pequenas pelo design,
mas porque é tudo o que o nosso dinheiro
consegue alugar”

As casinhas estão bombando. O movimento — cujas origens, pelo menos na cabeça dos fãs, se ligam espiritualmente à cabana de Thoreau no Lago Walden — foi ficando cada vez mais popular depois da crise imobiliária de 2008. Viver em pequenos espaços virou sinal de consciência ambiental e crítica ao consumismo.

Uma casinha é um estado de espírito, talvez até uma religião. Está na moda e na Dwell. Vai super bem com outras correntes culturais contemporâneas. É feita da mesma matéria que a febre Marie Kondo de 2014 e também combina com a hygge deste ano. (O recém-importado culto da hygge — ou aconchego, da Dinamarca — requer velas queimando, malhas grosseiras e a busca da união, facilitada pelos espaços apertados.) A vida micro também se conecta à era do minimalismo da Apple. Nas listas imobiliárias, “aconchegante” deixou de ser um eufemismo pouco convincente. Agora é um lema cobiçado.

Nosso apartamento em Cambridge foi construído em 1961, parte de uma onda anterior de interesse utópico em habitações pequeninas e acessíveis. Nosso lar ocupa a maior parte do terço inferior de um prédio de duas unidades e três andares. Na nossa rua há uma fila contígua de nove dessas edificações — pequenas embaixo, grandes em cima. A ideia do empreendedor era que a renda do aluguel das unidades de baixo pudesse ajudar a cobrir a hipoteca das casas dos proprietários de cima.

A característica mais marcante das nossas vidas pequeninas é a presença inevitável e dominadora do cesto de roupa suja, comprado na Target, em 2007. Objetos embaraçosos e ordinários como o cesto de plástico ganham força nos espaços pequenos. Eles se tornam tiranos. Em uma casa maior, esse item perfeitamente funcional pode recuar silenciosamente para dentro de um armário ou na área de serviço.

Nossa peça central e nada atraente de 10 dólares ocupa aproximadamente 0,4% da área de nossa casa, mas, visualmente, parece muito maior. Na paisagem toda horizontal do quarto (um colchão queen-size no chão), o cesto se ergue imponente e branco acima do resto do ambiente. Muitas vezes me lembra o Capitólio de Lincoln, Nebraska: um exemplo de arquitetura monumental, projetado para dominar a pradaria, em homenagem à força do homem sobre a natureza.

As fotos lustrosas que se espalham por blogs famosos como o Tiny House Swoon fazem a vida pequenina parecer desproporcionalmente boa. As casas pequenas geraram uma subindústria de bom tamanho. Navegando pela Amazon, você encontra volumes úteis, como Tiny House Living: Ideas for Building and Living Well in Less than 400 Square Feet (Morar em casinhas: ideias para construir e viver bem em menos de 37 metros quadrados) e The How To Guide to Building a Tiny House  (O guia para construir uma casinha). As casas pequeninas também ficam bem na tela grande. Você pode tentar documentários como Tiny: A Story About Living Small (Pequenina: uma história sobre viver em pequenos espaços) ou Small Is Beautiful: A Tiny House Documentary (Pequenino é lindo: um documentário sobre casinhas). Ou ainda Tiny House, Big Living (Casa pequena, vida grande]) uma série para as telinhas que já está na quinta temporada na HGTV.

(Veja em http://fotos.estadao.com.br/galerias/classificados,veja-o-que-e-preciso-fazer-para-conseguir-viver-em-um-apartamento-de-14-m,30048: O que é preciso fazer para viver em um apartamento de 14 m²)

Os ingressos para a Tiny House Conference (“casas pequenas, grande conferência”) em Portland, Oregon, no mês de abril, custaram 349 dólares. O evento apresentou falas inspiradoras como “Diminua seu espaço e sua vida” e “O futuro do movimento”. Em Charlotte, Carolina do Norte, você pode contratar um coach de vidas em casas pequenas para ajudar na transição.

Existem, também, os céticos. Em dezembro de 2013, a The Atlantic publicou um artigo intitulado “Os apartamentos pequenos e os riscos para a saúde”. Os resultados que a revista relatou não eram conclusivos. Espaços apertados podem representar riscos psicológicos para algumas pessoas, mas não para outras. Alguns especialistas entrevistados pela The Atlantic disseram que a idade faz diferença. Os micro apartamentos podem ser bons para os jovens, como meu marido e eu.

A vida em nossa casinha se caracteriza, sobretudo, pela ruína. Como os indomáveis e onipresentes bolinhos de poeira do apartamento, a sensação de coisa gasta e puída só cresce, simplesmente porque já existe.

Envelhecimento rápido

Ninguém avisa que tudo fica mais concentrado em uma pequena casa, que o ciclo de vida dos objetos se acelera. Nossas coisas estão envelhecendo mais rápido do que em casas anteriores. Ficamos no nosso solitário sofá mais horas por dia do que em qualquer outra morada anterior. As almofadas se desvanecem, as molas cedem, os cantos se desgastam. Nosso tapete está ficando careca debaixo dos nossos caminhos diários, revelando rotinas repetitivas: ida e volta para a máquina de café, para o sofá, para a pia, para o sofá. As denudações parecem trilhas de vacas abertas por campos de sálvia — afrontas à paisagem. Tudo em nossa casinha é exigido demais, usado demais.

‘Aqui até os cheiros ocupam espaço’

Uma vez, fizemos um almoço que exigia 1 quilo de cebolas caramelizadas. Por horas, elas ficaram derretendo na panela. Tecnicamente, estavam ocupando cada vez menos espaço, mas, de alguma forma, invadiam cada vez mais. Em uma pequena casa, o aroma de cebolas lentamente refogadas é inescapável, excessivo: um cheiro para enlouquecer homens — e mulheres.

A cebola dominou tudo. Ela se impregnou especialmente nas toalhas de banho úmidas e na secadora de roupas que fica no quarto. Nunca mais ficamos limpos. Depois do banho, cheiramos imediatamente a cebolas — a casinhas. Por semanas, feder a cebola se tornou uma das certezas das nossas microvidas. O repositório preferencial do perfume — eu finalmente aprendi — era o meu top de poliéster da New Age.

“Eu levava o cheiro de cebola
comigo pela cidade. Você
nunca consegue sair de uma casa pequenina:
ela vai com você a todos os lugares”

“Está com cheiro de cebola”, meu marido verificou semanas depois. “Não parece uma boa usar isso por aí”. Eu disse: “Não posso não usar”. E usei. Mas a tecnologia de absorção de umidade orgulhosamente anunciada na propaganda do top pareceu projetada para ativar aquele velho cheiro de cebola. Eu levava o cheiro comigo pela cidade. Você nunca consegue sair de uma casa pequenina: ela vai com você a todos os lugares.

Ao longo de gerações, os escritores alertaram sobre o perigo de romantizar a vida dos pobres. Cuidado com a nostalgia. Pequeno pode ser ruim.

Então a gente sonha muito, sonha grande. Sonhos com velhas aspirações americanas, politicamente incorretas e fora de moda, que a nossa geração já deveria ter desacreditado. Sonhos com espaços tão vastos que parecem até países estrangeiros. Sonho com ilhas de cozinha. Sonho fora desta caixa. / Tradução de Renato Prelorentzou