Segurança colaborativa favorece comercialização de imóveis
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Segurança colaborativa favorece comercialização de imóveis

Moradores e corretores afirmam que planos colaborativos de proteção feitos por condomínios favorecem compra e venda do imóvel

Claudio Marques

15 Outubro 2017 | 07h00

Luzia Maziero é moradora do Itaim e presidente do Conseg local. Foto: Alex Silva / Estadão

Bianca Soares / Especial para O Estado


A matemática é simples: se a imagem de um bairro é associada à criminalidade, os imóveis da região tendem a se desvalorizar. Como forma de se proteger da violência e cuidar do patrimônio, moradores de diferentes áreas de São Paulo têm organizado sistemas comunitários de segurança. As ações vão de grupos de WhatsApp à comunicação via rádio entre porteiros de um mesmo quarteirão.
Foi após um arrastão em um prédio do bairro, há cerca de sete anos, que residentes do Itaim Bibi decidiram criar o que mais tarde ficaria conhecido como Vizinhança Solidária. No início, nove edifícios se juntaram para trocar informações sobre o monitoramento da área. Hoje, são 145 condomínios divididos em grupos menores, ordenados por proximidade geográfica.
Presidente do Conselho de Segurança do Itaim, Luzia Maziero, 60 anos, lidera um desses bolsões. A ideia, afirma, é integrar parte do sistema de segurança dos prédios e incentivar a vigilância colaborativa. “Se alguém vê um carro rodando na área de forma suspeita, compartilha a informação. Se acontece algo, não ligamos para o 190, temos um número específico do batalhão da região.”
A comunicação direta se dá porque a iniciativa virou um programa da Polícia Militar. As chamadas do Vizinhança Solidária não passam pelo mesmo filtro daquelas comuns, assim os atendimentos ganham agilidade. Além disso, os policiais oferecem treinamentos em que mostram, por exemplo, as principais táticas de invasão a condomínios, para que os moradores possam se precaver.
Os imóveis participantes são identificados com uma placa na fachada a fim de intimidar criminosos. Mas a maior parte das estratégias de segurança são definidas pelos próprios grupos. “Nos reunimos mensalmente e nossos porteiros conversam entre si de uma em uma hora para ver se está tudo bem no entorno”, afirma Luzia.
A empresária, que já foi síndica do edifício onde vive, diz que a iniciativa agrada a potenciais compradores. “Quando chega alguém interessado em um apartamento, nós mostramos o sistema e é visível a sensação de segurança que dá.”
O ponto costuma ser supervalorizado por quem procura uma propriedade na região, afirma a corretora Kelli Martins, da PRKM Imóveis. “Geralmente, são pessoas que trabalham por perto e pretendem fazer tudo a pé. Isso faz com que se sintam mais amparadas.”
A apresentação do esquema, na hora da compra, é um atrativo. “Prédios de alto padrão do bairro têm botões antipânico, que, se apertados, mandam alerta direto para a polícia. Na garagem, há uma vaga para ser usada somente em situações de perigo – se o porteiro vir o morador parando ali, sabe que é um pedido de socorro.”
Ações coletivas também estão sendo pensadas para casas, consideradas mais vulneráveis à violência. No Jardim Paulista, um projeto que teve início com cinco vizinhos atualmente reúne cerca de 150. Os encontros são feitos trimestralmente em uma escola do bairro.
Os moradores são divididos em grupos de WhatsApp conforme o quarteirão em que vivem. “Quando uma pessoa viaja, manda mensagem falando quanto tempo estará fora. Durante esse período, todos ficam mais atentos à casa dela”, conta o coordenador, Marcelo Lichtenthal, 50 anos.
A relação com a polícia se dá como no Itaim. Segundo Lichtenthal, a participação popular já ajudou a identificar bandidos que, para se aproximarem das vítimas da região, passavam-se por pesquisadores do IBGE. “Foi um morador que nos avisou e ligou para o batalhão, por considerar a abordagem suspeita.”

Fabio de Toledo, presidente da Conseg Butanta e morador do bairro, ja foi assaltado na porta de casa. Foto: Amanda Perobelli / Estadão

Fábio de Toledo, 50 anos, esteve prestes a deixar o Butantã após dois assaltos e três furtos à sua casa. Mas a relação afetiva com o bairro, onde vive há quatro décadas, o fez buscar alternativas. O funcionário público instalou na residência câmeras, cerca e portão elétricos, além de um alarme. “Mas vi que só isso não bastava. Se o bandido continua na rua e surge uma oportunidade, ele age.”
Toledo se aproximou, então, do Conselho de Segurança do Butantã. Virou presidente da entidade e passou a incentivar a colaboração entre vizinhos, hoje organizados em grupos de redes sociais. “É ali que avisamos se algo de errado está acontecendo. Procuro a polícia e, como ela nos conhece, não precisa, por exemplo, desconfiar de trote. O atendimento é imediato.”
As ações têm funcionado, afirma, mas não foram suficientes ou chegaram tarde demais para alguns moradores, que preferiram se mudar. “Há ruas do bairro onde com muitas placas de ‘vende-se’ ou ‘aluga-se’. A pessoa é roubada duas, três vezes, e desiste, vai embora.”
Efeito dominó. Daí para formar uma bola de neve é um passo, diz o professor da Fundação Getúlio Vargas Alberto Ajzental. “Um decide vender e o vizinho, que está sujeito à mesma situação, faz o mesmo. O do lado, também. Isso gera um aumento da oferta e o preço do imóvel tende a cair.”
A situação pode ser ainda pior se os potenciais compradores descobrem a razão das vendas. “Aí diminui também a demanda. Juntando as duas coisas, a desvalorização do local pode se generalizar.”
O cenário descrito pelo professor se assemelha ao que vive Morumbi e Alto de Pinheiros, segundo Reinaldo Fincatti, engenheiro e diretor da Empresa Brasileira de Estudos de Patrimônio (Embraesp). Segundo ele, o aumento da criminalidade afastou famílias de classe média e alta que viviam em casas e decidiram se refugiar em condomínios. “Por isso, o impacto é maior para imóveis de rua, embora o prejuízo a apartamentos seja também considerável.”
Levantamento anual feito pela Embraesp aponta que o mercado imobiliário em São Paulo está estagnado desde 2015, em razão da crise econômica. Mas a conjuntura é mais sentida em bairros como o Morumbi. “Eles são afetados duplamente, pela recessão e pela superoferta”, afirma Fincatti.
Corretor há 15 anos na região, Angelo Ferreira, da Valor Imóveis, conta que a situação tem forçado proprietários a serem mais flexíveis. “As negociações geralmente compreendem descontos de 20% a 30% e o vendedor precisa estar aberto a permutas.” A proximidade com favelas e a variedade de rotas de fugas usados por bandidos também influenciam no preço, afirma.

Município quer acesso a câmeras particulares

O município de São Paulo quer ter acesso às imagens de câmeras particulares para integrá-las em um programa chamado City Câmeras. O objetivo é facilitar investigações criminais, já que as gravações serão transmitidas para o Comando da Guarda Civil Metropolitana e compartilhadas com as polícias Civil e Militar.

Segundo o secretário municipal de Segurança Urbana, José Roberto Rodrigues, estima-se em um milhão o número de câmeras espalhadas pela cidade. “Mas elas estão dispersas, criamos uma plataforma em que cidadãos e estabelecimentos comerciais podem colaborar cedendo suas imagens.”

Para casas ou condomínios serem incluídos no projeto, é necessário salvar as gravações em nuvem por pelo menos até sete dias. A ideia não é monitorar as câmeras, mas ter acesso às gravações em investigações ou tão logo se identifique uma ação suspeita.” / Colaborou Eros Mendes, Especial para o Estado