Tradição é a principal  barreira para ‘construtechs’
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Tradição é a principal barreira para ‘construtechs’

Startups da construção civil esbarram no conservadorismo do setor para adotar novas tecnologias

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29 Abril 2018 | 08h00

Matheus Riga, especial para O Estado

Aventureiros em um grande oceano azul. Esta é metáfora que o fundador do buscador de preços para materiais de construção CoteAqui, Alyson Tabosa, usa para descrever o seu trabalho diário como inovador dentro do segmento da construção civil. Há quatro anos ele comanda uma construtech – como são chamadas as startups que atuam no setor – e diz que o fato de o setor não ter a tradição de investir em inovação cria oportunidades a serem exploradas por aqueles com familiaridade em novas tecnologias.

Alyson Tabosa (dir.) diz que setor da construção é um “mar aberto” para inovadores. Foto: Jéssica Mendes.

De acordo com o relatório Reinventando a Construção: Rotas para uma Maior Produtividade feito pela consultoria McKinsey, divulgado em fevereiro de 2017, o setor da construção civil movimenta aproximadamente US$ 10 trilhões mundialmente, o que é aproximadamente 13% do PIB global. No entanto, a produtividade do setor aumentou apenas 1% nos últimos 20 anos, em contrapartida com o crescimento de 2,8% da economia mundial e os 3,6% do segmento de manufatura.

Dentre os sete fatores elencados pela consultoria para acelerar a produtividade no setor, a adoção de novas tecnologias está em primeiro lugar. Com medidas voltadas à inovação, o custo de produção das empresas poderia ser reduzido em até 6%. “Muitas construtoras e imobiliárias tradicionais estão percebendo que não podem continuar operando do mesmo jeito”, afirma Tabosa. “O mercado dá sinais de recuperação e isso vai gerar um terreno mais fértil para o surgimento de novas tecnologias na construção civil.”

Para o empreendedor, o setor necessita de inovação não só para aumentar sua produtividade, mas também para ser mais eficiente e entregar produtos de maior qualidade – o que afeta a satisfação do comprador ou usuário de um imóvel. “Inovar significa dar mais qualidade de vida para a população, com boas casas e construções.”

Além do buscador de preços de material para obras, existem mais de 250 startups que atuam dentro do setor no País, de acordo com levantamento do fundo especializado de investimento Construtech Ventures.

A tendência do segmento, ao incorporar novas tecnologias, para a coordenadora de estratégias digitais do Sindicato da Habitação (Secovi-SP), Marcia Taques, é de se aproximar mais de seus consumidores. “A inovação dentro da construção civil vai proporcionar produtos mais próximos do que os clientes querem”, afirma. “Isso quer dizer que a pessoa não vai precisar mais aceitar aquele apartamento que não se adequa a suas expectativas e vai ter um financiamento que cabe no seu bolso.” Segundo ela, essa perspectiva ainda não pode ser mensurada, mas isso deverá acontecer nos próximos anos.

Marcia coordena o programa MoviMente do Secovi-SP, que aproxima construtechs a empresas tradicionais do setor e diz que há um “grande movimento” de construtoras querendo investir em inovação por se sentirem atrasadas.

“Elas começaram a entender que inovar não é fazer as pessoas morarem dentro de um chip, mas sim tornar a construção civil mais ágil, sustentável e próxima do consumidor”, diz. Ainda assim, diz ela, há relutância grande por parte das empresas, que não querem mudar o modelo de negócio.

Conservador. O tradicionalismo do setor é um dos maiores desafios para o fundador da plataforma de locação de tratores Traktoor, Bruno Xavier. “A cultura do setor ainda é formada por pessoas com dificuldade de entender a tecnologia”, afirma.

Para ele, a barreira para a inovação na construção civil não existe por conta do aspecto financeiro, mas sim porque os donos de empresas no setor não entendem como usar as novas ferramentas para aumentar a produtividade.

Com a maior presença da cultura de inovação dentro da construção civil, Xavier diz que haverá uma grande redução de custos. “Nós trabalhamos para reduzir a ociosidade de equipamentos e como encontrar tratores mais fácil”, diz. “Se as empresas diminuem seus gastos, obviamente que haverá redução também para o cliente final.”

No caso da Gerencia Obras, que oferece uma plataforma para gestão de recursos de uma construção, a redução nos custos chega a ser de 12% no valor final de uma obra. Hoje, a startup diz ter 2.445 construtoras como clientes.

Cofundadora da plataforma, Mariana Trovo vê as construtoras procurando se informatizar e aponta a inovação como uma questão de perseverança. “O mercado vai demorar um pouco para responder às novas tecnologias”, afirma. Segundo ela, é preciso ter fôlego para aguentar até as empresas entenderem o movimento que o setor está passando.

Mariana ainda afirma que nem todas empresas estão acostumadas a usar uma ferramenta de gestão, por exemplo. “Há muita construtora de médio porte que ainda utiliza o Excel para gerenciar suas obras”, afirma ela. E uma mudança estrutural, segundo diz, aparecerá quando as companhias perceberem a facilidade que a tecnologia proporciona para a operação do dia a dia.