Quando a média dos juros está longe da realidade do consumidor

Regina Pitoscia

28 Fevereiro 2018 | 03h33

O Banco Central divulgou ontem a média dos juros cobrados nas diferentes linhas de crédito no mês de janeiro. Quanto mais transparência e informações para o consumidor, melhor.

Mas há que se questionar sobre a real utilidade de conhecer taxas praticadas há mais de um mês e pelo seu nível médio. São dados defasados e muitas vezes longe da realidade que o candidato enfrentou (ou vai enfrentar) na hora de levantar um empréstimo.

Segundo o BC, o juro cobrado no rotativo do cartão de crédito ficou em 327,9% ao ano, o que equivale a algo perto de 12,9% ao mês. Mas além de traduzir a média de mercado, essas taxas são também média das diferentes modalidades do rotativo. Média da média.

Para chegar a esse número, o BC considerou o juro médio do rotativo regular – aquele em que o cliente paga pelo menos o mínimo exigido de 15% do saldo devedor – de 241% ao ano; o rotativo não regular – aquele em que o cliente não quita nada do saldo devedor e é direcionado para a renegociação da dívida – de 387% ao ano; e no rotativo parcelado, de 172% ao ano. E no cálculo são consideradas as instituições financeiras que realizaram operações de crédito no período e enviaram suas taxas ao Banco Central – algo entre 50 bancos.

No entanto, ao levar em conta os cinco maiores bancos do País, que detêm perto de 80% das operações de crédito do mercado, estaremos espelhando com mais fidelidade os juros cobrados do consumidor. Abaixo, os dados refletem as taxas de janeiro (média do mês de cada banco) e também as praticadas no período de 5 a 9 de fevereiro, deste ano.

Juros no rotativo do cartão ao ano (*)

Banco                               Regular                   Não regular           Parcelado

Jan          Fev              Jan           Fev          Jan       Fev

Banco do Brasil            174%        181%              241%       250%          145%    155%

Santander                     200%        200%            667%       657%           139%    151%

Itaú                                212%        215%              218%       218%            148%    161%

Caixa                              239%        244%            252%        251%            151%    157%

Bradesco                       242%        225%             790%        751%            83%      90%

(*) Cálculos baseados em dados do site do BC

Como se pode notar, o juro médio divulgado pela autoridade monetária, de 327,9% ao ano, pode ter passado longe da realidade de quem ficou pendurado no rotativo do cartão.

E não foi pouca gente, um total de R$ 17,6 bilhões foi liberado por essa linha de crédito, em janeiro. Um dinheiro sobre o qual se avança com muita facilidade, sem qualquer peneira burocrática, análise de crédito, nada disso. Ao contrário, a apresentação do dinheiro de plástico parece ser muito mais um convite ao descontrole financeiro, que tem um custo muito elevado. Perceba que para quem não consegue pagar nada da fatura, o juro zanza próximo de 20% ao mês no Bradesco.

 Cheque especial

O BC também divulgou a taxa média cheque especial em janeiro: 324,7% ao ano, ou 12,8% ao mês. Uma modalidade de crédito que é igualmente de fácil acesso e salgada ao correntista.

Vale lembrar que mesmo depois da queda do custo de captação de recursos pelos bancos, trazida pelo corte do juro básico da economia, a Selic, ao longo do ano passado, as taxas do cheque especial estão empacadas no mesmo nível há mais de um ano. Em janeiro de 2017, a média do juro do cheque especial estava em 328,3% ao ano ou 12,9% ao mês.

O próprio Banco Central vem estudando propostas para baixar os juros do cheque especial, a exemplo do que foi conseguido com o financiamento com o cartão de crédito.

Juros em 2018 (*)

Banco                        Janeiro                                     Fevereiro

mensal           anual                    mensal        anual

Bradesco          12,16%           296%                   12,21%         298%

Caixa                 12,45%           309%                   12,32%        303%

BB                      12,52%           311%                   12,52%         311%

Itaú                    12,73%           321%                   12,65%         317%

Santander         14,72%          420%                   14,76%         422%

(*) Dados de janeiro referem-se à média; os de fevereiro ao período de 5 a 9 do mês.