A tensão política, o dólar, as ações e a renda fixa

Regina Pitoscia

09 Abril 2018 | 00h48

(*) Com Tom Morooka

Em um ambiente que traz de volta à memória, de certa forma, o clima de instabilidade dos anos 1980/1990, o mercado de dólar passou a acolher investidores à procura de refúgio para seu dinheiro diante do aumento das incertezas político-eleitorais.

Insegurança relacionada especialmente com os desdobramentos que virão na esteira da prisão do ex-presidente Lula, na Polícia Federal de Curitiba, por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no caso do apartamento triplex, no Guarujá.

O clima de tensão política é latente, a preocupação com os rumos de todo esse processo ganha força nos mercados. Principalmente nos segmentos de renda variável, que reagem como sempre reagiram nessas horas: queda das ações e aceleração do dólar.

Decididamente, esses mercados parecem ter ingressado de vez no cenário de turbulência eleitoral, em que as chances de vitória de um ou outro candidato com seu respectivo programa de governo passam a figurar no centro das atenções e das decisões dos investidores.

No caso do mercado de dólar, embora a ordem de prisão contra o ex-presidente petista coloque o risco Lula mais distante no processo eleitoral em curso, as cotações só subiram ao longo da semana, acumulando alta superior a 2% no período.

Tradicionalmente, o mercado de dólar serve de refúgio e proteção para o dinheiro em momentos de incertezas político-econômicas, uma procura que leva à valorização da moeda americana.

Circulam palpites entre analistas e economistas de que, dependendo do perfil de candidato com maior chance de vitória na eleição presidencial de outubro, o dólar poderia chegar a R$ 3,50 e eventualmente, no pior dos cenários, a R$ 4 ou pouco mais.

Nem por isso, contudo, dá para apostar em uma valorização linear ou contínua do dólar rumo a essas cotações, ainda que a prisão de Lula adicione um tempero mais de nervosismo à crise política.

E tampouco em um esticão mais forte. Com um estoque de reservas em dólar de cerca de US$ 380 bilhões, o Banco Central tem poder de fogo para conter uma disparada mais forte da moeda americana, com reflexos nocivos à economia e à inflação.

Especialistas comentam que, diante da perspectiva de maior mobilidade das cotações, a aplicação de parte, não mais que 20%, dos recursos por meio de fundos cambiais poderia proporcionar um rendimento diferenciado e mais atraente ao investidor.

Para quem precisa de dólar para viagem futura, a dica continua sendo a compra picada, em pequenos lotes, de moeda americana, aproveitando o momento de recuo das cotações. A explicação é que essa estratégia possibilitaria a formação de um estoque de dólares por cotação média inferior à corrente no mercado.

Saída da renda fixa

Além da influência do cenário político no mercado financeiro, existe o desencanto com o achatamento da remuneração em aplicações de renda fixa tradicionais. Situação criada pela persistente queda da taxa básica de juros, a Selic, que está encorajando o investidor a correr mais risco em troca de maior rentabilidade.

Ganha força o processo de migração de recursos do mercado de renda fixa para o de renda variável, o que de certa forma pode dar alguma sustentação ao segmento de ações.

Os dados divulgados pela Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais, que representa o mercado de capitais e de investimentos) deixam claro o incremento dessa movimentação que tem reforçado a captação de recursos principalmente de dois produtos de renda variável: os fundos multimercados e ações.

De acordo com a Anbima, os multimercados tiveram uma captação líquida (depósitos menos resgates) de R$ 33,3 bilhões no primeiro trimestre, dos quais R$ 10,1 bilhões ingressados apenas em março. O saldo líquido dos primeiros três meses do ano é 47,3% superior ao do mesmo período do ano passado.

Os investimentos em ações redundaram em captação líquida para o segmento de R$ 8,8 bilhões no primeiro trimestre. Desse volume, mais da metade ou R$ 4,5 bilhões entraram em março.

A enxurrada de recursos para essas aplicações andou na contramão da brutal saída da renda fixa, que, no balanço trimestral, registrou queda de 92,1% no volume de captações. As entradas somaram apenas R$ 5,8 bilhões, um tombo se comparados com os R$ 73,3 bilhões no primeiro bimestre de 2017.

Segundo especialistas, a migração do aplicador da renda fixa para opções de maior risco, em busca de uma rentabilidade mais atraente, reflete o desapontamento de quem estava acostumado com taxas nominais e reais de juro, acima da inflação, tradicionalmente elevados.

Desta vez, a Selic veio ao chão – está em 6,50% e de acordo com algumas projeções poderá fechar 2018 arredondada em 6% ao ano – e, mais que isso, existe a expectativa de que ela poderá continuar rasteira por bom tempo, já que a inflação surpreende com seguidas baixas.

Riscos na turbulência

A perspectiva de ganho mais atraente em renda variável, como nos fundos multimercados e ações, que seduz o investidor embute também um risco mais elevado, minimizado em opções tradicionais de renda fixa. Especialmente no contexto atual, de pressão na esfera política que traz volatilidade ao mercado financeiro, com fortes e inesperados solavancos nos preços de ações, dólar e juros.

A estratégia de diversificação possibilita ganhos maiores, mas, como o risco de perda também é maior, o investidor deve destinar a essas aplicações de renda variável apenas uma parcela de seus recursos. A maior parte estará protegida, assegurando a correção monetária, na renda fixa, pelo menos durante o período de maior tensão.

Um rebalanceamento mais profundo das aplicações, segundo especialistas, poderia ficar para depois, quando o cenário político e pós-eleições presidenciais estiver mais claro.