Com a dança dos juros como ficam o crédito e as aplicações

Regina Pitoscia

26 Março 2018 | 00h20

As previsões continuam apontando para um cenário de inflação bem comportada neste ano. Pelos menos para os índices que o IBGE usa para medir a variação de preços na economia.

A prévia de inflação oficial em março, calculada pelo IPCA-15 (Índice de Preços ao Consumidor Amplo-15) e divulgada pelo IBGE na última sexta-feira, ficou em 0,10%, o que representa uma forte desaceleração em relação à de 0,38% de fevereiro.

Inflação em baixa, taxas de juro também em queda. No dia 21, o Banco Central (BC) reduziu mais 0,25 ponto porcentual a taxa básica de juro, a Selic, que recuou de 6,75% para 6,50% ao ano e pode cair mais.

No comunicado que divulgou após a reunião do Copom (Comitê de Política Monetária) que cortou a Selic, o BC sinalizou que a inflação baixa deixa o caminho aberto para possível nova redução em maio. Assim, não fica descartada nova queda de 0,25%, levando a Selic para 6,25%.

A Selic é a taxa de juro que o Tesouro paga ao mercado financeiro nos empréstimos de um dia, para a rolagem da dívida pública, e os bancos pagam aos investidores para a captação de recursos.

Quanto mais baixa a Selic, menor fica o custo do Tesouro e dos bancos nessas operações. Redução que não ocorre nos juros cobrados pelas instituições financeiras quando emprestam esses recursos para seus clientes que tomam crédito.

Crédito caro

O grande desafio do BC é, portanto, fazer os juros chegarem mais baixos aos diversos tipos de financiamento para que, de fato, a redução da Selic se reflita positivamente na retomada da atividade econômica.

Assim que o juro básico da economia foi definido em 6,50%, os grandes bancos avisaram que vão repassar o corte para seus clientes nas operações de financiamento. O mesmo que fizeram por ocasião da divulgação da Selic, cada vez mais baixa, nos últimos meses. Só que na prática, ou o recuo dos juros ao consumidor é mínimo ou nem refresca o custo dos empréstimos.

Falta transparência nos comunicados. Nem todos os bancos informam em que linhas de financiamento os juros vão ficar mais baixos. Ou, então, mencionam que os juros ficarão a partir de determinado nível. No cheque especial, por exemplo, o Santander anunciou juros a partir de 2,21% ao mês. No entanto, no site do Banco Central onde são publicados os juros pelos quais foram feitas as operações de crédito, no período de 5 a 9 de março, o juro do Santander é de 14,75% ao mês, ou 421% ao ano. São uns dos mais altos do mercado.

E os juros nos outros quatro bancos do País não estão muito longe disso, não saem da faixa de 12% ao mês há mais de um ano. Na primeira semana de março estavam em 12,1% no Bradesco, em 12,4% na Caixa, em 12,5% no BB, e 12,7% no Itaú.

Aplicações

Enquanto a torcida é que o corte da Selic chegue, em algum momento, aos financiamentos, quem tem dinheiro aplicado em renda fixa sente os efeitos imediatos dessa redução de juro.

Mais que isso, nota que, na contramão da queda da taxa básica prevista para este ano, desenha se a possibilidade de que a Selic retome a alta no próximo ano. Negócios fechados pelo mercado financeiro com juros futuros estimam insistentemente, seja por incertezas políticas ou econômicas, uma taxa ao redor de 9% ao ano no fim de 2018.

A dúvida que fica para o investidor é, se os juros correntes estão baixos, mas podem voltar a subir no ano que vem, qual a melhor escolha, uma aplicação de renda fixa com taxa pré ou pós-fixada?

A perspectiva de juro em queda rendeu ganhos atraentes ao investidor que, apostando nessa tendência, optou em anos recentes por aplicações com juros prefixados – que estavam elevados e foram mantidos quando as taxas passaram a cair, como corre até agora.

O cenário projetado no momento pelos negócios no mercado futuro de juros aponta o inverso, uma possível retomada de alta das taxas de juro no próximo ano. Quem aposta nessa possibilidade tenderia a ganhar em aplicações com juros pós-fixados – com rendimento calculado no resgate, quando as taxas estariam supostamente mais altas.

A dica de especialistas para quem aposta nesse cenário de juro em alta é a aplicação em títulos bancários, como os CDBs com juros pós-fixados, e títulos públicos, como a LFT (Letra Financeira do Tesouro, que rende juros pós-fixados atrelados à Selic), ofertada no programa Tesouro Direto, em aplicações pela internet, como Tesouro Selic.