Como ficam os juros, a caderneta e o dólar

Regina Pitoscia

18 Maio 2018 | 02h44

Como o Banco Central manteve a taxa básica de juros da economia, a Selic, em 6,5% ao ano, a caderneta de poupança continuará rendendo 0,37% ao mês, o que equivale a um rendimento líquido de 4,55% ao ano. A poupança permanece rendendo 70% da taxa Selic.

Para uma aplicação de R$ 10 mil, o rendimento mensal será de R$ 37,00 ou R$ 455,00 em um ano. Esse será o valor total a ser creditado ao investidor, porque não há cobrança de imposto de renda nem custos de administração do dinheiro, como acontece nos fundos de investimento, por exemplo.

A remuneração da poupança vai ficar estacionada nesse nível pelo menos até 20 de junho, quando o Comitê de Política Monetária (Copom) volta a se reunir para definir o rumo da Selic. Os diretores do Banco Central que participam desse comitê espiam o comportamento da inflação, do dólar e da economia para calibrar a taxa. Não tanto pela inflação, que segue sossegada, mas possivelmente pelo comportamento do dólar, a expectativa do mercado financeiro é que o ciclo de redução da Selic chegou ao fim.

Juros e dólar

A aposta é que a partir de agora o BC seja mais cauteloso e avalie os efeitos da escalada do dólar sobre a inflação antes de definir os próximos passos sobre a Selic. Ainda que, no primeiro momento, a expectativa é que a folgada capacidade ociosa na economia (a diferença entre o potencial de crescimento e o efetivamente realizado) deva inibir o repasse da valorização do dólar para os preços – a exceção, por enquanto, seriam os combustíveis, com seguidas altas de preço, puxadas pela disparada do preço internacional do petróleo, que resvalou acima de US$ 80 o barril.

Contribuiria para impedir nova redução da Selic também o estreitamento da diferença entre as taxas de juro domésticas e as americanas.  Por aqui, a Selic deslizou para 6,50% ao ano, na contramão do movimento dos juros dos títulos do Tesouro americano, que avançou além de 3% ao ano, no mercado secundário, para aplicação de dez anos.

O encurtamento dessa margem, que já foi bem mais elástica, faz com que o investidor estrangeiro tire os dólares daqui para aplicação nos EUA. A migração pode ser pouco menos rentável, mas considerada mais segura em relação ao risco dos títulos de renda fixa brasileiros.

Não faria sentido, para não dizer fora de lógica, o BC promover cortes na taxa de juros – que encorajam a saída de capitais em direção a títulos mais rentáveis no exterior e pressionam a cotação do dólar – e ao mesmo tempo oferecer títulos cambiais (swaps) para evitar a disparada do dólar. São contratos que, por proteger o investidor ou empresas contra o risco de variação cambial ao garantir a entrega futura de dólar, servem como instrumento para conter a valorização indesejada da moeda americana.

Renda fixa

Nesse cenário, parece bastante provável que o rendimento mensal da poupança não derreta abaixo desses 0,37% e tenha encontrado aí seu piso.

Com a referência dos juros em 6,5% ao ano não se deve esperar por melhores resultados no setor de renda fixa, como CDBs e fundos de renda fixa, para aplicações de curto prazo, inferior a um ou dois anos. A caderneta, embora com rendimento raquítico, ainda é opção para quem precisa mexer no dinheiro a cada mês ou está em busca de simplicidade na hora de investir e acompanhar a evolução de seu dinheiro.

Já quem tem pode deixar o dinheiro empregado por dois anos ou mais vai encontrar melhor opção com aplicações em outros papeis de renda fixa. Um título do Tesouro prefixado 2025 vai render no período 16,63%, de acordo com ofertas na plataforma da Rico Corretora, o que supera e muito os 9,31% a ser pagos pela poupança. Nesse caso, ficar na caderneta é perder dinheiro.

O cálculo do retorno em reais dá uma dimensão melhor da diferença entre as aplicações. Para uma aplicação de R$ 20 mil por dois anos, suponhamos, a rentabilidade da caderneta seria de R$ 1.861,41, e nesse título do Tesouro, de R$ 3.327,89, segundo simulações feitas pelo site da Rico, de rendimento líquido, quer dizer, com desconto de imposto de renda e taxa de 0,3% ao ano para aplicações no Tesouro Direto. Vai aí uma distância de mais de 79% entre uma e outra que deve ser considerada por quem já sabe que não vai precisar mexer nos recursos por esse período.

Mesmo que com esse rendimento bem mais interessante, a aplicação nesses títulos é tão segura quanto a caderneta. A garantia é dada pelo Tesouro Nacional, em última análise pelo governo, que emite esses papeis para financiar a dívida pública. A caderneta tem a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC), que devolve R$ 250 mil por CPF em caso de quebra da instituição financeira em que o dinheiro estiver aplicado.