O que você precisa saber sobre a arrancada do dólar

Regina Pitoscia

11 Maio 2018 | 00h21

(*) Com Tom Morooka

A escalada do dólar continua. O principal fator que mantém a moeda americana em rota de alta vem do exterior. É a própria valorização do dólar perante as principais moedas pelo mundo, incluído o real.

Pressão externa

O dólar engrenou esse movimento, a partir do exterior, e segue a trajetória, tracionado por uma série de fatores postos pelo caminho.

Por trás dela está a sempre renovada expectativa de elevação das taxas de juro nos EUA. A perspectiva de aumento de rentabilidade dos títulos do Tesouro americano atrai capitais estacionados em outros países para os EUA. Movimento que fortalece o dólar e enfraquece, com desvalorização, as demais moedas, o real incluído.

Os juros

No caso do Brasil, os seguidos cortes na taxa básica de juro, Selic, potencializam a saída de dólares. Desde outubro de 2016, quando o Banco Central iniciou o ciclo de cortes, o juro básico recuou de 14,25% ao ano para 6,50%, no momento, e pode encolher mais, para 6,25%.

Enquanto isso, nos EUA as taxas de juro se movem em direção oposta. A taxa dos Treasury Bonds (T-Bonds) de dez anos, principal referência de juro da renda fixa, já encostou em 3% ao ano. Como a inflação americana se aproxima de 2% ao ano, que é a meta inflacionária, isso dá um juro real em torno de 1% ao ano. Nada mal para um juro real que andou perto de zero e até negativo nos anos que seguintes à crise global de 2008.

Mais atraente ainda na comparação com o juro real doméstico estimado em torno de 3% (diferença entre a Selic próxima de 6% ao ano e inflação oficial ao redor de 3%). Diante do estreitamento da diferença do juro real interno na comparação com o americano, o investidor tem preferido claramente a taxa real proporcionada pela aplicação em dólar.

Os fatores de valorização do dólar vão além. A alta reflete também o aumento das incertezas políticas e econômicas em contexto global, sentimento que leva o investidor a procurar refúgio e proteção no dólar.

Há o temor de que as principais economias, em recuperação pós-crise, sejam prejudicadas com o acirramento da disputa comercial entre os EUA e a China, da disputa geopolítica no Oriente Médio, que põe em choque o interesse de grandes potências e envolve desde a guerra civil na Síria até o novo foco de tensão, um possível confronto entre Irã e Israel.

Um dos efeitos do agravamento de tensão no Oriente Médio é a escalada recente nos preços do petróleo, com a cotação do barril do tipo Brent (produzido no Mar do Norte) passando de US$ 70. A alta do preço do petróleo tende a pressionar a inflação e, por tabela, os juros nos EUA.

Principais reflexos

A valorização do dólar por aqui, por enquanto, expressaria basicamente uma reação a fontes de incerteza externas. Indicação disso é que a pressão está concentrada no mercado de câmbio, sem afetar com fortes solavancos os segmentos de ações e de juros.

Entre altas e baixas, a bolsa de valores tem patinado em torno de 85 mil pontos, mais influenciada por fatores pontuais domésticos, ligados ao desempenho de empresas. Investidores ressabiados da bolsa, ademais, têm procurado proteção (hedge) contra possíveis riscos cambiais com a compra de dólar futuro.

O mercado de renda fixa também segue sem grandes abalos, apesar da arrancada do dólar, sem temer aparentemente os possíveis efeitos negativos da alta da moeda americana sobre a inflação. A ponto de apostar em novo corte de 0,25 ponto porcentual na Selic, na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), semana que vem.

A expectativa é que os efeitos da escalada do dólar atinjam mais a economia real. Mas nem sempre de forma negativa. Ela beneficia, por exemplo, o setor exportador, que recebe mais reais na conversão de dólares pelos produtos vendidos ao exterior. Quem importa mercadorias e bens pagará mais caro por eles, um aumento de custo que poderia atrapalhar adicionalmente o processo de recuperação da atividade.

O efeito do movimento do dólar sobre a inflação divide opiniões. Para uma ala de analistas, o encarecimento dos importados, sobretudo do petróleo, tende a pressionar a inflação, via aumento do preço de combustíveis. Para outros, a atividade fraca e a capacidade ociosa (ampla diferença entre o potencial de produção e o que é efetivamente produzido) tende a amortecer o efeito negativo sobre os preços.

Atuação do BC

O Banco Central (BC), de todo modo, tem instrumentos para conter uma escalada mais forte do dólar. A autoridade monetária já deixou claro que pode ofertar contratos de venda futura de dólar, os swaps cambiais, que protegem o comprador contra a variação cambial ou vender diretamente dólar em papel-moeda. O cacife do BC é enorme, uma montanha de US$ 383 bilhões empilhados em reservas internacionais, que poderiam ser despejados no mercado.

O uso de swaps cambiais, a que o BC tem recorrido no momento, é um instrumento de venda de dólares mantidos em reserva sem de fato vendê-los, portanto sem perda de reservas. Depende da opção do comprador. No vencimento do contrato, o investidor poderá receber o valor em dólares ou o equivalente em reais, acrescido de juros, caso a variação cambial no período tenha sido inferior à variação das taxas de juro.

Boa parte dos analistas e especialistas do mercado financeiro entendem que, cedo ou tarde, o BC terá de aumentar o volume de swaps cambiais além dos ofertados no momento, diante de possível agravamento das indefinições externas e internas, estas ligadas à corrida eleitoral que deve passar a influenciar cada vez mais os mercados. A menos que queira fazer vista grossa a uma possível valorização que, segundo algumas previsões, poderia levar o dólar a R$ 4 ou mais, ainda antes ou depois das eleições presidenciais, dependendo do candidato vitorioso nas urnas em outubro.

Proteção cambial

Apesar da perspectiva de valorização, a compra de dólares pelas pessoas físicas não é considerada boa opção de investimento. Para especialistas, a aquisição de moeda americana é indicada mais como proteção ao capital, seja por meio de aplicação em fundos cambiais, oferecidos por bancos e corretoras, seja pela compra direta de moeda. Principalmente para quem vai viajar ao exterior. Tentar lucrar especulando com dólar, principalmente nos fundos cambiais, é considerado uma aposta de elevado risco.

Qualquer pessoa pode comprar dólares ou outra moeda estrangeira pelo câmbio turismo até US$ 3 mil ou R$ 10.650, aproximadamente. Sem burocracia, apenas com RG e CPF. Acima desse valor, será preciso comprovar a origem do dinheiro da compra. Servem a declaração de renda ou o contracheque.

Atendidas as exigências formais, não existe limite de valor para a compra de moeda estrangeira. O mais indicado pelos especialistas é a compra gradual, em pequenos lotes, aproveitando o momento de baixa das cotações, já que o mercado deve conviver com fortes oscilações de preço.

Um cuidado importante, para não correr o risco de receber notas falsas, é comprar dólares apenas em casas autorizadas pelo BC, como casas de câmbio, agências de turismo, bancos, corretoras e correspondentes bancários, como Correios e casas lotéricas. O site do BC traz a lista dos agentes autorizados a operar com câmbio.